Entrevista a Manuel Marques
Texto de Paula Jorge

A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!
• Paula Jorge
Ficha Biográfica
Nome: Manuel Marques
Idade: 61 anos
Profissão: Comerciante na área de livraria, Papelaria
Livro preferido: “De Profundis, Valsa lenta” – José Cardoso Pires; “Carta ao Pai” – Franz Kafka; “A Neve Caindo Sobre os Cedros” -David Guterson; “O Malhadinhas” – Aquilino Ribeiro, “O Nome da Rosa” – Humberto Eco, e na minha juventude não posso esquecer “As Pupilas do Senhor Reitor”, “Uma Família Inglesa”, “A morgadinha Dos Canaviais” e “O Amor de Perdição”.
Destino de sonho: Riviera Maya – México, Rio de Janeiro- Brasil, Budapeste- Hungria, e Veneza. (Já todas concretizadas)
Personalidade que admira: Nelson Mandela, Churchill, Gandi, Gorbachov, Dalai Lama.
Muito obrigada, Senhor Manuel Marques, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”. Comecemos pelo princípio.
Paula Jorge (PJ) – Pode descrever o seu percurso académico?
Manuel Marques (MM) – Curso Geral de Administração e Comércio, tirado na Escola Industrial e Comercial de Viseu (Emídio Navarro), depois, vários cursos de formação relacionados com a minha profissão.
PJ – Fale-nos do seu trajeto profissional.
MM – Quando acabei os estudos, com 17 anos, fui trabalhar para uma fábrica de produção de papel, depois da formação específica fui transferido para o laboratório da empresa, onde cheguei a analista principal. Em janeiro de 1993, estava numa formação na Portucel de Aveiro, quando recebo uma chamada de um colega a dizer-me que a fábrica ia fechar em maio. Nesse dia chorei, porque adorava o trabalho que fazia. A fábrica fechou e eu que não sou de ficar parado tentei imediatamente outro emprego, dei voltas ao distrito de Viseu, mas era difícil, então tentei criar o meu próprio negócio. A ideia inicial era um café, como tinha algum jeito para os petiscos pensei que era capaz de vingar, mas numa das minhas visitas a S. Pedro do Sul, um senhor que eu não conhecia, mas que mais tarde vim a conhecer (Sr. Manuel Paiva) disse-me que o que mais havia em S. Pedro do Sul eram cafés e que o que fazia falta na zona nova era uma papelaria. Depois de 24 horas a refletir, decidi abrir a papelaria, e já lá vão 26 anos.
PJ – No meio dos livros esteve uma grande parte da sua vida com a Papelaria Vouga. O que significa a leitura para si?
MM – A leitura é fundamental para adquirir conhecimento, desenvolvimento intelectual e para nos dar prazer, só escreve bem quem muito lê, é uma aprendizagem contínua.
PJ – Qual o género de leitura que mais aprecia?
MM – Romances, poesia (Flor Bela Espanca e Joaquim Pessoa), um bom policial e contos.
PJ – Lida diariamente com dezenas de pessoas/clientes/amigos. Muitas histórias terá guardadas durante todo o seu percurso profissional. Quer partilhar connosco aquela que mais o marcou?
MM – Entre centenas tenho duas que guardo:
Em dezembro de 2001, uma senhora entrou na minha loja e disse-me que queria oferecer uma caneta a um médico no valor de 40 contos, eu tinha canetas a 20, 30, 50, 60 contos, mas não tinha nenhuma a 40 contos, a senhora entrou em pânico, só lhe servia uma caneta naquele valor, já era tarde e já não tinha tempo de ir a outro lado. Estávamos na fase de transição do Escudo para o Euro e eu já tinha alguns produtos marcados em Euros, vi que tinha uma marcada por 60€ e fez-se luz. Mostrei-lhe a caixa de longe e disse-lhe que tinha aquela marcada por 60 contos, mas para não a ver tão angustiada lhe fazia um desconto e lha vendia por 40 contos, mandou logo embrulhar e agradeceu imenso a minha generosidade. Ela ficou feliz, porque levou a caneta num valor superior ao que queria oferecer e porque eu lhe fiz um bom desconto, eu fiquei feliz, porque acabei com a angústia da senhora e ganhei bom dinheiro, o único prejudicado foi o médico que levou uma caneta de 60€ (12 contos). (risos). A senhora, se ler esta entrevista, que me perdoe, mas eu não podia vê-la naquela ansiedade.
Segunda história: O Benfica tinha perdido num sábado à noite com o Porto, eu no domingo, vim trabalhar, entrou uma menina na altura com oito anos (a Margarida) na minha loja e disse-me: – Senhor Manuel, eu sei que hoje está muito triste, porque o seu Benfica perdeu, mas tenho aqui um chocolate para lhe oferecer para o ajudar a passar melhor o dia. Fiquei emocionado, a Margarida é sportinguista e aquele gesto deixou-me sem palavras, ela não sabe, mas nunca comi aquele chocolate, guardo-o religiosamente na minha loja, até já está fora da validade, mas para mim vai estar sempre válido.

PJ – Que lições tirou desta marcante experiência?
MM – A angústia, a ansiedade o ter que ser de um adulto a contrastar com um gesto imprevisível de uma criança.
PJ – O que é ser um bom profissional na sua área, ao serviço de uma comunidade, neste caso a comunidade de S. Pedro do Sul?
MM – Cada vez mais temos população envelhecida e o pequeno comércio, muitas vezes, serve para as pessoas se encontrarem e conversarem, e dá-me imenso prazer quando, na minha loja, tenho um grupo de pessoas de várias gerações em amena cavaqueira.
PJ – Lida com livros, revistas, jornais, entre outros, que dão um pouco de cultura à sociedade. Acredita que a sociedade dá a devida importância ao setor da literacia/cultura?
MM – Vou ser muito claro, Não. Ainda acontece alguém entrar na minha loja e ao ver um cliente a comprar o jornal interpela-lo e critica-lo por ainda comprar o jornal, porque segundo ele agora está tudo na NET.
PJ – Consegue descrever-nos, de uma forma geral, a evolução das tendências de leitura, ao longo dos anos, em S. Pedro do Sul?
MM – Grande quebra de leitores a partir de 2006, agravada com a crise 2008 a 2012, agora estabilizou, e penso que há até uma retoma.
PJ – Para além da sua ocupação profissional, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?
MM – Cuidar e tratar de cinco cães que tenho, tratar da minha micro horta biológica e fundamentalmente cozinhar, que é a coisa que me dá mais prazer, gosto de inventar pratos! Às vezes corre mal, mas, na generalidade das vezes, fica bom.
PJ – Imagine a sua vida sem a sua ocupação profissional, como seria?
MM – Só vivendo as situações, por isso não sei, provavelmente chefe de um restaurante, quem sabe na minha próxima vinda à terra. (risos)
PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
MM – Eu não, os meus amigos chamam-me mau feitio, acho que é a brincar, mas as crianças adoram-me!
PJ – Para fechar esta entrevista, o que mais o preocupa no futuro?
MM – As alterações climáticas em primeiro lugar, a desertificação do interior, os sem abrigo – envergonha-me – a separação dos avós dos netos, eles nos lares e as crianças nas creches, lado a lado, mas sem contacto, e tenho pena ver famílias com crianças nos supermercados com dois ou três carrinhos de compras cheios, mas não vejo lá uma alface, umas cenouras, uma couve, uns tomates, uns pimentos ou uns pepinos, é tudo muito monocromático, precisamos urgentemente de retomar a cozinha mediterrânica, estamos a criar crianças obesas e sem cor.
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Senhor Manuel Marques! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.
MM – Eu é que agradeço à Dra. Paula Jorge e à Gazeta da Beira a oportunidade que me deram de falar um pouco de mim, agradecer a todas as pessoas que fazem o favor de serem meus clientes e amigos, deixar uma palavra de conforto para todos os que este ano perderam familiares, nomeadamente a morte do Sr. José Dias, do Sr. José da Tribuna Lafões que me visitava todos os dias, do Sr. José da Discomer, do Sr. Valentim que me dava a manchete da Visão todas as quintas-feiras, do Sr. Vicente, da Sr.ª Fernanda Martins, do Prof. José Luís e, principalmente, a Joaninha Regueira a quem eu tratava carinhosamente por “Floribella” e que faleceu este verão com vinte aninhos, um abraço às manas Patrícia e Francisquinha e à mãe que está num sofrimento atroz.
E para terminar e não maçar mais os leitores, faço dois apelos e uma meditação:
– 1.º Para os mais jovens: Não estejam sempre ligados à máquina, há mais vida para lá do telemóvel e não comecem as frases por “Tipo”, nem por “Tás a ver”. (risos).
– 2.º Não deixem morrer a imprensa regional, é a que está mais perto de nós e que nos dá a conhecer.
– 3.º Meditação – Título de um livro de Jaume Funes: “Ama-me quando menos mereço, porque é quando mais Preciso”.
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