Entrevista a Marina de Fátima Menezes Fernandes Sanchas Mendonça
Professora

“O professor que ama o que faz quer ensinar, partilhar experiências, cultivar sonhos, viver emoções, ensinar a voar, estimular a criatividade, ajudar a desenvolver sensibilidades.”
Olá! Estarei convosco para responder a mais um desafio. Espero não vos desiludir. A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!
Ficha Biográfica
Nome: Marina de Fátima Menezes Fernandes Sanchas Mendonça
Idade: 60 anos
Onde vive: S. Pedro do Sul
Profissão: Professora
Livro: Fernando Pessoa (poesia, especialmente o ortónimo); O Principezinho deAntoine de Saint-Exupéry
Música: Sou muito eclética: Clássica, jazz, rock, fado,…
Destino de sonho: Japão
Personalidade que admira: Nelson Mandela
Muito obrigada, professora Marina Mendonça, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.
Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio. Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?
Marinha Mendonça (MM) – Apesar de viver em S. Pedro do Sul desde 1997, nasci em Lisboa de pais da região de Lafões, não propriamente de S. Pedro do Sul, mas do concelho de Vouzela. S. Pedro do Sul, como local de morada, foi uma escolha consciente e do coração.
Comecei o meu percurso escolar numa escola primária no Alto de Santo Amaro, em Lisboa, onde vivia. O segundo ciclo foi concretizado na escola preparatória Francisco de Arruda e o ensino secundário no Liceu Nacional de D. João de Castro. Continuei o meu percurso académico em Lisboa e estudei na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, onde tirei o curso de Estudos Portugueses e Ingleses, via ensino.
Fiz o estágio em Português e Inglês numa escola do Laranjeiro no concelho de Almada, e lecionei em várias escolas desde então. Após o estágio fiz um curso de Verão em Inglaterra, na Universidade de Newcastle, onde fiz workshops de teatro. Lecionei numa escola de Loures (ainda a frequentar o curso); numa escola em Ouressa – Mem Martins; na escola secundária de Mafra; na escola secundária do Cadaval; em Estremoz, na escola secundária Rainha Santa Isabel (onde me efetivei); na escola secundária de S. João da Talha; em S. João da Pesqueira; na escola secundária de Vale de Cambra – Búzio (onde trabalhei 12 anos) e, por fim, cheguei à escola que me acolhe até hoje, Agrupamento de Escolas de Santa Cruz da Trapa, da qual muito me orgulho.
Em todo este percurso lecionei desde o segundo ciclo (ainda a estudar) até ao 12.º ano e também o ensino noturno (geral, complementar, recorrente e cursos EFA). Há alguns anos que coordeno o Departamento de Línguas e Humanidades e a Autonomia e Flexibilidade.

PJ – Conte-nos como foram os seus primeiros anos de aulas.
MM – Iniciei a minha atividade suavemente, durante a frequência do meu curso, com alunos do segundo ciclo, em Loures. Lecionava Inglês e obviamente que não foi fácil, em termos de organização. Curiosamente não tive dificuldades em ambiente de aula. Difícil era mesmo ter conhecimento dos problemas de algumas daquelas crianças, que antes de irem para a escola tinham que cuidar dos irmãos mais novos, porque os pais estavam a trabalhar desde muito cedo. Muitos destes alunos viviam num bairro de lata (como se designava na altura). Estavam muito entregues a eles próprios e, para mim, essa experiência foi crucial. Percebi, desde logo, que a minha função ia muito para além do debitar de conhecimentos, que não adianta esforçar-me para que uma criança aprenda um conceito se ela passou a noite com o irmão ao colo ou não tomou o pequeno almoço, porque teve que cuidar dos irmãos e não teve tempo.
Devo dizer que aprendi muito em todas as escolas onde trabalhei e continuo a aprender. Esta é uma das maravilhas de ser professora! Quem gosta verdadeiramente de ensinar deve gostar verdadeiramente de aprender!
Depois desta experiência, só lecionei durante o estágio, orientada, e já com outras bases em termos de organização, que não tinha na experiência anterior, no entanto essa experiência ajudou-me muito durante o estágio.
PJ – Como são atualmente os dias na Escola de um professor?
MM – Estou a demorar tempo a ponderar uma resposta a esta questão! Os dias de um professor que ama o que faz, na escola atual, são duros, muito duros, diria eu!
O professor que ama o que faz encontra-se dividido por mil tarefas burocráticas que lhe deixa muito pouco tempo e energia para o que realmente é importante: olhar o aluno, ouvir o aluno e refletir sobre o aluno. Essa é a grande frustração!
O professor que ama o que faz quer ser o que verdadeiramente ele sonhou ser: um farol, um exemplo, um guia, um orientador…, mas não o consegue ser da forma como sonhou, porque é humanamente impossível não ser imperfeito quando tem relatórios e relatórios para fazer, grelhas para preencher, formações para fazer, solicitações para atender, papéis e mais papéis para preencher, formulários, etc. Não esquecendo de que tem uma família com filhos que também solicitam apoio e atenção. O professor hoje em dia está numa casa em chamas e vai tentando apagar chama por chama. Tenta sempre apagar todas e até vai conseguindo, na maior parte das vezes, em seu detrimento pessoal.
É importante referir que o professor lida com pessoas, com crianças, com adolescentes; trata-se de uma função que tem as relações humanas como base, é então quanto a mim, importantíssimo que o professor esteja bem, descansado e tranquilo, para poder lidar com grupos de adolescentes ou crianças que passam a maior parte do dia na escola. Não queiramos pedir o impossível a quem se esforça o máximo. A sociedade está a tornar-se ciente de que cada aluno tem os seus problemas e dificuldades e deve ser apoiado de acordo com essa realidade. A sociedade deve ficar ciente de que o professor é um ser humano com os seus problemas e dificuldades e que ainda assim, quando está na escola, tenta o quanto for possível “esquecê-los” para estar disponível para os seus alunos. É extremamente desgastante e assistimos a sintomas de desgaste tremendos.
Todos temos ouvido que a nossa profissão é muito desvalorizada e que somos a cara que sofre o embate das famílias e do sistema. É urgente um olhar mais realista e humano para a nossa classe, para bem do futuro!

PJ – Para além da lecionação, costuma envolver-se em muitas atividades para enriquecimento dos seus alunos. Quer destacar 1 ou 2 dessas atividades?
MM – Sim, é algo que me estimula muito e me dá muito prazer, enquanto docente. Considero todas as atividades que desenvolvemos como lecionação e é maravilhoso sentirmos que, através dessas atividades, os alunos crescem e desenvolvem competências e capacidades de uma forma prazerosa e mais consistente.
Trabalho muito com os alunos a comunicação nas suas diversas variantes, na dramatização, nos debates, nas manifestações artísticas, etc. Organizei em colaboração com duas colegas incríveis: Ana Torrão e Inês Marques, a primeira Festa de Natal, pós pandemia, onde conseguimos envolver toda a comunidade educativa, com a participação de todos os graus de ensino desde o pré-escolar até o 9.º ano, da associação de pais e de alguns convidados que generosamente participaram.
Todos os anos é feita uma apresentação de uma peça de teatro que tem decorrido algumas vezes no auditório da Associação Cultural e Recreativa de Santa Cruz da Trapa. Já apresentámos três peças baseadas n`Os Lusíadas e uma sobre a poesia.
Tenho também um projeto de apresentação de contos infantis, em colaboração com a Biblioteca Escolar. Os alunos do 3.º ciclo apresentam histórias infantis aos meninos do pré-escolar e do 1.º ciclo, da forma que entenderem, usando os recursos que entenderem.
A adesão dos alunos é incrível e crescem muito nestas dinâmicas, demonstrando capacidades que até então não tinham sido reveladas.
PJ – Ouve-se falar da paixão de ser professor. Pode definir-nos que sentimento é esse?
MM – Para se ser professor tem que haver paixão.
Citando Paulo Freire “Educar é um ato de Amor”. É assim que vejo a minha profissão.
O professor que ama o que faz deve ter a capacidade de ouvir o que não é dito, de ver o que não é visível e de voar com os seus educandos. Como professores somos coadjuvantes, com os pais, na formação das novas gerações. Devemos trabalhar em conjunto com uma mesma meta e um mesmo objetivo.
O professor que ama o que faz quer ensinar, partilhar experiências, cultivar sonhos, viver emoções, ensinar a voar, estimular a criatividade, ajudar a desenvolver sensibilidades.
Vivemos tempos de mudança constante, de adaptação permanente, de desafios difíceis, mas estimulantes, o que nos exige capacidades que estavam adormecidas há muito. É uma profissão dura, não reconhecida, sim, mas altamente estimulante e gratificante.
Sinto gratificação quando os meus ex alunos me cumprimentam com alegria e expressam saudade do tempo em que lhes chamava a atenção, quando pensávamos em conjunto atividades e quando as mesmas decorriam. Sinto gratificação quanto sinto que estou a chegar ao coração dos meus alunos e me expressam as suas inquietudes. Sinto gratificação quando vejo o brilho do seu olhar ao descobrirem algo novo. Quando vão demonstrando alguma resiliência e evolução positiva, não só na abordagem dos conteúdos, mas no seu relacionamento interpessoal.
Não me sinto gratificada pela sociedade, é verdade! Compreendo que em muitos de nós a paixão esfriou e para outros está a esfriar, mas acredito na mudança e nas novas gerações. Sou uma otimista, na verdade!
Aposto muito nos resultados deste novo foco da educação que, para lá dos conteúdos e dos conhecimentos académicos, se direciona para as capacidades emocionais, de comunicação e de criatividade. Precisamos de uma geração mais empática, mais resiliente em termos emocionais e com uma estrutura interna mais robusta.
Talvez me achem uma romântica neste campo, mas é assim que eu sou e é assim que eu vivo a educação e a minha profissão que abracei com muito carinho.
PJ – Na sua opinião, como se encontra a cultura nos nossos ambientes mais rurais e também ao nível nacional?
MM – Nesta área, considero que o estado das coisas não está nada famoso, em termos de valorização!
Nesta sociedade economicista, a cultura está relegada para um plano secundário.
Em termos de criação, a cultura nos seus diversos domínios fervilha, não tendo a difusão que devia e merecia ter. Os apoios são muito escassos e se falarmos em termos rurais, ou fora dos grandes centros, pior um pouco.
Denota-se, no entanto, uma evolução em termos de acontecimentos culturais, em áreas rurais, fruto da enorme “carolice” de grupos maravilhosos de “pessoas que ousam fazer”. Gostaria que esta evolução não passasse apenas pelo teatro, que amo, mas também por outras formas de comunicação artística como sejam a pintura, o desenho, a escultura, e a dança. Muito tem sido feito no nosso concelho, na verdade, onde a poesia se faz muito presente, assim como o teatro e até a escultura.
O que noto, igualmente, é que há um ótimo acolhimento por esses eventos artísticos. Penso que as pessoas andam sedentas por mais manifestações. Na minha opinião deveriam ser mais diversificadas.
PJ – Muitas histórias terá guardadas durante todo o seu percurso de vida na Escola. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais a marcou?
MM – Há sempre muitas histórias, engraçadas ou não, que nos enchem o coração e nos marcam para sempre.
Vou recordar um caso que aconteceu há poucos anos de um aluno que tinha muita dificuldade em se exprimir oralmente nas aulas e até fora das aulas. A sua timidez era atroz e denunciada e confirmada pelos seus familiares, era algo contra a qual lutámos três anos (pois foi meu aluno nos 3 anos do 3.º ciclo). Na disciplina de Expressão e Comunicação, recusava-se a falar na maior parte das vezes, no entanto, foi havendo uma pequena evolução gradual, percebendo-se de que esse aluno tinha uma voz forte, agradável e expressiva. Continuou a luta, com muito reforço positivo da minha parte e dos colegas. No final do ano preparámos a nossa peça sobre a poesia e disse-lhe que contava com ele, recusou e de vez em quando eu e os seus colegas insistimos assim como a sua mãe à qual pedimos colaboração.
No dia da apresentação, foi ter comigo na cabina de som e disse que não ia apresentar o seu poema. Eu falei com ele e disse-lhe: Não te vou obrigar a fazê-lo, mas o que sinto é que tu vais apresentar, vais lutar e vencer este desafio! No fim vais sentir-te maravilhosamente bem! Como te vais sentir se desistires? Vai……tu vais conseguir!
Ele foi e declamou o poema de forma tão expressiva com a sua voz forte e poderosa! Não vou negar que lacrimejei. Penso que foi crucial para ele essa vitória. Para mim foi tão gratificante!
Talvez não seja uma história bombástica, mas para um professor que trabalha com cada aluno, dando muito de si, cada pequena vitória é maravilhosa.
PJ – Quer falar-nos de algum projeto escolar em que esteja envolvida e que ainda não tenhamos falado?
MM – Posso falar da disciplina que propus no meu agrupamento e que foi aceite – Expressão e Comunicação. Este é o meu “bebé” que pretende responder a algumas necessidades que foram detetadas nos alunos do agrupamento e que pretende desenvolver neles capacidades inerentes à comunicação e à expressão, quer no âmbito do quotidiano, quer no âmbito artístico.
Estou igualmente envolvida na disciplina Sonhar a Escola, idealizada por uma colega do nosso departamento, Teresa Figueiredo, que consiste na sua generalidade na concretização de tertúlias literárias dialógicas. É uma disciplina que entra no âmbito do projeto Includ-ed (Comunidade de Aprendizagem) que é desenvolvido no nosso agrupamento. O enriquecimento cultural, o desenvolvimento do pensamento crítico, a tolerância, o respeito pela opinião do outro, a abertura para novos horizontes são alguns dos aspetos positivos desta disciplina, para além de muitos outros.
PJ – Para além de tudo o que já foi referido, que outras paixões nutre, que a completam enquanto pessoa?
MM – O teatro é uma das minhas paixões, mas isso já referi. A leitura e a música são essenciais no meu quotidiano. A dança em todas as suas vertentes, mas sobretudo a dança contemporânea pela qual me apaixonei quando assistia aos espetáculos de dança da Gulbenkian.
Outra das minhas paixões é sem dúvida uma boa conversa!
PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
MM – Vou ser rebelde e vou utilizar duas palavras: Eterna aprendiza.
PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?
MM – O meu coração diz-lhe, neste momento, que é absolutamente urgente sentirmo-nos bem connosco próprios, que devemos cuidar muito bem de nós e respeitarmo-nos, porque o nosso propósito é fazer diferença no mundo, é fazer tudo com muito Amor e isso só acontecerá se estivermos equilibrados e felizes, pois ninguém tem capacidade de dar o que não possui (frase feita, mas verdadeira).
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, professora Marina Mendonça! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! – Peço-lhe que deixe uma mensagem a todos os nossos leitores.
MM – Na base de um bom ou “menos bom” profissional está a sua qualidade enquanto pessoa. Há dias bons, há dias menos bons, mas na generalidade o nosso valor enquanto pessoa emerge em tudo o que fazemos. Às vezes é bom gastar tempo para olharmos para nós próprios, cuidarmos um pouco de nós, aprendermos a mudar o nosso olhar para os outros e para o mundo, sermos mais tolerantes, abertos, sinceros e livres. Isso tornar-nos-á mais felizes!
15/06/2023

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