Fernando Luís

Estórias da Nossa História (V) - Fernando Marques Carneiro

Estórias da Nossa História (V)

Fernando Marques Carneiro

A atmosfera deveras sombria e deprimente que caracteriza este tempo de pandemia tem sido amiudadamente enlutada com a partida de muitos conhecidos e amigos.

No nosso concelho, na nossa freguesia, na nossa povoação, na nossa rua, procuramos e já não encontramos quem nos ajudou a crescer. E neste imenso mar de solidão, flutua apenas a saudade, num misto de dor e consolo na lembrança de irrepetíveis momentos que passámos com muitos dos que já não estão.

Um dos últimos que nos deixou, no último mês do último ano, foi o amigo Fernando Marques Carneiro, que residia na Cobertinha. Comigo calcorreou a serra, de cabo a rabo, no arranque do programa O Som da Gente que, se o aliviar das regras sanitárias o permitir, poderá voltar à antena da Rádio Lafões.

Desde a reportagem com a Tuna de Cetos, a primeira, passando pelo fundidor artesanal de guizos e chocalhos de Vilar, de Castro Daire, até às longas gravações com o notável comunicador Carlos Silvestre, da Gralheira, em Cinfães, foram muitas horas de recolha que ficarão como documentos únicos visto que, na falta de muitos protagonistas, não podem ser repetidas.

De seu nome Fernando Marques Carneiro, nasceu na freguesia de Pinheiro, ao som das barulhentas águas do Paiva, ao lado do monumento nacional que é a igreja do Mosteiro da Ermida, também conhecido como a Igreja das Siglas.

A limitação física, ao nível da locomoção, nunca lhe tolheu o pensamento e a imaginação ou mesmo o impediu de trabalhar. Começou na firma Bezerras, na construção e pavimentação de estradas. Depois, na função de vedor, ajudou a lançar a Sondavil uma firma do Sátão dedicada à abertura de furos artesianos para exploração de água.

Nesta função, andou por toda a região e tornou-se figura popularmente conhecida.

Na roda de amigos era fonte de boa disposição e um exímio contador de histórias. Qualquer situação era pretexto para uma anedota a propósito.

Lembro-me de um dia em que mais uma vez estávamos a subir o Montemuro. Perto das Portas, encontrámos um rapaz, que não teria mais que catorze anos, na vigia de um rebanho. Saí para gravar o som daquela sinfonia de chocalhos.

Ao voltar ao carro, o amigo Carneiro lá arrancou mais uma:

Sabe, há uns tempos, passei aqui e perguntei a este moço se o rebanho tinha carneiro. A resposta foi num repente:

– Claro! Cada rebanho tem, pelo menos, um carneiro!

– E quanto pesa o teu carneiro?

– Deve andar à volta de quarenta ou…  cinquenta quilos.

Como não estávamos a falar da mesma coisa, quis ser eu a terminar a brincadeira:

– Esse é dos pequenos. Na minha terra há um que, de certeza, pesa mais de oitenta!

A resposta foi pronta e inesperada:

– Ó meu senhor, esse deve ter cá uns cornos!…

Era assim o Fernando Carneiro, conseguia pôr tudo bem disposto nem que tivesse de assumir o papel principal para que a narrativa se tornasse mais convincente.

À sua esposa Idalina, a sua última cuidadora, à filha Isabel e ao amigo Paulo, que também tem o seu nome ligado à história da Gazeta, e a todos os restantes familiares deixo o meu abraço.

Nota: Neste texto, o autor optou por não seguir as regras do novo acordo ortográfico

27/01/2022


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *