Entrevista a Nuno Alexandre Figueiredo Martins
Enfermeiro

• Paula Jorge
Ficha Biográfica
Nome: Nuno Alexandre Figueiredo Martins
Idade: 40 anos
Profissão: Enfermeiro
Livro preferido: livro preferido? Posso dizer antes autores preferidos? Gosto muito da escrita da Helena Sacadura Cabral, uma escrita muito fluida, gosto também de Dan Brown, Ken Follet, Eça de Queirós, José Saramago, Augusto Cury, entre outros.
Destino de sonho: vários, desde o norte da Europa (países nórdicos- Islândia, Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca), desde Turquia (Istambul por a confusão de gente/ povos e de civilizações, também por ser uma fronteira Europa/Ásia). E também passando por a zona da Argentina (Buenos Aires e também a zona da Patagónia).
Personalidade que admira: Churchill, Dalai Lama, mas o papa João Paulo II é uma personalidade que todos admiramos, tendo sido o papa da minha infância, juventude e inicio da idade adulta por tão grande ter sido o seu papado, sendo sempre uma personalidade que admirei e acompanhei desde muito cedo, tendo sido uma personalidade admirada por todos as pessoas de todos os quadrantes da nossa sociedade
Muito obrigada, Nuno Martins, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.
Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio. Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?
Nuno Martins (NM) – Obrigado eu por o convite, foi uma surpresa agradável este convite para poder colaborar com o vosso jornal, na pessoa da Professora Paula Jorge. Eu licenciei me em enfermagem em 2012 na Escola Superior de enfermagem da Cruz Vermelha Portuguesa em Oliveira de Azeméis. Nos anos de 2013 a 2015 trabalhei em Lisboa, sensivelmente até março de 2015, trabalhei na área dos cuidados primários (na freguesia de Queluz), bem como num lar na Amadora (AFID) e por fim numa unidade de cuidados continuados (Casa de Santa Maria), sendo uma Associação de Apoio a Profissionais do Hospital de Santa Maria. (Ainda sinto uma grande nostalgia a recordar estes tempos).
Em 2015, mais propriamente em março, surgiu a possibilidade para trabalhar no Centro Hospitalar Vila de Nova de Gaia/Espinho, inicialmente comecei no serviço de Neurocirurgia e Cirurgia Plástica (Reconstrutiva, Craniomaxilofacial e unidade de Microcirurgia), 2 especialidades no mesmo serviço físico, um serviço com cerca de 36 camas, sendo 2 especialidades muito específicas, neste serviço sinto que foi uma enorme aprendizagem e preparação para qualquer outro serviço e área, sendo 2 serviços muito exigentes e complexos, devido às especificidades. Para mim também foi uma enorme surpresa trabalhar com doentes tão específicos. A área de intervenção da neurocirurgia é muito elevada, vai desde: cirurgia à coluna (hérnia discal, cervical e lombar), remoção de tumores cerebrais, tratamento aneurismas (embolização de aneurisma), drenagem de hematomas subdurais (drenar uma coleção de sangue no cérebro decorrente de um traumatismo craniano), tratamento de MAV (Malformações arteriovenosas cerebrais) sendo esta especialidade muito exigente, mas a meu ver também muito apaixonante. Na cirurgia plástica, deparei-me com as seguintes cirurgias – patologias: remoção mamária, aumento mamário, abdominoplastia, colocação de expansor + colocação de prótese mamaria, tratamento de queimaduras, enxertos de pele, também uma especialidade exigente e desafiante. Em 2017 tive a possibilidade de mudar – transferir-me de serviço para o serviço de cirurgia geral, serviço esse que passado cinco anos ainda permaneço. Nesta especialidade de cirurgia geral, deparo-me, diariamente, com cirurgias do foro gástrico e biliar e também cirurgias para correção de hérnias inguinais e umbilical, apendicecctomias, cirurgias ao estômago (gastectomias), esplenectomias (remoção cirúrgica total ou parcial do baço), pancreatectomia ou duodenopancreatectomia (remoção do pâncreas de uma forma total ou parcial e remoção do pâncreas o duodeno), hemicolectomia (remoção da totalidade ou uma parte apenas do intestino grosso, que poderá ocorrer para tratamento de cancro intestino, ou outras doenças bem como doença inflamatória intestinal), confeção de colostomias (associadas ao cancro do intestino), que poderão ser temporárias ou definitivas, aquando de temporárias é apenas por um período de tempo necessário, e após isso o doente terá nova cirurgia para haver uma reconstrução do trânsito. Entre as patologias mais usuais neste serviço encontramos as Pancreatites (inflamação do pâncreas), colite Isquemica (situação em que ocorre uma lesão do intestino grosso que resulta de uma interrupção do fornecimento de sangue, em que ocorre dores abdominais e fezes com sangue), doença de Crohn (doença auto imune e crônica que provoca a inflamação da parte inferior do intestino delgado), colecistite aguda (inflamação da vesicula biliar) que leva a quadros de dor, febre náuseas e vômitos, episódios repetidos de colecistite, leva a realização de uma colecistectomia (remoção da vesicula biliar). Posso dizer que me deparo diariamente com um mundo de patologias e cada dia mais desafiantes.
PJ – O seu percurso profissional é muito interessante, escolheu a área da saúde já depois de ter trabalhado alguns anos na produção e planeamento. Quer explicar-nos como se dá esta viragem?
NM – – Sim é verdade, eu trabalhei primeiramente de uma forma sazonal durante as férias de 1999, 2000 e 2001 numa empresa muito familiar para mim como também nesta área geográfica que é a Martifer. Como tenho e tive vários familiares a trabalhar nesta empresa, tive a possibilidade de trabalhar dessa forma que referi. Durantes estes tempos que trabalhei na Martifer ganhei um gostinho por este tipo de área das construções metalomecânicas e das engenharias e pensava nesse tempo que o meu futuro profissional iria passar nesta área. Em 2003 como não consegui terminar o 12 ano e desta forma também não entrei para a faculdade, optei por terminar o 12 ano por a via do ensino noturno e aí ingressei na Martifer (setembro) de uma forma efetiva e ingressei na Escola Secundária de Oliveira de Frades. Durante os 2 anos seguintes que fui trabalhando na Martifer fui reparando que o meu futuro não passaria por esta área profissional, ao mesmo tempo que o interesse/amor por a área da saúde (mais propriamente enfermagem) vai ganhando vida, existe também uma maior dedicação no término do 12 ano que ocorre em 2005 e com ingresso no ensino superior em 2006. Apesar de como a Paula refere, ter passado por a área do planeamento e depois dar-se uma viragem para a área da saúde, não dou os primeiros tempos (como tempo perdido), pois fui tendo experiência e conhecimento nessa área, bem como privando e conhecendo outras pessoas, de quem hoje ainda mantenho grandes amizade. Sinto que fiz o meu caminho no momento certo. Com estes anos de enfermeiro sinto-me plenamente realizado profissionalmente, sinto também que ainda tenho muito a melhorar a nível profissional e pessoal, mas também sinto um orgulho por a minha profissão. Posso dizer que é extremamente gratificante saber que de forma direta trabalho para o bem-estar do doente de uma forma desprendida. Posso dizer que me sinto na profissão certa. Depois de 2 anos tão difíceis e exigentes que passamos, devido ao Covide, posso dizer e também está à vista de toda a população que existe uma sobrecarga do sistema nacional de saúde (SNS), mesmo com um número elevado que há de hospitais e clínicas privadas, esta sobrecarga existente sobre o SNS vem também provocar uma maior exaustão dos profissionais de saúde, esta exaustão está inerente aos poucos profissionais disponíveis no SNS (rácios inferiores aos necessários – devido às políticas de não contratações). Também damos conta que existe um grande número de idas à s urgências hospitalares sem necessidade (falsas urgências). Estas situações já eram existentes ao pré Covide, mas com o aparecimento do Covide estas debilidades/fragilidades do SNS ficaram mais evidentes. Nesta Era Covide também é notório para todos, e principalmente aquando do surgimento do Covide houve uma demora nos outros exames de diagnostico, bem como cirurgias canceladas, como se tivesse um congelamento das outras doenças no mau sentido, pois elas nunca deixaram de existir. Podemos dizer que ainda temos muito tempo e caminho a ganhar. Como disse anteriormente as debilidades já existiam, mas estão mais patentes nesta Era Covide.
PJ – Como lidou e continua a lidar com a situação da pandemia da Covide no hospital que trabalha.
NM – Hoje em dia já lidamos com alguma ou mesmo bastante normalidade. Mas vamos retroceder 2 anos atrás quando tudo se iniciou. Estávamos em finas de fevereiro, inícios de março de 2020 , aí a pandemia da Covide 19 para nós ainda não nos era muito familiar (em território nacional), apenas ouvíamos e o que sabíamos da Covide era em países Europeus, pois Portugal ainda estava a salvo, mas nesse inicio de março, já começamos todos em geral a ter alguma preocupação e a ter algum cuidado, com o aparecimento de alguns casos positivos, no início da 2 semana se março adotamos alguns cuidados especiais com o uso da mascara obrigatório, ainda muito antes do uso obrigatório em todos os locais e para a toda a população. Mas as alterações de maior envergadura, vieram logo nesses dias seguintes, logo após a intervenção do Senhor Primeiro Ministro, aí ainda nesses dias vimo-nos obrigados a suspender as visitas dos doentes, as cirurgias não urgentes foram canceladas. As consultas também passaram por via telefónica. Mesmo a nós profissionais de saúde era-nos monitorizada a temperatura à entrada do hospital. No primeiro mês sentíamos um medo, uma sensação de medo do desconhecido e uma grande estranheza, sentíamo-nos apavorados, desde os enfermeiros, auxiliares a levar os testes ao laboratório, os auxiliares dos transportes sempre com macas a levarem os doentes para os Rx, tac, ecografia e outros exames necessários, foram 2 meses muito difíceis (março e abril). Com o decorrer do mês de maio (2020) vimos a situação hospitalar ficar um pouco mais calma mais aliviada, menos internamentos, menos enfermarias de Covide em funcionamento (designávamos enfermaria com doentes de Covide como enfermarias de contingência), no início durante esse marco e abril, o hospital tinha 8 serviços de contingência entre 150 camas e 180. Os meses de verão de verão 2020 foram meses de total acalmia. Mas com a chegada desse inverno e novamente com o aparecimento de mais casos, as enfermarias de Covide voltaram a abrir. Neste ano de 2022 (e falando apenas do meu serviço- serviço de cirurgia) sinto que a situação voltou a agravar se, desde meados do mês de janeiro e nunca em momento anterior tivemos tantos casos positivos entre profissionais de trabalho e entre doentes (vários quartos em quarentena por um ou vários doentes testarem positivos), ainda recentemente, entre o dia 24 de abril e um de maio testaram positivos cerca de 10 doentes e nessa semana e na primeira semana foram 9 colegas que testaram positivo. Ainda esta ultima noite que trabalhei de 21 para 22 de maio tínhamos no serviço 3 enfermarias em quarentena, 15 doentes em isolamento, de referir que a abordagem a estes doentes é como se fosse uma abordagem a um doente positivo. No serviço obedecemos a um protocolo de testagem sempre muito rigoroso. Por ultimo posso também referir que as enfermarias de contingência estão neste momento lotadas com doentes positivos. Neste momento sentimos que o Covide está para ficar
PJ – Muitas histórias terá guardadas durante todo o seu percurso de vida e profissional. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais o marcou?
NM – Em todos estes de enfermagem tenho algumas/ muitas histórias que me marcaram, umas por a positiva outras infelizmente nem tanto, histórias de vida que nos tocam e nos sensibilizam, quer por o próprio doente, outras por os familiares próximos. Vou escolher uma história ocorrida em 2020, escolho esta história por a demonstração de força de vontade e resiliência e o não acomodar da situação por parte do doente. Era um doente na casa dos 30 anos, condutor de autocarros da STCP, e com uma grande paixão por motos e que num domingo de maio de 2020 decide ir dar uma volta de mota e teve um grave acidente na ponte do Freixo, deste acidente resultou algumas escoriações na cara, abdômen e costas e amputação da perna direita. Este doente apesar de ser um doente ao cuidado da especialidade de ortopedia, ficou internado no meu serviço durante 3 semanas, até seguir para um centro de reabilitação (neste caso CRN – Centro de Reabilitação do Norte), desde inicio viu se que era um doente com um grande apoio familiar e do grupo de amigos e também com uma força de vontade e força mental muito elevada. Digo com um grande apoio por parte dos amigos, pois apesar de ser numa altura em que estavam interditas as visitas, os amigos vinham para o hospital com cartazes a dar-lhe força e chamar por o nome dele (o serviço onde o doente estava internado era no piso 1 e os amigos no rés do chão no passeio) com cartazes e a chamar por ele. Este doente durante todo o tempo que cá esteve no serviço, foi sempre um doente com uma grande força na recuperação. Ao fim do 1 ano após o acidente, o doente já tinha colocado uma prótese e sempre focado na recuperação. Ao fim de 2 anos do acidente, sabemos que o Luís já é novamente condutor de autocarros, passando todos os testes necessários para o desempenho da profissão e também sabemos que foi pai há poucos meses. Dá gosto e deixa um sabor especial ver o sucesso deste doente que nunca desistiu, aonde muitos não teriam tanta força para continuar ou teriam uma evolução não tão rápida e eficaz.
PJ – Acredita que os nossos governantes dão a devida importância ao setor da saúde?
NM – A resposta a esta pergunta é um não. Sabemos que o governo tem que acudir a muitas e determinadas áreas, mas no que diz respeito à área da saúde ainda não dão o devido valor. Sabemos também que nestes últimos 2 anos, durante a pandemia , esta área recebeu, por parte do governo, uma atenção especial, mas ainda existem vários pontos/aspetos que a área da saúde ( nomeadamente a enfermagem) que gostava que fossem melhorados: como um aumento da cota/ fatia do orçamento para a área da saúde, o que viria a desbloquear novas aquisições de novos elementos (contratações de novos elementos), bem como uma melhor remuneração, uma progressão adequada da carreira que se encontra no mesmo ponto já há vários anos. Nota-se também que existe uma precariedade de material, umas vezes falta, noutros casos material já antigo. Esperemos que com esta fase de Covide, e com a importância que esta área teve nesta fase, o governo tenha mais sensibilidade para connosco
PJ – Para além de tudo o que já foi referido, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?
NM – Não sei se poderei chamar de paixão, mas tenho vários gostos, nomeadamente por desporto, gosto também de ler, ver televisão. Gosto também muito de jantar fora e conhecer novos restaurantes, gosto também de viajar.
PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
NM – Apenas uma palavra. Isso é pouco, mas posso dizer que sou uma pessoa esforçada.
PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?
NM – Que tenho ainda muito para percorrer, ainda tenho muito para conquistar e conhecer.
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Nuno Martins! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.
NM – Espero que gostem da minha entrevista.
Teste Rápido
26/05/2022

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