Fernando Luís
Estórias da Nossa História Crenças e Superstições (III – Cont.)
O ZÉ GRILO

Estava-se no Dezembro dos dias curtinhos e das noites longas. O trabalho nas terras, nesta altura do ano, resumia-se a virar a água para a merugem da erva e a cortar algum estrume para a cama do gado. Não era como em Abril, Maio ou Junho quando as calças, penduradas no prego da taipa, a servir de cabide, ainda abanavam quando o sol voltava a despontar, tão rápida tinha sido a noite.
Ora, nessa manhã de Dezembro, com a geada a cobrir de branco a verdura dos campos, Zé Grilo, como sempre, madrugou. Comeu descansado o caldo de cebola, feito de véspera, junto ao borralho do último serão. Se queria ter algumas paveias de estrume cortadas quando o dia raiasse, lá para as sete, tinha que se levantar ainda com noite.
Passou pelo curral das vacas onde a Cabana e a Amarela ruminavam a última ceia. Ao lado, as ovelhas e as cabras estavam em igual sossego. Pôs a enxada ao ombro e lá foi a caminho da estrumeira que ficava a uma hora de caminho.
A povoação continuava adormecida. Só se ouviam os galos a cantar matinas e o matraquear dos tamancos do Zé que punha, em alerta, um ou outro rafeiro.
Já fora do lugar, chegou ao cruzamento das almas. Para a direita a estrada para o Enxurdo, à esquerda para Sendas, em frente, o seu destino. Sobre o muro lá estava, em pedra, o pequeno monumento, genuinamente português, que dava nome ao lugar. No nicho, por cima da caixa das esmolas, a pintura das almas do purgatório, de mãos postas, em prece: Vós que ides passando dai-nos a esmolinha a nós que estamos penando…
Nunca lhe disseram, mas é dos livros, que já os romanos colocavam deuses protetores nestes lugares. O que sabia, pela tradição popular, é que era nestas encruzilhadas que se faziam alguns feitiços.
Cá por coisas, tinha gravado, na canga, um sino saimão, contra o mau olhado e esfregava o focinho das vacas, com a fralda da camisa, para que os animais não corressem perigo.
Com a cabeça carregada de dúvidas e interrogações, com a grande enxada ao ombro, seguiu em frente em direcção ao ribeiro que atravessaria numas poldras de quatro pedras.
Ora, sem explicação, alguns passos à frente, alguém lhe agarra a pá da sachola.
Sem olhar para trás, puxa uma, puxa duas, puxa três… O raio da bruxa ou da alma do outro mundo não largava. Neste impasse, a tremer e a suar por todos os poros, o amigo Zé Grilo, enfrentando o desconhecido, ganhou coragem e bem alto soltou o aviso:
– Largas tu ou largo eu?
Como nada se alterou, despediu-se da enxada, sem olhar para trás, como sempre lhe recomendaram e, em passo rápido, nem precisou das pedras para saltar o ribeiro.
Deambulando pela serra, andou toda a manhã atormentado procurando explicação para o sucedido.
No regresso, já perto do meio dia, muito perto do local do mistério, lá estava a bendita enxada, impávida e serena, à espera do dono, pendurada num ramo de macieira que atravessava o caminho.
– Raisparta! Há cada uma…
De cabeça limpa e a alma em sossego, lá foi o Zé Grilo até casa ao encontro da mulher e dos filhos a quem não conseguiu explicar como meio dia não tinha chegado para cortar uma paveia de estrume ou ajuntar um molho de caruma.
Fernando Luís
Nota: Neste texto, o autor optou por não seguir as regras do novo acordo ortográfico.
24/11/2021

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