Fernando Luís*

Estórias da Nossa História - HIERARQUIA E PIEDADE POPULAR (I)

Para a linguista Helena Figueira, as palavras estória e história, partindo ambas do Grego, divergiram depois para historia (ae) no Latim e estória (story) no Inglês.

Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, a estória será uma narrativa de cunho popular e tradicional.

Ora, é neste enquadramento, com alguma ficção, que pretendo passar à escrita, circunstâncias a que assisti e outras que me foram relatadas. Episódios que, sem estrarem ligados a grandes feitos e grandes obras, fizeram parte da vivência quotidiana dos homens e das mulheres do nosso povo.

Como as tristezas nunca pagaram as dívidas, a nossa simples e boa gente tinha a arte e a resiliência para brincar com coisas sérias, apesar da pouca fortuna que lhe calhava em sorte.

A propósito da religiosidade popular, escreveu, e bem, o saudoso padre e jornalista Rui Osório que esta é a fé do povo que se faz vida e cultura.

Concretizando, afirma mesmo que as nossas comunidades cristãs perderam muito com o desaparecimento de manifestações populares religiosas como era a visita pascal. Ou a celebração dos santos, acrescento eu.

Diz ainda que a piedade popular, que mobiliza centenas e milhares de pessoas atraídas pelo sagrado, lhes purifica a consciência, ilumina a razão, lava o coração e acalenta os afectos.

É também isto o que sinto quando vejo os olhos em lágrimas dos devotos, no altar de Santa Luzia, em dia de Pascoela; ou quando, em Setembro, ao calor outonal do Verão, os devotos percorrem longos caminhos, para Soutelo ou Arcozelo, de visita à Santa Eufémia; ou quando os nossos antepassados acorriam de todo o Portugal e do mundo à Senhora da Lapa e, agora, a Fátima.

Faz-nos falta, a nível pessoal e comunitário, esta prática religiosa, estas tradições que formaram, ao longo dos séculos, a nossa cultura da fé.

Não sou o mais habilitado para aprofundar o tema e encontrar as razões que levam a este afastamento crescente entre o pensamento do povo e as normas emanadas da hierarquia da Igreja.

Com estes escritos sobre realidades vividas e agora contadas, apenas pretendo deixar ao leitor alguns factos. Deles, cada um tirará o que entender.

A primeira estória será publicada no próximo número.

*Professor

(Neste texto, o autor optou por não seguir as normas do novo acordo ortográfico)


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