ESTER VARGAS EM ENTREVISTA

“A minha permanência na Suíça não implica um afastamento da terra onde vivo há 38 anos”

Recentemente nomeada conselheira social da embaixada portuguesa em Berna, Suíça, Ester Vargas esteve à conversa com a Gazeta da Beira. Da nomeação, à atualidade sampedrense a também deputada Municipal responde a tudo. Desde já uma garantia, “distância não significa ausência”, Ester Vargas promete continuar a acompanhar bem de perto, tudo o que se passa na terra que, como sublinha, não lhe “sai do coração e do pensamento”.

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Gazeta da Beira- Recentemente foi nomeada conselheira social da embaixada portuguesa em Berna. Como surgiu o convite e o que a motivou aceitar?

Ester Vargas (EV) – Face ao aumento significativo do fluxo migratório para a Suíça, foi considerado importante reforçar o apoio que a Embaixada de Portugal presta à comunidade portuguesa nesse país, com especial destaque para as questões sociais que naturalmente se colocam, atenta a heterogeneidade dos cidadãos portugueses aos mais diversos níveis, e às quais importa dar uma resposta de maior proximidade. Num outro plano, também foi considerado imprescindível que a pessoa a ocupar esse cargo tivesse uma sólida proficiência linguística, de modo a poder interagir com as diversas instituições nacionais, sejam elas governamentais locais, empresariais, sindicatos ou outras. Tudo isto no âmbito da política de proximidade que a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas tem vindo a pôr em prática nos últimos anos. Ao ser-me colocado este desafio, entendi por bem aceitar, dado que mesmo no âmbito do meu trabalho parlamentar, acompanhei sempre muito de perto toda a problemática das comunidades, não apenas por interesse pessoal mas também enquanto Vice-Coordenadora da Comissão dos Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, Comissão que tutela e segue estas questões. Por isso, sendo uma situação nova, não é totalmente desconhecida para mim. A vida é um percurso que tem muitas etapas e a diversidade de actividades só nos valoriza, ajuda-nos a crescer e a situarmo-nos como pessoas perante a vida e o mundo. E aí, sinto-me privilegiada pela possibilidade de, ao longo da minha existência, ter tido experiências enriquecedoras em áreas que me dizem muito. Agora, surgiu mais uma.

GB- Em vésperas de eleições, esta nomeação foi contestada por um deputado socialista. Como reage a essas críticas?

EV-Foi com alguma surpresa que verifiquei que o Deputado Paulo Pisco, do Partido Socialista, tinha questionado a minha nomeação, até porque tendo havido outras, só esta lhe levantou preocupações. E estranhei esta contestação, pois o Deputado em causa, eleito precisamente pelo Círculo da Europa, tinha obrigação de conhecer a realidade da emigração portuguesa nos países que integram o seu círculo eleitoral, com especial destaque para a Suíça, coisa que parece não acontecer. É óbvio que tem toda a legitimidade parlamentar para discordar das decisões da tutela mas fazê-lo desta maneira, acabou por ser a negação dos problemas que se colocam à comunidade portuguesa na Suíça e da necessidade de acompanhar efectivamente a nossa comunidade nesse país. Mais do que um ataque pessoal, foi uma atitude deselegante para os nossos compatriotas na Suíça, que sempre solicitaram o apoio que agora lhes foi concedido. Sobre esta matéria, gostaria ainda de referir que a contestação do Deputado Paulo Pisco foi uma atitude perfeitamente isolada e que não teve eco no seu próprio partido, pois foram inúmeras as manifestações de apreço e simpatia que recebi de alguns colegas membros do Partido Socialista, esses sim, “de primeira água”.

GB– Já está em funções, em termos gerais qual é o seu trabalho

EV- Como já referi anteriormente, o trabalho a nível social pretende ser uma mais-valia para a comunidade portuguesa e que pretende colmatar qualquer situação de insegurança que os portugueses possam sentir ao longo da sua permanência na Suíça, independentemente de considerarmos que a Suíça é um país muito organizado e estruturado. Contudo, o simples facto de se estar fora da sua terra de origem, com um sistema totalmente diferente, tendo de ser confrontado com línguas que não se dominam, eventuais dificuldades de entendimento com entidades patronais, entre uma panóplia de outros aspectos, pode levar a situações de fragilidade, de dúvida ou mesmo de conflito, que importa sinalizar, garantindo o devido encaminhamento e apoio aos cidadãos que deles necessitam. Na minha opinião, as Associações Portuguesas desempenham um papel de extrema relevância na Diáspora, não apenas enquanto âncoras da comunidade portuguesa mas também enquanto centros de referência e divulgação da cultura portuguesa nos países de acolhimento. E na Suíça especificamente, dado o número de pessoas que integram a comunidade portuguesa, parece-me fundamental encetar um trabalho de articulação com essas Associações, com o objectivo de as envolver no objectivo de dar a conhecer e divulgar o nosso país e todo o seu vasto e riquíssimo Património.

GB-Como estão a correr estes primeiros dias? Que retrato pode fazer da comunidade emigrante portuguesa?

EV– Ainda não há um mês que estou na Suíça e por isso este período tem sido pautado pela minha própria instalação e absorção do que é este país, para poder enquadrar-me. Estou igualmente a inteirar-me da situação da comunidade portuguesa aqui, e que constitui um grupo maioritário estrangeiro, com mais de 260.000 pessoas. É um grupo heterogéneo em termos de origem, idade, género e mesmo de qualificações, não podendo deixar de se prestar atenção ao novo fluxo migratório português, de novos quadros especializados. Há zonas de maior predominância de portugueses e importa analisar a forma como se organizam e integram na sociedade. É todo esse trabalho que tenho em mãos e que é estruturante da minha actividade na Suíça. Tudo isto, a par do acompanhamento diário do que se vai passando e do atendimento aos portugueses que colocam directamente as suas dúvidas e os seus problemas.

GB-  Que balanço faz do seu mandato, que acaba de renunciar, enquanto deputada da Assembleia da República? Consegue destacar o que considera os momentos mais marcantes?

EV – Foi sempre com um sentido de grande responsabilidade que exerci o mandato de deputada à Assembleia da República e de grande orgulho também, pois senti sempre que estávamos a passar por uma situação de excepção, extremamente difícil, que impunha um grau de exigência continuado à nossa actuação enquanto deputados. Foi o período mais difícil na história da democracia portuguesa, mesmo para exercer estas funções, pois o campo de actuação era mínimo e o que estava em causa era salvar Portugal de uma situação caótica em termos financeiros e de falta de credibilidade externa. Havia um conjunto de medidas previstas no memorando de entendimento que importava implementar, algumas delas muito penosas para os portugueses e nem sempre foi agradável ter de as votar. Mas fi-lo, tal como os meus colegas, com a certeza de que o rumo traçado tinha que ser seguido e que qualquer desvio iria ter consequências que poriam em causa os sacrifícios já suportados pelos Portugueses. Foi, acima de tudo, uma lição de vida, de desafio constante, de muito estudo, em que éramos postos à prova diariamente. Mas valeu a pena, porque o Memorando de Entendimento foi cumprido, conseguiu-se que a Troika fosse embora o mais depressa possível, Portugal recuperou a sua credibilidade e estou plenamente convencida de que o pior passou, embora haja muita coisa ainda a fazer. Foi uma experiência muito gratificante aos mais diversos níveis e que me ajudou a perceber (por dentro) o quanto é difícil decidir contando com todas as variáveis, sem ir ao sabor do coração ou da euforia do momento ou dos chamados “treinadores de bancada”, que comodamente no sofá ou à mesa do café têm solução para tudo mas que não passam de poluidores do raciocínio.

GB- A requalificação do Balneário Romano foi uma das suas lutas pessoais. Está satisfeita com o desfecho?

EV – Apesar da perspectiva nacional que um deputado tem que ter, até porque, de acordo com a Constituição Portuguesa, o exercício destas funções é nacional e não local (Deputados da nação), a verdade é que tentamos sempre conciliar essa vertente com as regiões pelas quais somos eleitos, numa perspectiva de proximidade e de especial atenção às questões que são consideradas prioritárias e fundamentais ao desenvolvimento local e regional. Neste âmbito, sendo de S. Pedro do Sul, tentei sempre acompanhar as questões mais relevantes relativas a este concelho e, enquadrando esse acompanhamento nas Comissões às quais pertencia e onde podia fazer valer a minha voz a favor do alerta, da sensibilização e da reivindicação justa, insisti sempre para que se chegasse a uma solução para esses problemas. É verdade que a requalificação do Balneário Romano das Termas foi uma constante na minha actuação na Assembleia da República desde que lá entrei até ao fim do mandato, a par da requalificação da Escola Secundária. Estas duas questões foram, por assim dizer, as minhas duas bandeiras locais e fico satisfeita por verificar, no final do processo, que valeu a pena tanta insistência formal e informal junto dos diversos intervenientes, e que temos luz verde para que estes dois problemas possam ser ultrapassados. Quer uma quer outra, eram reivindicações perfeitamente legítimas e de evidente necessidade e as soluções encontradas foram as possíveis, dada a conjuntura nacional e representam um salto muito significativo no impasse que vinha a verificar-se ao longo do tempo (no caso do Balneário Romano, ao longo de décadas). Sinto-me feliz por ter contribuído para este desfecho positivo que as duas situações acabaram por ter. Penso mesmo que foi importante ter havido, neste caso concreto, uma representante directa de S. Pedro do Sul na Assembleia da República, pois quando se luta por algo, é importante sentir verdadeiramente o que está em causa. É o conhecimento “por dentro” que nos dá a força para insistirmos e não nos resignarmos face aos aparentes constrangimentos que dificultam a resolução dos problemas. Por isso, senti-me bem e penso ter cumprido a minha missão. Como costumava dizer ao longo destes quatro anos, estive em Lisboa, com S. Pedro do Sul no coração e no pensamento.

GB- Voltando-nos, agora, para atualidade sampedrense, já fez saber que continuará a exercer as suas funções enquanto líder da bancada social-democrata. Será fácil conciliar estes dois cargos?

EV – A minha permanência temporária na Suíça não implica um corte ou um afastamento da terra onde vivo há 38 anos e que conheço desde sempre, dadas as minhas origens familiares em Oliveira do Sul. Em S. Pedro do Sul tenho a minha casa, é em S. Pedro do Sul que o meu filho está. Distância não significa ausência, tanto mais que vivemos num tempo em que as comunicações nos facilitam o contacto instantâneo de forma multifacetada. Posso dizer que estou em contacto diário com S. Pedro do Sul, com sampedrenses e vou acompanhando o que por aí se passa. Não sendo a Assembleia Municipal um cargo executivo, considero ser perfeitamente possível manter a minha situação de deputada municipal e líder da bancada do PSD, pois tentarei conciliar as minhas idas a casa com as sessões da Assembleia Municipal que, como é sabido, são apenas cinco por ano. Nos últimos anos também estava em Lisboa e não foi por isso que deixei de acompanhar o que se passava no concelho e na região. Por isso, não vejo qualquer problema na manutenção da atividade na Assembleia Municipal.

GB- Relativamente às deslocações, será o Município de S. Pedro do Sul a pagar essas despesas, isto porque, é um dos seus direitos, enquanto deputada municipal?

EV – Até ao momento em que me foi colocada esta questão, nunca me tinha passado pela cabeça que a questão do pagamento das deslocações pudesse ser problemática. É óbvio que a minha residência oficial é S. Pedro do Sul e por isso não há lugar a qualquer tipo de ajudas de custo por parte do Município sampedrense. Aliás, mesmo estando em Lisboa, nunca utilizei esse pretenso direito. Nem sempre os direitos se correlacionam intimamente com ética e por isso, não me aproveitarei desse subterfúgio para “cobrar mais uns tostões”. Irei a S. Pedro do Sul custeando as minhas próprias viagens como já referi, aproveitando as visitas aos meus filhos e conciliando esses momentos com as actividades autárquicas na Assembleia Municipal. Felizmente que as empresas “low-cost” dão uma ajuda e com a devida antecedência, é possível obter viagens de avião a preços muito favoráveis. Esse, não será obstáculo à minha participação nas Sessões da Assembleia Municipal.

GB-  Sensivelmente a meio do mandato, que balanço pode fazer da atuação do executivo socialista na Câmara de S. Pedro do Sul?

EV-É óbvio que tendo apoiado a candidatura de um outro partido aos órgãos autárquicos no último processo eleitoral, me revejo no projecto que foi submetido a sufrágio por esse partido, concretamente pelo PSD. Face aos resultados eleitorais obtidos, não foi esse projecto que vingou e há que respeitar a decisão dos sampedrenses, que legitimamente optaram por um outro caminho. Enquanto representante do Partido da Oposição, mas que tem uma expressão significativa de votos, integrando inclusivamente o Executivo com três Vereadores, cumpre-me acompanhar a actividade municipal e nos locais próprios concordar ou discordar, consoante o caso, apresentar propostas alternativas, em articulação com os demais elementos que integram os órgãos Executivo e Deliberativo.

Globalmente, parece-me que o actual Executivo tem avançado em diversas frentes em simultâneo, numa tentativa de mostrar trabalho, faltando, contudo, uma reflexão profunda sobre as necessidades de desenvolvimento do Concelho, a par da definição de eixos estratégicos prioritários. Por vezes a ânsia de fazer é de tal ordem, que assistimos a avanços e recuos indesejáveis e que denotam alguma ligeireza na forma de abordar as questões. Decidir é difícil e implica acima de tudo, ponderação e prudência, antes de se avançar para situações que, por força da precipitação e do entusiasmo do momento, pode ser necessário suspender ou inverter. Aí, penso que o actual Executivo deveria ter mais cuidado.

Por outro lado, há que perceber que o elenco camarário é composto por sete elementos e não por quatro e que aqueles que representam a força minoritária têm o direito de ser respeitados e de ter as mesmas condições de trabalho do que os da maioria. Penso que não dignifica ninguém termos reuniões públicas da Câmara em que o insulto é a palavra de ordem, a par da prepotência e do discurso atabalhoado, que nada tem a ver com um sistema democrático consolidado, em que a opinião de cada interveniente é encarada com o devido respeito pela liberdade de expressão e da diferença. E aí, penso que há ainda um caminho a percorrer, para que os órgãos sejam dignificados por aqueles que os representam.

GB- No seu entender, quais são as principais prioridades do concelho?

EV S. Pedro do Sul é um concelho riquíssimo, com inúmeras potencialidades que importa desenvolver. Contudo, enfrenta problemas comuns a outros, inseridos em territórios de baixa densidade populacional: baixa taxa de natalidade, envelhecimento da população, desertificação das aldeias. Isto prende-se com a questão do trabalho, pois se não houver onde ganhar a vida, as pessoas deslocar-se-ão para outras zonas, os jovens continuarão a sair em debandada e não vale a pena ficarmos a olhar para as lindas paisagens das serras ou para a qualidade da água termal, que as pessoas não ficam cá. Ponto. Por isso, considero prioritário que se implementem medidas de captação de empresas de pequena e média dimensão, com criação de incentivos que justifiquem a sua instalação neste concelho e que possam contribuir para o incremento da economia local e da fixação da população. Depois, há que repensar a estrutura urbana e incentivar os proprietários, criando linhas especiais para renovarem os seus edifícios, adaptando-os às necessidades da vida actual e fomentando o arrendamento jovem. Já reparou que a maioria dos edifícios situados na Rua Serpa Pinto e na Rua de Camões estão praticamente desabitados? Se contarmos o número de pessoas que lá vive, ficamos assustados, ao verificarmos que é um número exageradamente reduzido. Em termos da serra, que é tão rica, urge fomentar seriamente os produtos endógenos, marca identitária da região e que constituem de per si, um valor acrescentado que não pode ser desvalorizado. A valorização destes produtos constitui uma oportunidade séria para que as populações (mesmo os mais jovens), se possam fixar e ter retorno do trabalho em torno do legado dos seus antepassados, com uma visão actual. Há muito mais a fazer, mesmo noutras áreas, mas se estas questões forem resolvidas, muita coisa poderá mudar em S. Pedro do Sul e para melhor.Redação Gazeta da Beira