Fio da Meada, Fio da Navalha em Covelinhas

Texto de Eduardo d’Almeida

Seriam cerca das 17h00 do passado dia 14 de Julho quando, envergando o papel de mestre-de-cerimónias, Pedro Chaves abriu as hostilidades na aldeia de Covelinhas, na antiga Freguesia de S. Martinho das Moitas, a fim de guiar os presentes pelos meandros do livro Fio da Meada, Fio da Navalha, na presença dos respectivos autores, Cassiano Fernandes Martins e Carlos Alberto Paiva. Um estreante absoluto nestas andanças (pelo menos para os que ali se encontravam), Pedro Chaves fez jus ao seu nome, sendo a chave que abriu as portas para uma sessão bem-disposta, esclarecedora, e carregada de emoções, não tivesse o protagonista da obra (o primeiro dos citados autores), nos seus tempos de juventude calcorreado os caminhos daquela aldeia. Esta ligação dir-se-ia que quase umbilical ficou, de resto, bem espelhada numa mão-cheia de versos que declamou ante os presentes, trazendo para aquela ocasião a memória de pessoas e de experiências que, a julgar pelos semblantes comovidos dos circunstantes, muito significavam ainda. A palavra andou de boca em boca, entre leituras de excertos assim como de intervenções que a todos fizeram oscilar entre a gargalhada, o sorriso, e a mais sentida lágrima.

Além dos referidos, intervieram Anabela Teixeira, Presidente da associação local promotora do evento – ARCAS de Covelinhas –, José Vasco Paiva Martins, Presidente da Junta de Freguesia e acérrimo defensor destas iniciativas, e, por fim, José Matos Pinho, em superior representação do edil sampedrense. Para corolário de tão dinâmica sessão, seguiu-se um lanche digno da mesa de um rei, entremeado com um bailarico improvisado pela chegada de um acordeão – e em boa hora, porque ninguém se fez rogado e a atmosfera criada como que reeditou, por momentos, os convívios daquele ‘antigamente’ que a obra em apreço, em certas passagens, retrata com nitidez.

Parabéns a todos os intervenientes, que se entregaram de alma e coração ao que a ocasião deles pedia. Para remate, ficam os versos que Cassiano Fernandes Martins confessa ter escrito, na noite anterior, sobre a bancada da cozinha, assoberbado pelas lembranças do que viveu na acolhedora aldeia de Covelinhas. Quem assim escreve não é gago, nem de boca, nem de emoções!

 

———————————

Stº. Estevão e Covelinhas

São as aldeias rainhas

Onde passei a mocidade.

Alguém diz, aqui presente:

O Cassiano não mente,

Sim, senhor, é verdade.

 

Ao som da concertina

Aqui dancei com muita menina,

Às vezes sem desatino.

Porque o Adriano Vilarinho,

Quando bebia um copinho,

Teimava com a concertina

Para ela ceder à valsa

E não ao corridinho.

 

Mas o Pinto de Grijó,

Com o queixo no violino:

Ó Adriano, tem dó!

Mais devagarinho,

Assim não é corridinho!..

Passa a ser rodeada,

Depois a rapaziada,

Que não gosta da música apressada,

Diz assim à sua dama:

Estávamos melhor na cama!..

No meio dos lençóis de linho

Distribuíamos mais carinho,

Até ao romper da madrugada…

E sem o dó, o ré, ou o mi menor,

Passávamos ao mi

Sem dó em cima de si,

Com muito mais pormenor,

E seria uma noite louca,

Porque a música era outra…

 

Covelinhas; tenho muito prazer

No que vos vou dizer,

Com a minha alma em brasa:

Confesso com muita alegria,

Que agora, e aqui, neste dia,

Me sinto na minha casa.

• Cassiano Fernandes Martins

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *