Fernando Luís*

Estórias da Nossa História (IX) (Cont.) - De S. Pedro do Sul a Alva - No século XIX

Estórias da Nossa História (IX) (Cont.)

De S. Pedro do Sul a Alva

No século XIX

Como prometi na minha última colaboração deste jornal, hoje vou transcrever, em ortografia actual, a discrição das peripécias de uma viagem que Pinho Leal, militar, escritor e historiador, fez, em 1854, de S. Pedro do Sul a Alva, na parte do percurso a partir da Cobertinha.

(..) Quisemos alugar cavalgaduras em S. Pedro do Sul, mas não as encontrámos e por isso resolvemos ir a pé para Cobertinha, esperando encontra-las ali, mas debalde as procurámos também.

Como ainda o sol fosse alto e ali não houvesse hospedarias, fomos a pé para Alva, povoação já nossa conhecida e muito mais importante.

Surpreendeu-nos a noite a meio da maldita légua, sobrevindo chuva glacial e uma escuridão medonha!

Levávamos percorridos 70 quilómetros desde Avelãs, – íamos já moídos como salada e não podíamos dar um passo; mas o terreno era completamente deserto e só em Alva poderíamos encontrar abrigo. Fazendo, pois, das tripas coração, esforçamo-nos por transpor aquele húmido, escabroso e negro deserto, mas sucumbimos muitas vezes e – só depois de esgotadas as últimas forças – chegámos a Alva moidíssimos, suados e encharcados em lama!

Batemos a muitas portas, mas nenhuma se nos abriu; apenas nos indicaram a casa do regedor, como a única em que podíamos pernoitar.

Depois de muitos tombos, chegámos à dita casa, nossa última esperança; falou-nos uma mulher dizendo que não nos podia receber, porque estava o seu marido ausente.

E fechou imediatamente a porta.

Não se imagina o nosso desapontamento e a tristeza que de nós se apoderou sem esperanças de encontrarmos abrigo – depois de tantos e tais trabalhos?!…

Sentámo-nos no degrau do pátio, expostos à chuva e ao vento, tiritando com frio, silenciosos e chorando a nossa desgraça, convencidos que antes de amanhecer, ali morreríamos, porque a noite estava chuvosa e glacial e nos era absolutamente impossível transpormos a grande légua que ainda nos separava de Castro Daire.

Naquela tristíssima e angustiosa situação passámos uma hora talvez, chorando encostados um ao outro, até que de repente subiu as escadas um homem com um varapau na mão. Defrontando-se com dois vultos, disse em voz de estentor:

– Quem está aí?

– Somos dois pobres estudantes que vão de Coimbra para Lamego (respondemos nós com as lágrimas nos olhos). Vimos já hoje de Avelãs do Caminho e pedíamos por esmola abrigo para esta noite!…

Recebeu-nos o santo homem prontamente. Expusemos-lhe a nossa desgraça; pedimos-lhe que nos mandasse matar uma galinha e nos desse água quente para banharmos os pés, que nós tudo pagaríamos.

Anuiu a tudo o bom do homem; – apareceram logo muitas raparigas da terra que vinham (na forma do costume) fazer serão para a mesma sala onde estávamos; cantaram e palestraram e nós comemos, palestrámos e cantámos também; passámos o resto da noite em palheiro enxuto e de manhã seguimos a pé para Castro Daire, onde alugámos cavalgaduras que nos levaram até nossas casas, nos arrabaldes de Lamego. (…)

Nesta discrição de Pinho Leal, conseguimos vislumbrar alguns costumes que orientavam a vida social do século dezanove.

Curiosamente, nesta sua obra Portugal Antigo e Moderno, manifesta também o autor alguma admiração pelo progresso, ao referir que, em 1855/56, já existia estrada em macadame que servia Alva e Cobertinha, onde passavam duas boas diligências e  mais uma estrada, em construção, entre Lamego e Viseu passando por Mondim da Beira, Barrelas e Fráguas.

Nota: Neste texto, o autor optou por não seguir as regras do novo acordo ortográfico

*Professor

28/07/2022


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