Fernando Luís

Estórias da Nossa História Crenças e Superstições (II)

NAS POLDRAS DA BARCA

As poldras do Sobral sulcadas pela travessia de muitas gerações

A nascente do concelho de S. Pedro do Sul, nos limites da freguesia de Pinho, com o Vouga a marcar a fronteira, tínhamos e temos a airosa povoação do Sobral. No início do século vinte era ainda um lugar densamente povoado a viver da agricultura, da pastorícia, mas também já de alguma floresta.

Com a igreja paroquial a mais de uma légua de caminho, aquele povo, no que toca ao sobrenatural, acomodava-se ainda nas tradicionais encomendações, responsos e outras crenças.

Por isso o Manel Bento, antes do Pai Nossa da doutrina, aprendeu, pela avó, o padre nosso pequenino.

(..) Cruz no monte, cruz na fonte,

Nunca o diabo me encontre,

 Nem de noite nem de dia,

Nem à hora do meio dia.

Naquela terça-feira, levantou-se ainda antes do cantar do galo. O dia prometia uma tempestade daquelas que o povo costumava dizer que trazia o diabo no ventre.

Mas, os compromissos que lhe tinham apontado a cidade de Viseu como destino falavam mais alto que as fortes rajadas de vento que torciam e retorciam as muitas oliveiras que circundavam o lugar.

Ainda escuro, pelo tino, lá foi descobrindo, encosta abaixo, o carreiro íngreme até ao Vouga. Para além do vento e da chuva, agora eram também os trovões que começavam a ribombar para os lados da Paraduça, com os relâmpagos a iluminarem pontualmente o Vouga caudaloso a avançar já sobre algumas pedras das poldras.

Rogando a Santa Bárbara, a S. Cristóvão e a S. Gonçalo, ia ganhando coragem para chegar a terras de Viseu.

Na cabeça, a dúvida: pela divina Providência e todos os santos, tinha a certeza que chegaria à casa do Zé da Barca que, prevendo a cheia, já tinha, no açude do moinho, tapado a água na levada; por outro lado, o diabo podia desequilibra-lo e então, arrastado na corrente, só pararia no primeiro tronco de amieiro onde os conterrâneos o irem resgatar para, em terra,  lhe fazerem o merecido enterro como bom cristão.

A necessidade de ir à feira e principalmente o receber o dinheiro da resina foi determinante. Arregaçou as calças, botas de cordéis atados escancaradas ao ombro, lá foi à procura das pedras firmes das poldras.

Tem-te não caias foi avançando…  A corrente era cada vez mais forte e a vara de lódão, que ajudou no início, no meio do rio, já nem o fundo conseguia encontrar.

Só lhe restava rezar. Ao fim de cada padre nosso confessava, com toda a fé e convicção: Deus é bom!

Ora, o vento que continuava a soprar forte, lembrava-lhe mais o mafarrico. Então, timidamente, acrescentava: … mas o diabo também não é mau…

Quando pôs o pé em terra firme, com a trovoada, para lá do S. Macário, a caminho do Porto, voltou o Manel Bento a ser o senhor do mundo.

Encosta acima, a caminho de Lustosa, olhando a estrada de macadame, em plena luz do dia, com passo firme, reparou no sino saimão, de cinco pontas, que havia traçado, a golpe de navalha, no cimo do pau. Parou. No meio de um turbilhão de pensamentos e crenças a invadirem-lhe a mente, rematou:

– Deus é bom!  Mas, cá por coisas … o diabo não é assim tão mau…

Nota: Neste texto, o autor optou por não seguir as regras do novo acordo ortográfico

 30/09/2021


 

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