Entrevista a Rita Campos

Terapeuta da Fala

“Enquanto terapeuta da fala, meu maior ensejo é continuar a ser um facilitador na evolução linguística e comunicativa dos alunos, numa atuação que praticamos de forma precoce e preventiva”.

• Paula Jorge

Olá! Estarei convosco para responder a mais um desafio. Espero não vos desiludir.

A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!

 

Ficha Biográfica

Nome: Ana Rita Coimbra Pina de Campos

Idade: 37

Profissão: Terapeuta da Fala

Livro preferido: O Monge que Vendeu o seu Ferrari, de Robin Sharma, pelo significado que teve numa fase particular da minha vida.

Destino de sonho: Nova Iorque.

Personalidade que admira: a minha mãe.

 

Muito obrigada, Rita Campos, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.

Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio. Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?

Rita Campos (RC) – Gostaria, primeiro, de agradecer o convite, que muito me honra, especialmente porque é a primeira, e possivelmente a única entrevista que darei (risos), e que não será mais do que um sorriso de orelha a orelha, diante de alguém que me é significativo e me faz sentir em casa. Obrigada, por isso, Paula Jorge!

Em relação ao meu percurso académico, pode dizer-se que fui uma aluna que nunca deu preocupações aos pais, tinha boas notas, gostava da escola e era-me relativamente fácil ir cumprindo os diferentes desafios. Quando terminei o ensino secundário sabia que me realizaria uma profissão onde pudesse entregar-me aos outros, na área da saúde. Estava muito motivada também pelo gosto pelas relações interpessoais e comunicação em geral, que sempre foi meu apanágio, tendo acabado por me candidatar a Terapia da Fala, embora todas as certezas desta vocação tenham vindo, mais tarde, com as concretizações no campo do trabalho. A Universidade de Aveiro foi uma escolha muito natural para a minha formação inicial, dado que já estava atraída pela energia daquela cidade. Terminei a licenciatura em 2007, com 23 anos, e, desde então, o meu caminho foi sendo trilhado em escolas do Ministério da Educação, em contratos sucessivos, que me trouxeram, nos primeiros 13 anos, um misto: por um lado um contexto profissional instável,  porque nunca sabia que Agrupamento serviria no ano seguinte, mas, simultaneamente, enriquecedor e apaixonante, devido à multiplicidade de profissionais, crianças e famílias que me acrescentaram valor. Só, recentemente, em 2020, é que consegui algo que almejava há muito: efetivar. Passei pelo Alentejo, pelo distrito de Leiria e, finalmente, estive em escolas do distrito de Coimbra e de Viseu. Neste caminho pisei o terreno de um total de 13 Agrupamentos de Escolas, diferentes, o que me trouxe alguma adaptabilidade na resposta a diferentes contextos de intervenção. Posso dizer que uma das patologias que mais gosto de intervencionar é a Perturbação do Espetro do Autismo, porque o fator surpresa está muito presente. Por outro lado, fui somando outros projetos de trabalho, no âmbito de clínicas particulares, também muito importantes para o meu crescimento, numa realidade diferente da educativa. A certa altura, surge a necessidade de expandir conhecimentos, para além da formação contínua, tendo ingressado no mestrado de Desenvolvimento da Linguagem e Perturbações da Linguagem na Criança, uma parceria entre o Instituto Politécnico de Setúbal e a Universidade Nova de Lisboa, e que terminei em 2015. No decorrer destes anos também fui aceitando e promovendo atividades como formadora, quer para docentes quer para outros elementos de comunidades educativas, nas áreas da voz e da linguagem, e confesso que é o tipo de desafio que mais me retira da minha zona de conforto, com tudo de positivo que daí pode advir.

 

PJ – Fale-nos da sua missão enquanto Terapeuta da Fala no Agrupamento de Escolas de Santa Cruz da Trapa.

RC – Trabalhar no Agrupamento de Escolas de Santa Cruz da Trapa foi, desde 2014, uma oportunidade que muito me acrescentou, não só por ter conhecido pessoas incríveis para a minha vida, como também por poder cumprir a minha missão, de entrega, fundida na própria missão de um Agrupamento, que pretende desenvolver um ensino de qualidade voltado para a formação integral de cidadãos participativos. Considero que fazer parte do Gabinete de Apoio ao Aluno e à Família, possuidor de uma equipa coesa e atenta, com técnicos de áreas complementares – psicologia, animação sociocultural e educação social – tem sido, também, muito gratificante. Enquanto terapeuta da fala, meu maior ensejo é continuar a ser um facilitador na evolução linguística e comunicativa dos alunos, numa atuação que praticamos de forma precoce e preventiva, procurando diminuir o impacto que estas problemáticas representam na aprendizagem e na vida pessoal dos alunos, favorecendo o sucesso escolar e a sua inclusão. Apesar de o acompanhamento individual de alunos e das suas famílias ser o meu foco principal, tenho colaborado em outras atividades da equipa, nomeadamente em ações de sensibilização/formação destinadas a alunos, a profissionais da escola e a encarregados de educação e famílias.

 

PJ – Até que ponto é importante o envolvimento das famílias na “recuperação” da criança/jovem?

RC – Eu diria que é decisivo. O seio familiar é um meio privilegiado para a criança observar modelos, que interioriza, e para assumir alguns papeis comunicativos. Se a família lhe dá voz, respeita o seu tempo de desenvolvimento e a estimula de acordo com estratégias concertadas com a terapeuta, a sua progressão estará muito mais assegurada. A minha experiência mostra-me, contudo, que também pode ser negativo um acompanhamento familiar demasiado exigente. Importa existir equilíbrio, respeitando o ritmo e a individualidade de cada criança ou jovem.

 

PJ – A aposta na formação para pais tem sido uma prioridade. Que frutos se pretendem colher com estas iniciativas?

RC – Sim, a formação para pais é uma aposta muito válida numa escola que se pretende cada vez mais próxima das famílias. Estas podem encontrar nestas iniciativas uma oportunidade para aumentar conhecimentos, discutir ideias e práticas educativas, apresentar dúvidas e partilhar experiências parentais, sobre diversas temáticas que a nossa equipa vai selecionando, de acordo com as necessidades e sugestões que auscultamos previamente junto dos encarregados de educação. Além disso, pretende-se melhorar a comunicação entre famílias e alunos, acreditando que será a base para que se sintam capazes de levar a escola para casa e vice-versa.

 

PJ – Algumas histórias terá guardadas durante o seu percurso enquanto Terapeuta da Fala. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais a marcou?

RC – Esta questão fez-me recordar, de imediato, uma situação recente que me tocou bastante. Refiro-me ao momento em que comunico, ao D., de 7 anos, que deixará, brevemente, de ter as sessões de terapia da fala, porque já superou as suas dificuldades. Qual não foi a minha surpresa quando, contra todas as expectativas, ele começa a chorar, muito emocionado, dizendo que queria continuar a aprender coisas novas comigo. Naquele momento fiquei de coração enternecido, na certeza que estava tudo certo, porque recebemos na mesma medida que damos.

 

PJ – Fale-nos do seu outro projeto, o livro infantil? RC – Neste momento já podemos falar no plural, pois já contamos com a edição de dois livros de literatura infantil: O Binóculo Misterioso e Língua de Trapo. Trata-se de um projeto onde se alia a literatura, para todos, ao treino de competências específicas em áreas da terapia da fala, de forma indireta, sem que a criança se aperceba que está a exercitar. O primeiro livro faz um jogo linguístico em torno dos sons e das sílabas (consciência fonológica) e o segundo fala-nos da língua, das suas funções e exercícios de mobilidade, importantes para a fala. O segundo livro foi, gentilmente, adquirido pela Câmara Municipal de São Pedro do Sul para integrar as diferentes Bibliotecas Escolares do concelho.  Considero que integrar este projeto foi um presente, porque fui convidada e movida pelo entusiasmo das colegas e amigas Sandra Santos e Ana Rita Gonçalves, docentes que conheci no Agrupamento de Escolas de Arganil, em 2010. Além do que representa profissionalmente, foi sempre um mote para os nossos encontros de palavras, de sorrisos e de muita cumplicidade.

 

PJ – Percebemos que a Rita Campos nutre uma grande paixão pela escrita. Como surgiu este gosto e como é que a escrita a preenche? RC – Lembro-me de escrever “coisas” desde criança, principalmente quando estava triste. Eu acho que as minhas emoções rolavam melhor numa folha do que na minha própria vida. Na escola gostava de participar em concursos de escrita. Mais tarde, com o surgimento dos primeiros blogues, cheguei a ocupar-me com este tipo de escrita online que, de alguma forma, me sustentava a alma. Todos os rabiscos foram surgindo numa ótica de prazer momentâneo e de preenchimento de espaços onde moravam angústias, dúvidas, medos, mas também muitas alegrias.

 

PJ – Para além da Terapia de Fala e da escrita, que outras paixões nutre, que a completam enquanto pessoa?

RC – A música, mas sobretudo o canto. É uma paixão que nunca concretizei a sério, embora tenha participado em alguns projetos que me trouxeram muitos bons momentos, em criança e adolescente. Quando terminei a licenciatura sentia algum vazio, talvez porque se avizinhava um caminho profissional novo e porque, quando terminamos a etapa académica, todos sentimos, de alguma forma, que pouco sabemos. E eu queria dar o meu melhor. Para dar o nosso melhor aos outros também é bom que o demos a nós mesmos. Decidi, então, candidatar-me ao Conservatório de Música de Coimbra, pois ambicionava aprender música e ter aulas de canto. Consegui entrar e ainda frequentei algumas disciplinas, mas eis que surgiram as primeiras oportunidades profissionais no Ministério da Educação, longe de casa, que eu decidi abraçar. Penso que deixei esta paixão adormecida, mas nunca esquecida.

 

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?

RC – Sonhadora.

 

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?

RC – O meu coração fala sobre verdade e esperança e ele ganha cores novas sempre que vai tocando os outros. Acredito que é destas fusões imperfeitas, com pessoas que atraímos para nós, em fases diferentes das nossas vidas, que se vai construindo um caminho com sentido.

 

PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Rita Campos! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.

RC – Neste momento final, apraz-me agradecer a vossa atenção e curiosidade por um percurso simples, mas apaixonado. Gostaria de deixar uma mensagem sobre a importância de sairmos da nossa zona de conforto e de não pararmos de sonhar com um percurso de vida que faça jus à nossa felicidade.

30/12/2021


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