Entrevista a Lucília Alexandrino Mendes

Professora aposentada, dirigente associativa “imparável”

 

“A participação nestas atividades, para além de contribuir para a preservação e divulgação
da cultura tradicional, incluindo os seus usos e costumes, contribuem também para um
enriquecimento pessoal, tornando-nos pessoas mais válidas na sociedade, contrariando
a corrente atual de egoísmo, já para não falar da excelente terapia evasiva, visto nos
engrandecer a alma! Desta maneira a vida parece sorrir mais”

• Texto e fotos de Paula Jorge

 

Ficha Biográfica

Nome: Lucília Mendes Alexandrino Mendes

Idade: 71 anos

Profissão:  Professora Aposentada

Livro preferido: “Comece a viver Agora”

Destino de sonho: Açores

Personalidade que admira: Várias

Muito obrigada, Dra. Lucília Alexandrino, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.

Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio. Pode descrever o seu percurso académico?

Lucília Alexandrino Mendes (LAM) – A Escola Primária foi feita na freguesia de Bodiosa, com sucesso. Não tendo logo prosseguido os estudos, por opção, frequentei e concluí o curso de Corte e Costura, muito em voga na época e o curso de Extensão Agrícola Familiar, os quais me permitiram ir trabalhar durante um ano para os Açores, para a Ilha Terceira.  Quando regressei e já com vinte anos, também já com melhores condições económicas familiares e como ansiava ir mais além, reiniciei os estudos, tendo ido fazer o 2º ciclo na telescola, em Travanca de Bodiosa.  Depois concluí o 3º; 4º e 5º anos do liceu e fiz a admissão ao Magistério Primário de Viseu, em 1975, concluí o Curso de Professora do Ensino Primário. Mais tarde, em exercício de funções concluí a Licenciatura em Animação Sociocultural.

 

PJ – Fale-nos do seu trajeto profissional.

LAM – – Concluído o curso, fui colocada em Deilão, Freguesia de Covas do Rio – S. Pedro do Sul. Tempos difíceis, sem condições de trabalho, pois a escola funcionava por cima de um curral das vacas e nem casa de banho havia. Para minha sorte, apenas lá lecionei um mês, pois aquele lugar foi reclamado por uma professora regressada das antigas Colónias Portuguesas. Assim sendo, fui recolocada, a 3 km da minha residência, em Caria S. Miguel do Mato – Vouzela, no Posto de telescola, secção de letras, onde lecionei durante 24 anos. Com o término da telescola, o posto foi encerrado e fui colocada na escola do 1º ciclo em Quintela de Queirã, que depois de encerrada, por falta de alunos, fui colocada na escola básica do 1.º Ciclo de Carvalhal do Estanho, em Queirã, na qual terminei a minha carreira profissional, com o tempo de serviço e idade completos.

Como diz o provérbio popular “parar é morrer” e após a aposentação, resolvi frequentar o Atelier de Artes Decorativas e Pintura em Viseu, de Olinda Cardoso. Finda esta aprendizagem, fundei o Atelier de Artes Decorativas na Associação do Grupo de Cavaquinhos e Cantares à Beira, em Queirã, cuja sede é na antiga escola primária de Quintela.

 

PJ – Descreva-nos como foi sentindo a mudança do próprio ensino ao longo dos anos.

LAM – Ao longo da minha carreira profissional, as reformas no ensino foram constantes, as quais exigiram da minha parte uma permanente atualização de conhecimentos para acompanhar e implementar as mudanças pedagógicas exigidas.

 

PJ – Finda a sua carreira profissional frequentou o Atelier de Artes Decorativas de Olinda Cardoso em Viseu e após esta aprendizagem criou em Queirã o Atelier na Associação do Grupo de Cavaquinhos e Cantares à Beira. Fale-nos deste Atelier, das pessoas que frequentam estas formações e o seu impacto na aldeia.

LAM – Neste atelier, frequentado por jovens e menos jovens, aprende-se um pouco de tudo, desde a reciclagem das peças, que à primeira vista não tem grande valor, mas que depois de recuperadas, tornam-se objetos de adorno interessantes que ficam bem em qualquer casa.

O ateliê, para além de ser um local de aprendizagem, de elaboração de trabalhos, é também um excelente ponto de encontro, de cooperação, de partilha de conhecimentos, de convívio, repercutindo-se de uma forma muito positiva no meio social da Freguesia.

 

PJ – Esteve sempre ligada à Associação do Grupo de Cavaquinhos e Cantares à Beira, desde a sua fundação em 1992. Que funções desempenhava e que percurso fez esta Associação desde a sua criação até aos dias de hoje?

LAM – Sou elemento do Grupo de Cavaquinhos e Cantares à Beira desde a sua fundação. Fui sempre um elemento ativo em todas as atividades desenvolvidas no grupo. Desempenhei o papel de Tesoureira durante 14 anos, lutando sempre pelo desenvolvimento e crescimento do grupo.

O grupo dedicou-se sempre à recolha, à preservação e divulgação da Música Tradicional da Região de Lafões, tendo editado 7 trabalhos, incluindo o livro “O Canto às Almas do Purgatório”. Ao longo destes anos, o Grupo de Cavaquinhos e Cantares à Beira foi embaixador da Freguesia de Queirã, do Concelho de Vouzela, da Região de Lafões no nosso país, de Norte a Sul, incluindo Arquipélagos dos Açores e da Madeira, e noutros países como Luxemburgo, Cabo Verde e Brasil. Tem participado em vários programas, em diversos canais televisivos.

PJ – Com muita entrega e dedicação, esteve também ligada a outros grupos de folclore e ao grupo coral. Fale-nos destas experiências.

LAM – Para além de pertencer ao Grupo de Cavaquinhos e Cantares à Beira também sou elemento ativo Coro Litúrgico de Queirã e do Rancho Folclórico e Recreativo de Pereiras de Bodiosa.

A participação nestas atividades, para além de contribuir para a preservação e divulgação da cultura tradicional, incluindo os seus usos e costumes, contribuem também para um enriquecimento pessoal, tornando-nos pessoas mais válidas na sociedade, contrariando a corrente atual de egoísmo, já para não falar da excelente terapia evasiva, visto nos engrandecer a alma! Desta maneira a vida parece sorrir mais!

 

PJ – Mesmo com uma vida tão completa, nunca deixou de dar apoio/cuidar dos seus familiares mais velhos e dos mais novos (netos). Como define esta sua postura de estar na vida?

LAM – Esta postura é muito simples: esquecermo-nos um pouco de nós e vivemos para os outros que precisam do nosso apoio! Dedicação ao próximo!

É uma maneira de nos sentirmos felizes, deste modo a vida faz sentido.

 

PJ – Como viveu este ano de confinamento, devido à corona vírus/covid-19?

LAM – 2020 foi sem dúvida um ano atípico e será um ano que ficará na História da Humanidade, infelizmente não pelos melhores motivos – Pandemia Corona Vírus covid-19. Durante este ano, cumpri as regras estabelecidas de confinamento, privando-me de muitas coisas boas, como o convívio social, muito dele inerente às atividades dos grupos dos quais faço parte. Temos de nos resignar e ter esperança que vamos recuperar o que perdemos.

PJ – Para além da sua ocupação diária, que outras paixões nutre, que a completam enquanto pessoa?

LAM – Estou a frequentar um curso de informática para me enriquecer mais um pouco nesta área.

 

PJ – Imagine a sua vida sem a sua ocupação profissional, como seria?

LAM – A vida seria um vazio, não me sentia realizada. A ocupação completa-nos como ser humano, havendo um sentimento permanente de utilidade, de ajuda aos outros, à sociedade.

 

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?

LAM – – Imparável!

 

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?

LAM – Gostei muito de dar o meu testemunho à Gazeta da Beira, o meu muito obrigada por esta oportunidade que me deram, pois há valores que são relevantes falar deles enquanto cá estamos.

 

PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Dra. Lucília Alexandrino. Desejo-lhe um excelente ano de 2021 e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.

LAM – Um bom ano para todos os leitores com muita esperança e que fique tudo bem.

 

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