Entrevista a Maria Gracinda Palma Maio

A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!

 • Texto de Paula Jorge

Ficha Biográfica

Nome: Chamo-me Maria Gracinda Palma Maio, nasci em Lisboa, na Maternidade “Bem Saúde”, com o Professor Gentil Martins, pai, onde hoje é o Instituto Português de Reumatologia, já lá vão 70 anos.

Profissão: Sou professora aposentada.

Livro preferido: O meu livro preferido é “Por Quem os Sinos Dobram” do autor Ernest Hemingway, mas há muitos outros que me marcaram profundamente, pelo retratismo (Eça), pela simbologia (Morris West), pelo jogo de palavras (Bocage), pela elegância de expressão (Sofia de Mello Breyner) e tantos outros.

Destino de sonho: O meu destino de sonho é ir à Grécia com os meus 9 netos, num cruzeiro pelo Mediterrâneo, a brincarmos muito todos juntos.

Personalidade que admira: A personalidade que mais admiro é Jesus Cristo/HOMEM, pelo exemplo e verticalidade que os milénios não apagam.

 

Paula Jorge (PJ) – Muito obrigada, Dr. Gracinda Maio, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”. Comecemos pelo princípio.

Pode descrever o seu percurso académico?

Maria Gracinda Palma Maio (MGM) – Aprendi a ler com a minha mãe, o livro era a Cartilha Maternal de João de Deus. Aos 5 anos fui para a primeira classe em Oliveira do Sul, escola que frequentei até à terceira classe. Lá, fiz o meu primeiro exame. A minha professora chamava-se Dona Lucinda Lago. Aos 9 anos entrei no Colégio da Imaculada Conceição das Irmãs Doroteias em Viseu. Adorei! Só não gostava das aulas de Lavores… e escapava-me sempre que podia para as de música. Por vezes, apanhava ralhetes. Eu gostava era de livros e de música. Como não havia o ensino complementar neste colégio (6.º e 7.º anos, atual 10.º e 11.º anos), fui para o Colégio do Sardão, das Irmãs Doroteias, em Oliveira do Douro. Nos jardins deste colégio, Almeida Garrett escreveu “Folhas Caídas”, uma coletânea de poesia, também a parte antiga deste colégio havia pertencido à família do escritor. Todo este envolvimento era quase irreal, era um sonho! Mas o ensino era exigente, e muito, em valores e regras a cumprir escrupulosamente. Assim como na componente letiva, onde tínhamos de dar o máximo. Seguiu-se a Universidade, que bom! Foi uma libertação de tantas regras, horários, rotinas diárias, exigências… no entanto, o Sardão foi uma fase importantíssima na formação da pessoa que hoje sou. A Universidade foi um sonho realizado, onde até podíamos falar com os rapazes. Fui das primeiras mulheres leigas a entrar na Faculdade de Filosofia, embrião do que hoje é a Universidade Católica Portuguesa. Esta Faculdade de Filosofia era apenas para o clero e em 1968, foi aberta a leigos, onde eu entrei, juntamente com mais duas colegas. Recordo com saudade, a felicidade do meu pai quando, no fim de cada ano letivo, eu completava o ano com a totalidade das disciplinas feitas com êxito. Pena foi que morresse tão cedo (em 1970) sem ter o gosto de me ver com o curso concluído. Os “Doutos” Jesuítas não perdoavam a ignorância. Lembro as cadeiras de “Cosmologia”, “Ética”, “Grego”, “Latim”, “Literaturas”. “Histórias da Filosofia” com o sentido da exigência do trabalho que me exigiam. Não havia “dispensas” para ninguém e os exames orais tinham a duração mínima de uma hora e meia. Isto fazia-nos tremer… Mas, depois de começar a oral aquilo fluía, porque acabava por ser um diálogo com o Doutor. Quando um aluno não soubesse, era aconselhado a voltar no ano seguinte. Entre professor e aluno havia um grande distanciamento, muito respeito, mas também havia amizade. Os mestres ajudavam-nos a organizar grandes festas académicas, sobretudo ao nível do teatro, chegámos a encenar “O Grande Teatro do Mundo de Caldeirão de La Barca”, cujo palco era o próprio Santuário do Bom Jesus de Braga, iluminado pelo foco antiaéreo do Quartel da cidade. No teatro circo levamos a cena “Barca Sem Pescador” e “O Processo de Jesus”. As serenatas e os namoricos eram connosco…

O meu percurso académico deu-me estofo para o desempenho da vida que viria a seguir.

PJ – Fale-nos do seu percurso profissional.

MGM – As primeiras aulas que lecionei foi no antigo Conservatório de Música de Braga, tinha 20 anos. Foi só um ano, mas passou como um instante, porque foi muito bom. No dia 7 de janeiro de 1975 comecei a lecionar na Secção Liceal do Liceu Nacional de Viseu em S. Pedro do Sul, as disciplinas de Filosofia, Psicologia e Língua Portuguesa. Fiz o estágio pedagógico em Aveiro, efetivei em Castro Daire e ingressei na Escola D. João Peculiar em S. Pedro do Sul, antigo Ciclo Preparatório. Desempenhei durante 3 anos o cargo de Presidente do Conselho Executivo. Em 1988 orientei a transição da Escola D. João Peculiar para as novas instalações na Rua Sá Carneiro. O curioso é que fui a última Presidente da escola velha e a primeira da escola nova… Lecionei durante 3 anos, a disciplina de “História da Arte” na Escola Profissional de Carvalhais. Fui professora durante 3 anos no Ensino Recorrente (noturno) a lecionar Língua Portuguesa. Fui convidada pelo Instituto de Ação Social Escolar para a Direção da Residência feminina de S. Pedro do Sul, onde desempenhei a função de Diretora durante 11 anos. O mesmo Instituto convidou-me também para a orientação pedagógica na fundação da Residência Mista de Viseu e da Residência Masculina de S. Pedro do Sul. Nesta Instituição, orientei 6 estágios de Economato, dirigidos aos funcionários responsáveis pela organização de funcionamento equilibrado (recurso financeiros e toda a logística inerente). Ao longo dos anos, fui Coordenadora de Departamento, Diretora de Turma, elaborei trabalhos para orientação de estudo sobre História da Arte, que constitui material de apoio e referência para os alunos.

O maior defeito que tenho é ter querido ser, sobretudo professora!

 

PJ – A Dra. Gracinda Maio esteve sempre ligada ao ensino. O que representa o ensino/educação na sua vida?

MGM – O ensino/educação é, para mim, uma dupla sempre incompleta. O saber e o ser estão sempre interligados. A luz que o saber transmite pode não ser o suficiente para a construção da educação. Na minha vida, o ensino dá-me a possibilidade de escolher, firmar e cimentar as minhas vivências.

 

PJ – Gosta de escrever? O que mais gosta de escrever? Quais os sentimentos que a podem dominam quando escreve?

MGM –  Adoro escrever! Pequenos textos de opinião e mensagens oportunas. Ao escrever, penso no bocadinho de mim que posso dar aos outros em palavras/vida.

PJ – Muitas estórias terá guardadas durante todo o seu percurso de professora.

Quer partilhar connosco aquela que mais a marcou?

MGM – Tenho tantas estórias como professora… As aulas eram um local mágico de ensino/aprendizagem. E como a brincar também se aprende, brincávamos, estudávamos, aprendíamos. Quando saíamos em visita de estudo, era uma responsabilidade acrescida, mas boa. Nas viagens do interior para o litoral, o barco era grande. Levava 100 alunos e 50 professores. Os mais pequeninos aproveitavam para brincar aos piratas e os mais velhos para irem ver os sonares. A atividade “A Escola e a Assembleia” era o máximo! Orientava para a cidadania e para tantas coisas mais. Fomos duas vezes ao Parlamento em Lisboa. Uma vez ficamos na minha casa e fomos 5 alunos e 2 professora. As 2 fizemos as camas e distribuímos os alunos por quartos. A determinada altura o silêncio era demais, o que era? Baixinho, para não nos acordar, foram todos para a sala brincar… Tudo bem! A melhor estória foi na Assembleia da República, num dos intervalos dos trabalhos parlamentares, o que se lembraram de fazer… às escondidas e à vez, sentavam-se no trono de D. João V para uma foto. Não sei como a segurança não disparou. Fomos também à Expo 1998, foi o máximo! Os alunos identificavam tudo o que tínhamos trabalhado durante o ano. Inesquecível foi também a recriação histórica do século XVI, realizada na Escola, com “biscoitos” e tudo! Como estavam lindas as minhas alunas quando dramatizaram a Canção do Mar, vestidas de sereias num Festival da Canção… e tantas coisas mais… saudades.

 

PJ – Sei que integra a Universidade Sénior do Município de S. Pedo do Sul. Qual o papel desta instituição na sua vida?

MGM – A Universidade Sénior é uma mais valia para a confraternização e ocupação de alguns tempos livres. A diversidade das disciplinas dá-nos a possibilidade da escolha – o que gostamos ou gostaríamos de fazer consoante as nossas capacidades. O estarmos nesta Universidade, obriga-nos a sair de casa, arranjarmo-nos e a sentirmo-nos vivos. Aprendemos sempre mais qualquer coisa. É bom, sobretudo quando se tem ex alunos como dignos professores.

 

PJ – Acredita que a sociedade dá a devida importância ao setor da cultura?

MGM – Para mim, na maior parte dos casos, a sociedade e a cultura estão de costas voltadas. Não falo em literacia. Conheço tanta gente “iletrada” e tão sábia. Conheço tantos letrados tão ignorantes… Os sábios e os cultos remetem-se ao silêncio, apenas observam.

 

PJ – A Dr. Gracinda Maio é uma mulher na idade amadurecida da vida. Como olha para o papel dos mais velhos na nossa sociedade?

MGM – Nós, os mais velhos, não somos objetos de prateleira. O nosso prazo de validade, ninguém o sabe. Há que viver. Temos a sabedoria que a vida nos deu, vivemos de recordações e com uma vontade imensa de dar os nossos bocadinhos de tempo e de saber a quem os aceitar. Somos importantes nesta sociedade de inconstâncias amorosas, trocas de pessoas, violências escondidas, para mostrarmos que somos capazes de impor respeito e pedir carinho quando é preciso. Carinho é o que falta, nós sabemos.

PJ – Sei que é uma mulher de causas e com um forte sentido humanitário. O que faz ainda hoje, que esteja ao seu alcance, por uma franja mais carente da sociedade?

MGM – Tudo o que faço, que está ao meu alcance, e em relação a quem precisa, mantenho-o no silêncio. É noturno. São os pequenos gestos que nos enchem a alma, por isso ficam na alma.

PJ – Na sua opinião, quais são as grandes fragilidades da sociedade atual?

MGM – À sociedade atual falta: humildade, respeito pelos outros e justiça.

 

PJ – Percebe-se que adora os seus netos. O que representa a família para si?

MGM – A família são “laços de sangue” que nunca deveriam ser desfeitos. Os meus netos são o meu grande “sonho de futuro”.

 

PJ – Nesta fase da sua vida, que paixões nutre, que a completam enquanto pessoa?

MGM –  Nesta fase da minha vida completa-me a noção de que fiz o que sabia e podia e a certeza de ter consciência do que “sou” hoje.

 

PJ – Imagine a sua vida inteira sem a docência, como seria?

MGM – Vazia!

 

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?

MGM – Pedaços.

 

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?

MGM – Obrigada por nos termos cruzado na vida!

 

PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Dra. Gracinda Maio! Desejo-lhe a continuação de um excelente percurso de vida e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.

MGM – Gostava que aproveitassem todos os momentos da vida e todos os bocadinhos que parecem insignificantes. Só assim construímos o nosso “eu”, com a garantia de que fomos uteis, pois, um dia seremos apenas um “era”. Agradeço à Gazeta da Beira e a todos os colaboradores a oportunidade de me permitirem dar um bocadinho de mim e de desejar um Natal cheio de paz.

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