Fernando Luís
Estórias da Nossa História (VI) - A DESOBRIGA
Hoje, mesmo com a prática religiosa cada vez mais diminuta, não podemos ignorar o papel relevante que a religião católica teve no que hoje somos como elementos da nossa sociedade.
O povo, a maioria das vezes, ia e vai às romarias para comer e beber, cantar e dançar. O que guarda da festa é um dia bem passado onde o sermão entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Para tranquilidade de consciência prefere ignorar os pedidos ou as recomendações oficiais da Igreja que, a partir dos concílios de Latrão e principalmente do de Trento, enfrentando a Reforma Protestante, começou a exigir mais formação ao clero e um saber mínimo do catecismo aos leigos.
No meu tempo de menino ainda se falava da examina ou exemina, como o povo dizia. Os cristãos, mesmo que não reconhecessem letra do tamanho de um comboio, tinham, naquela sabatina, que matraquear os sacramentos, os mandamentos, as orações e os dogmas de trás para a frente e da frente opara trás.
Se não mostrassem conhecimentos mínimos ou o padre estivesse em dia não, lá vinha a tal raposa e uma nova ida à oral.
Nos leigos, foi-se criando alguma aversão a estas exigências. Por isso, a nossa tradição oral regista algumas cantigas, anedotas e contos satíricos envolvendo padres, frades ou freiras.
Conta-se, por aqui, que numa das aulas de catequeses, de preparação para a examina, o padre perguntou ao Valentim do Fundo, moço alto e espadaúdo que botava de ombro qualquer pedra em fecho de porta ou janela e que também esfrangalhava, sozinho, cabrito em boda de casamento, foi entalado, de chofre, por questão ambígua do prior:
– Quem é maior que Deus?
O homem com um raciocínio que não ia além da malga do caldo, olhou-o pasmado, lá encontrou uma resposta:
– Maior que Deus?… Maior que Deus?… Só se for o pinheiro do Vale da Loira.
Esta era a sua verdade, objectiva, palpável. No planalto do Morqueirão, que hoje só tem eucaliptos, havia um pinheiro, talvez por ter nascido primeiro, com grande copa acima dos demais.
Aprovados na examina, seguiam então para a confissão e a comunhão. Era a desobriga.
Em certas paróquias havia mesmo um rol onde se assentavam os nomes dos paroquianos que cumpriam o preceito da Igreja da confissão anual e comunhão pascal. Por isso, em algumas regiões de Portugal, esta prática também era conhecida como a desarrisca.
Na sequência da confissão vinha a penitência que consensualmente deveria ser proporcional aos pecados ali declarados.
As penitências que hoje se traduzem na obrigação de rezar, chegaram a ser satisfeitas em obras sociais, em ofertas monetárias ou em indulgências.
Ainda hoje, a penitência, mesmo que restringida à oração, deixa alguns penitentes a calcular a justeza das penas.
Conheci um bom homem que um dia se foi confessar a um sacerdote com a fama de severo. Passados dias encontrou-me e logo confidenciou: – Fui-me confessar a fulano e, olhe, levei com três terços de penitência! Eu acho que não tinha pecados para tanto…
Estava triste. Animei-o com algumas chalaças à volta do acontecido acabando por lhe recomendar que, no ano seguinte, procurasse outro confessor.
Enquanto esperávamos pelo padre, no largo da aldeia, na visita pascal do ano seguinte, continuámos a conversa:
– Desta vez fui confessar-me a sicrano.
– Então, como é que correu?
– Mais ou menos…
– Pregou-lhe com a mesma carga!
– Não. Pelo contrário. Repare. Com mais ou menos os mesmos pecados, a penitência, desta vez, foi de dois padre-nossos e três ave-marias… também é pouco!
Neste caso, a confissão tarifada ou taxada, que há muito caiu em desuso, resolvia o problema.
Nota: O autor optou por não seguir as regras do novo acordo ortográfico
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