Fernando Luís

Estórias da Nossa História - HIERARQUIA E PIEDADE POPULAR (III)

• Por Fernando Luís*

Manda o calendário que, lá para meados de Maio, quando as urzes e a carqueja enfeitam a serra de S. Macário, se deve celebrar a festa do Espírito Santo.

Estávamos então na preparação da Festa do Espírito Santo, em Oliveira de Sul.

Os mordomos organizavam tudo para que nada faltasse.

Na missa, tinham que ser, no mínimo, três padres ao altar e um pregador afamado. Na procissão, não podiam faltar os irmãos da irmandade com as suas opas garridas para percorrer as ruas ao som da banda com música a compasso.

Mas, para além da música e do pregador havia outra coisa que não podia faltar, o foguetório. Com os morteiros tremia a terra anunciando, de véspera ou na madrugada, que era dia de festa. No dia, os de estalaria, mais suaves, alegres e harmoniosos compunham o ramo. O Manel Figueiredo depressa os fazia chegar. Nespereira estava do outro lado, no cimo da encosta.

Ora, como escrevemos, no último número, estava proibido pelo bispo de Viseu, o uso de foguetes nas festas religiosas da sua diocese.

O povo é que não achava graça nenhuma ao decreto: fazer-se a festa do Sprito Santo sem foguetes, é que não…

Os mordomos não se conformavam. Como não podiam chegar ao bispo, o padre, jovem e novato na função, é que os ouvia e aturava. Empurrado pelas figuras mais distintas da terra, lá foi humildemente até ao paço episcopal, rogar por uma simples descarga de fogo que lembrasse às freguesias vizinhas que a festa de Oliveira continuava a ser das mais importantes nas redondezas.

Depois de lhe dar a beijar o anel, lembrando ao padre o respeito e obediência que lhe era devida, o bispo iniciou informalmente a conversa:

– Então padre António, como é que se está a ver numa das maiores paróquias de S. Pedro?

– Muito trabalho senhor bispo, muitas capelanias, muitos lugares…

– Ora, para um padre na flor da idade as longas caminhadas não são problema. Mas então, a que devo a honra da sua inesperada visita?

– É que…  como vossa reverência bem sabe, temos, no próximo fim-de-semana, a festa ao Divino Espírito Santo.  Por sinal, ali, é feita num dos mais importantes lugares da freguesia.

– Que seja celebrada com toda a dignidade a missa solene em honra da terceira pessoa da Santíssima Trindade. Depois da Páscoa da Ressurreição, a festa do Pentecostes é das mais importantes na vida da Igreja.

Que os fiéis participem com toda a devoção e respeito, guardem a palavra da pregação e a irmandade participe conforme usos e costumes.

– Sim senhor Bispo, nisso estamos todos de acordo. Os mordomos também querem que a festa respeite os usos e costumes. Missa solene, sermão, procissão, música e…. foguetes.

– A música também é importante. Cantar é rezar duas vezes. Que a festa seja bonita para os homens, mas o importante é que agrade a Deus.

– Mas, senhor bispo, e os foguetes? Podem deitá-los?

Num rasgo de inteligência, lá chegou o não que o jovem pároco tanto temia, embrulhado em meio eufemismo:

– Sim, os foguetes… os foguetes… podem botá-los… a um poço!

Era assim o bispo, era assim a hierarquia. O distanciamento entre a igreja temporal e a espiritual era já notório.

 (Neste texto, o autor optou por não seguir as normas do novo acordo ortográfico)

27/05/2021


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