Fernando Luís

Hierarquia e Piedade Popular (II)

Estórias da Nossa História

Hierarquia e Piedade Popular (II)

D. José da Cruz Moreira Pinto, Bispo de Viseu

Como escrevemos no último número, a prática da religiosidade popular foi sempre mais tolerada que apoiada pela hierarquia da Igreja Católica.

O homem sempre teve respeito – ou medo – no que toca ao sobrenatural, o que o levava a rezar a vários deuses. A Igreja viu que a melhor forma de expandir e implementar a nova doutrina era, sem violência, substituir este culto pagão pela adoração ao Deus único e verdadeiro.

Nos antigos templos, situados em lugares privilegiados, principalmente no alto dos montes, essas divindades foram substituídas por santos e mártires do actual calendário litúrgico. É por isso que temos, em Viana do Castelo, o santuário de Santa Luzia, o da Senhora da Graça, em Mondim ou o nosso S. Macário, no alto com o mesmo nome.

Depois, com o decorrer dos anos, os bispos e os padres entenderam que era melhor trazer a prática religiosa para os vales férteis onde cresciam os povoados, rodeados pelos campos agrícolas. Foi assim que aí se construíram as igrejas paroquiais ou amplas capelas. A estória que quero começar a contar passou-se numa destas terras do concelho de S. Pedro do Sul.

Era, naquele tempo, bispo de Viseu, D. José da Cruz Moreira Pinto, o prelado que mais tempo esteve à frente da diocese. Homem de sabedoria e cultura. Já nessa altura, em 1913, frequentou, na Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, as formaturas em Ciências Político-Sociais e em Filosofia, onde se doutorou, em 1921, depois de ter interrompido os estudos devido à I Guerra Mundial. Viria a revelar-se depois como orador brilhante e hábil jornalista.  Na nossa diocese deixou obra de vulto.

A ele se devem as construções dos seminários de Fornos de Algodres e Viseu e a fundação do Presbitério de S. Pio X destinado a recolher sacerdotes doentes e sem recursos. Incentivou os párocos para o restauro de templos arruinados e teve ainda grande empenho na conservação do património artístico da diocese.

Com uma personalidade forte, forjada na resistência à política anticlerical da I República, aproveitou, em pleno, os ventos favoráveis do Estado Novo, principalmente para as obras atrás referidas. O Seminário maior foi reconstruído no antigo edifício, expropriado em 1910 e resgatado em 1950, depois de ali ter funcionado um quartel militar

Era, no entanto, um bispo disciplinador em relação ao clero e rigoroso para com os leigos.

Ora é, no contexto da sua personalidade, que decorre a nossa estória.

Numa visita pastoral a uma paróquia da diocese, uma descarga de fogo de artifício que se destinava a saudar a chegada da comitiva, tinha assustado e derrubado o cavalo onde vinha montado o bispo auxiliar que ia em missão àquela paróquia.

Então, o bispo titular, como já dissemos, figura empreendedora que durante 36 anos governou a diocese, mas também muito autoritário, não esteve com meias medidas. Proibiu os foguetes em todas as festas religiosas do reino, ou seja, da sua diocese.

Na altura, até se deu um caso curioso, lá para os lados do Douro, devido ao facto de o distrito de Viseu ser servido por duas dioceses, a de Viseu e a de Lamego. Na freguesia de Sequeiros, concelho de Aguiar da Beira, numa festa religiosa, a procissão tinha que atravessar a ponte sobre o rio Távora. Enquanto os andores estavam em território viseense apenas o instrumental da banda se fazia ouvir. Depois, quando o padre entrou em território lamecense foi tal o estardalhaço …

Infelizmente, como veremos no próximo número, em Oliveira de Sul não pôde acontecer o mesmo.

 (Neste texto, o autor optou por não seguir as normas do novo acordo ortográfico)


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