Festival Literário de Manhouce

Na Escola Primária de Manhouce de 16 a 18 de junho

Manhouce recebe a edição de estreia do festival literário “A gente (não) lê” nos dias 16, 17 e 18 de junho. Numa afirmação orgulhosa das suas tradições e da sua ancestralidade, a aldeia abre-se ao mundo e veste-se de festa para acolher todos os que amam os livros.

No programa, Capicua, Raquel Marinho, Tânia Ganho, Isabela Figueiredo, Sérgio Sousa Pinto, a música-poesia de Ana Lua Caiano, a polifonia inconfundível de Isabel Silvestre e das mulheres de Manhouce e, ainda, uma Homenagem a José Pinho.

Ai Senhor das Furnas,

Que escuro vai dentro de nós,

Rezar o terço ao fim da tarde,

Só p’ra espantar a solidão,

E rogar a Deus que nos guarde,

Confiar-lhe o destino na mão.

Que adianta saber as marés,

Os frutos e as sementeiras,

Tratar por tu os ofícios,

Entender o suão e os animais,

Falar o dialecto da terra,

Conhecer-lhe o corpo pelos sinais.

E do resto entender mal,

Não ver os vultos furtivos,

Que nos tramam por trás da luz.

Ai Senhor das Furnas,

Que escuro vai dentro de nós,

A gente morre logo ao nascer,

Com olhos rasos de lezíria,

De boca em boca passando o saber,

Com os provérbios que ficam na gíria.

De que nos vale esta pureza,

Sem ler fica-se pederneira,

Agita-se a solidão cá no fundo,

Fica-se sentado à soleira,

A ouvir os ruídos do mundo,

E a entende-los à nossa maneira.

Carregar a superstição,

De ser pequeno ser ninguém,

Mas não quebrar a tradição,

Que nos nossos avós já vem.

15/06/2023


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