Fernando Luís
Estórias da Nossa História - CRENÇAS E SUPERSTIÇÕES (I)
Leite de Vasconcelos, o grande etnógrafo de Portugal (in Portal Galego da Língua)
José Leite de Vasconcelos, o fundador do Museu Nacional de Arqueologia, nasceu no lugar de Ucanha, Tarouca, em 1858 onde viria a falecer em 1941, portanto em pleno século vinte.
Formado inicialmente em Ciências Naturais e depois em Medicina, apenas exerceu, como médico, durante um ano. Veio a ganhar notoriedade nos campos da Filologia, da Arqueologia e da Etnografia.
É a propósito deste ramo do conhecimento que aqui destaco o nome do Dr. Leite de Vasconcelos.
A obra Etnografia Portuguesa, editada pela Imprensa Nacional Casa da Moeda traduz um árduo e profícuo trabalho realizado ao longo de mais de 70 anos.
Nos vários volumes, encontramos retratada, em pormenor, a vida tradicional portuguesa no que diz respeito ao território, ao indivíduo, à família e à vida em sociedade.
Porque muitas das minhas estórias, ainda que limitadas a algumas freguesias e respectivas comunidades, encontram na obra de Leite de Vasconcelos o suporte documental do que escrevo, aqui fica a mais que justa referência a este grande nome da nossa cultura.
Ainda que hoje seja o tempo em que a ciência tenta dar todas as explicações, o povo rural e até o urbano, mais aquele que este, no que toca à cura das maleitas e achaques ainda não ultrapassou o seu carácter primitivo, mágico, astrológico, feiticista e agoureiro.
É por isso que, para dar sorte, se encontrarmos uma ferradura, devemos apanhá-la com a mão esquerda e levantar um pé.
Também para que na família tudo corra bem, a broa deve estar, na mesa, de base para baixo, com a côdea para cima e, pela nossa saúde, devemos comer muitos agriões para ter bons pulmões e não esquecer que a laranja pela manhã é ouro, à tarde prata e à noite mata.
Quem nunca ouviu que é mau presságio, à noite, ouvir o piar do mocho ou o uivar de um cão?
Ou quando se sente a orelha quente é porque alguém está a falar de nós. Neste caso, a tradição recomenda que devemos dar um nó, bem apertado, no lenço de assoar e morder a gola da camisa para que o maldizente trinque a língua.
Nas nossas lendas, romances ou filmes, não faltam as bruxas e lobisomens, que nos empurram para o mal e também as fadas e os anjos bons que nos puxam para o bem.
As práticas institucionais da Igreja Católica, saídas dos antigos concílios, concretizadas na segregação dos mouros, na perseguição aos judeus, ou na queima das feiticeiras nos terreiros da Inquisição, nunca conseguiram limpar da nossa mente as crenças ancestrais da religião antiga.
A tradição oral conseguiu trazer, até aos nossos dias, as rezas, os responsos, os bruxedos, as práticas que curam a alma do próprio ou entravam a do vizinho.
É nestas águas das nossas crenças e tradições que navegarão as minhas próximas estórias.
(Neste texto, o autor optou por não seguir as normas do novo acordo ortográfico)
29/07/2021

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