Fernando Luís
Estórias da Nossa História (VIII)
Na Visita Pascal

Como escrevemos, na crónica anterior, era nas cerimónias da Semana Santa que o seminarista começava a ganhar protagonismo.
No Domingo de Páscoa, lá se apresentava ele, aprimorado no carinho da mãe, para acompanhar o senhor abade na visita pascal.
Percorria-se, a pé, toda a freguesia. O almoço era no Soito, a meio da jornada, em família que fazia questão de receber o Senhor e quem o acompanhava.
Em dias de calor, na parte da tarde, chegava o cansaço. Fazia-se então a costumada pausa, no Peso, para um chá. Mais que bebida revigorante era um gesto que distinguia a principal casa daquele pequeno lugar.
À noite, o mordomo do ramo de Goja encarregava-se do jantar, na abundância das carnes caseiras preparadas, com esmero, pela dona da casa ou por mulher da aldeia com dotes culinários certificados em bodas de casamento ou baptizado.
Como a freguesia era dispersa, a visita pascal era feita em duas etapas.
Da primeira acabámos de falar. A segunda, cumprida em dia de Pascoela, começava em Joazim, passava por diversos lugares de Nespereira, Ribeira de Amarante, Vale de Macieira indo terminar no extinto lugar do Arcal.
Mais uma vez, o mordomo do senhor estava incumbido do almoço. Depois, continuava a parar-se em algumas casas para mastigar e principalmente… beber.
Por estreitos carreiros, lá se ia de porta em porta.
Ao descer por um deles, bem íngreme, o filho mais novo do mordomo do ramo de Nespereira, largou a caldeirinha e lá foi, encosta abaixo, toda a água benta.
Não demorou muito que, às escondidas do padre, o sacristão, o tal juiz da igreja, a enchesse no primeiro rego de água que encontrou.
Na casa seguinte, depois de toda a gente, em silêncio, ter beijado a cruz, logo a mais velha, a viúva da família pediu abundância de água, principalmente para trás da porta, onde se refugiava o mafarrico. Perante isto, o juiz da igreja, em surdina, murmurava:
– Bota, bota… água da poça do Vale do Salgueiro.
Comidos e os mais velhos bem bebidos, continuaram a serpentear trilhos estreitos, por entre lameiros, com passagem obrigatória pelo bordo de uma poça que corria, até finais de Maio, de bueiro aberto.
Primeiro passou o da campainha, depois o da água benta, os mordomos do senhor e, de seguida, o juiz que levava a cruz. Ou porque as pernas lhe tremessem ou o morangueiro lhe turvasse a vista, começou a cambalear. Agarra aqui, agarra ali, lá se estatelou com a cruz a mergulhar, por entre agriões, na água da poça, O padre que fechava o grupo, de imediato, acorreu a recuperar a preciosa alfaia litúrgica. Esquecendo o sacristão que, com grande dificuldade, se ia levantando e sacudindo a água e a lama, fixou a imagem naquele Cristo, crucificado e encharcadinho, e confessou-lhe piedosamente:
– Ai Cristo, Cristo! Só tu é que não vais bêbado!…
São estas frases repentinas e estas histórias, à volta das datas principais do calendário religioso, que também ajudam a caracterizar a vida passada do nosso povo.
Fernando Luís
Nota: Neste texto, o autor optou por não seguir as regras do novo acordo ortográfico
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