Fernando Luís

Estórias da Nossa História (VII) - Na Semana Santa

Estórias da Nossa História (VII)

Na Semana Santa

Naquele tempo, terminada a 4ªclasse, os rapazes tinham um de três destinos: ou iam aprender uma arte, estudar para o liceu, escola comercial ou colégio particular, os mais abastados, ou iam para o seminário, os das famílias mais pobres ou remediadas.

Estes, em Outubro, passavam ao lado da vila e apanhavam, no Largo de Santa Cristina, em Viseu, a camioneta do Amândio Paraíso que, carregada de malas, no tejadilho, os levaria a ares da Estrela, em Fornos de Algodres, já no distrito da Guarda mas ainda na diocese de Viseu.

Disciplina e estudo, por esta ordem, eram seguidos a rigor, em jeito de clausura, até ao Natal. Terminado o primeiro período, eram momentos da ansiada satisfação pelo regresso do gaiato ao seio da família. Momento que não fazia esquecer, mas amenizava, o sacrifício e as lágrimas dos primeiros três meses de recruta.

Depois do dia de Reis, os mesmos transportes, no mesmo trajecto, deixava-os novamente no mesmo frio seco, vindo de Castela, bem enquadrado no rigor do internamento.

A mando da Lua, a duração do 2º período, variava, e ainda varia, de ano para ano.

Mais cedo ou mais tarde, a Páscoa haveria de chegar e, quando o calendário a marcava lá para o fim de Abril, como acontece este ano, não faltava o aviso de um dos perfeitos ou mesmo do reitor:

– Cuidado rapazes, Páscoa alta… chumbo na malta!

Em contraponto a esta pedagogia do castigo, o mérito e o reconhecimento vinha do meio social que voltava a receber o jovem seminarista em férias. No Natal, na família. Na Páscoa, no meio do povo que, na altura, ao contrário do que hoje acontece, enchia a igreja.

Nos dias próprios da semana santa, as cerimónias dirigidas pelo pároco, repetiam usos e costumes e era também nesta quadra que, ajudando o padre, o seminarista começava a ganhar protagonismo.

No Domingo de Ramos, voltavam à missa alguns paroquianos que ali tinham estado, pela última vez, no Natal.

Nesse dia parecia que as árvores ganhavam pernas a caminho da igreja. Alguns rapazes, que queriam mostrar às moças que já não eram meninos, atestavam a virilidade vergados ao peso de um robusto tronco de loureiro que dava para afugentar as trovoadas na freguesia inteira.

Era também nesse dia que alguns lavradores traziam um pé de oliveira, com ou sem raiz, que a bênção e a água benta, aspergida no largo do Calvário, faria dar canastras de azeitona.

Num tempo em que, como hoje, estão proibidas as flores nos altares, excepto a 25 de Março, dia da Anunciação, os santos permaneciam escondidos atrás de longas faixas de pano roxo. Na quinta feira santa, era o lava-pés e, na sexta, sempre às três da tarde, a adoração da cruz.

A missa do sábado santo era a mais longa do ano. A bênção do lume novo, traduzido no sírio que, ao longo do ano, daria luz a novos cristãos, no Baptismo, a bênção da água que, cá por coisas, as mais velhas levavam, em garrafinha, para casa, e muitas…  muitas leituras. Era a vigília pascal.

(continua)

Fernando Luís

Nota: Neste texto, o autor optou por não seguir as regras do novo acordo ortográfico

31/03/2022


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