Fernando Luís
Estórias da Nossa História (IV) - OS SAPATOS DO MORGADO
Em freguesia que é a maior só no nome, Sendas era das povoações mais pequenas.
Há civilizações que consideram que o bebé só deixa de ser coisa e passa a ser gente com a aquisição da linguagem. Como é natural, não me lembro de quando balbuciei a primeira palavra. Consigo reportar a minha lembrança até aos seis ou sete anos quando comecei a descobrir o meio que me envolvia: uma pequena sociedade de gente humilde, muito respeitadora e reciprocamente respeitada.
No fundo do lugar havia uma família, mais abastada que a minha, que me habituei a admirar.
Na terra e nas povoações vizinhas, muitos davam pelo nome de Henrique. No meu lugar, havia dois que tinham o mesmo nome e o mesmo sobrenome, primos em primeiro grau.
Devido a estes laços familiares e ainda por viveram porta com porta, mantiveram, vida fora, uma boa convivência.
Com o mesmo nome e o mesmo apelido, para os distinguir, o povo acabou por alcunhar um deles. Um ficou o Henrique Pinto, o outro passou a ser o Henrique Morgado por ser, ao contrário do primo, filho único.
Ora, na narrativa de hoje, o amigo Morgado é o nosso protagonista.
Numa terra de famílias numerosas, com três, cinco ou mais filhos, aquela família saía da norma. Assim, o Henrique, filho primogénito e único, concentrou nele todo o carinho dos pais que sempre o pouparam ao árduo trabalho das terras onde os outros garotos sofriam desde pequenos. Aventurou-se um pouco na actividade comercial, no ramo das madeiras, passando depois para um trabalho ligado a louvações prediais, a convite de particulares ou prestando serviço eventual de avaliações para a Fazenda Nacional, hoje Finanças.
Terá sido na sua vida comercial que conheceu, no litoral, lá para os lados de Santa Maria da Feira, a mulher com quem viria a casar.
Contra a corrente, que sempre empurrava o pessoal do interior para o litoral, a jovem esposa veio até à serra para morar na casa dos pais do noivo. A nova vizinhança recebeu-a muito bem. Mulher elegante e distinta destacava-se pela sua cordialidade e simpatia. Além de respeitada passou também a ser admirada pelas mulheres da terra.
Vindo de um outro meio, D. Madalena nunca esqueceu as suas origens vareiras. Ainda assim foi aqui que começou a criar os seus dois filhos. O mais velho ainda hoje é recebido, com muita alegria, quando nos visita ou calcorreia os nossos montes para matar o vício que herdou do pai, agora sem a companhia do perdigueiro Lorde que o acompanhava na infância.
O irmão faleceu ainda novo deixando, para além do doloroso vazio na família, muitas saudades nos muitos amigos que sempre se abrigaram à sombra da sua simpatia. Quando alguns dos nossos tinha a infelicidade de cair numa das unidades de saúde de Coimbra, podíamos sempre contar com o ombro amigo do médico Manuel Cunha para o apoio tão necessário naquelas horas difíceis.
Voltando ao pai, podemos dizer que este tinha uma maneira muito própria de ser e estar.
Sempre bem-disposto, tinha no convívio social uma prioridade e assim, como diz a cantiga, tinha em cada esquina um amigo.
Nessa época, os rapazes e raparigas vestiam o que calhava e calçavam o que servia.
Ora, o Morgado sempre calçou e vestiu bem. Bonito chapéu, sapato elegante, gravata e fato de onde, amiúde, saía do bolso do casaco o maço de tabaco Sagres.
Naquela altura, comprados na feira, ou feitos à medida por um dos muitos sapateiros da freguesia, os sapatos não tinham o conforto dos de hoje que calçam, à primeira, como uma luva. Era preciso amaciá-los.
Na nossa povoação, havia outra família, com grande prole, que tinha um rapaz, mais ou menos da idade do Morgado que, por sinal, calçava o mesmo número. Então, quando este Henrique comprava sapatos novos, chamava o vizinho e encarregava-lhe a tarefa:
– Fernando tens aqui estes sapatos. De oito em oito dias, aos domingos, calça-os, mas, só para ir à missa! Daqui a duas ou três semanas quero-os de volta.
O outro satisfazia o pedido com todo o gosto e era vê-lo, no coro da capela ou na igreja todo garboso a puxar as calças para realçar tão luxuosos calcantes.
Como diz o ditado, trabalhar qualquer um trabalha, alguns até de mais. Usar a inteligência e tirar o bom da vida estava reservado a poucos. O Morgado foi um desses sortudos!
Nota: Neste texto, o autor optou por não seguir as regras do novo acordo ortográfico

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