Entrevista a Jorge Adolfo de Meneses Marques

A rubrica “Gente Que Ousa Fazer” será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida.

Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!

 

Ficha Biográfica

Nome: Jorge Adolfo de Meneses Marques

Idade: 53

Profissão: professor

Livro preferido: tantos, mas escolho o “Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares (Fernando Pessoa), o maior poeta português

Destino de sonho: Alasca

Personalidade que admira: Nelson Mandela (internacional), Mário Soares (nacional)

 

Muito obrigada, Dr. Jorge Adolfo, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”. Comecemos pelo princípio.

Paula Jorge (PJ)- Pode descrever o seu percurso académico?

Jorge Adolfo Marques (JAM) – Fiz o meu percurso escolar obrigatório nas escolas públicas de Viseu, onde nasci e sempre vivi. Depois fui estudar para a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Terminado o curso comecei a trabalhar, mas poucos anos decorridos fui estudar para a Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Foi nessa universidade que fiz o mestrado.

 

PJ – No seguimento da questão anterior, fale-nos do seu percurso profissional.

JAM  – Sempre fui professor, primeiro do ensino público e depois na Universidade Católica, onde lecionei durante dezassete anos. Em 2008 fui convidado para lecionar no Instituto Politécnico de Viseu, mais concretamente na sua Escola Superior de Educação. É nessa escola onde sou professor. Porém, ao longo dos anos, fui, paralelamente, exercendo atividades de profissional liberal, quer com câmaras municipais, quer com outras entidades públicas e privadas. Essas atividades foram quase exclusivamente no domínio da arqueologia e do património cultural, em geral. Esses trabalhos eram de diversos tipos, desde o prático, no terreno, ao editorial.

 

PJ – Pode dizer-nos como foi o seu percurso ao nível da escrita.

JAM – Tudo quanto publiquei resultou sempre de três situações: projetos de investigação que terminavam com uma publicação, artigos de estudo de um caso em pormenor ou textos de colaboração com entidades públicas ou privadas.

PJ – Fale-nos especificamente do livro “Lafões, História e Património”. Como surgiu e como se desenvolveu este projeto?

JAM – O livro nasceu de uma conferência realizada no Museu Municipal de Vouzela, no âmbito da “Feira Medieval de Lafões”, em 2007. No processo de escrita, este trabalho, tal como uma árvore, foi crescendo em altura, dimensão, e estendendo os seus ramos em várias direções. Fui acrescentando temas e subtemas, alguns inéditos, outros já conhecidos de trabalhos publicados anteriormente. Procurava uma síntese da história da região desde a pré-história ao século XVI. Depois de concluído, o livro foi publicado em 2012, numa versão digital. Em 2014 um grupo de pessoas de S. Pedro do Sul decidiu patrocinar a sua edição em papel, o que muito me agradou e a quem estarei sempre muito agradecido.

 

PJ – Colabora também com o Portal ViseuNow com o programa “Segredos do Centro”. Pode falar-nos desta experiência?

JAM – Com o “ViseuNow” colaborei durante um período de tempo relativamente curto, entre 2015-2016. Fizemos vinte e dois programas com a periodicidade semanal o que exigia algum esforço pessoal. Foi uma proposta de um ex-aluno, André Bernardo, e realizado por uma equipa de jovens que trabalhavam nessa empresa. Foi, gostava de o dizer também, um trabalho que fiz a título gratuito. Fiquei muito surpreendido com o sucesso que teve. Também no mesmo domínio estou agora a colaborar com a AquiTV, televisão do “Jornal do Centro”, com um programa semelhante, o “Reza a História”. Está on-line, para todos.

 

PJ – Escreve artigos para o “Jornal do Centro”. Como se revê nesta faceta?

JAM – Escrevo regularmente para o “Jornal do Centro” desde 2015. Já tinha colaborado com o jornal no passado, mas de forma irregular. Aliás, com outros jornais regionais também, como o “Jornal da Beira”, o “Correio Beirão” e o “Jornal Beirão”. Gosto muito de escrever estes artigos porque têm uma componente de crónica histórica. Nem sei muito bem como classificá-los nos géneros jornalísticos. Fico agradado quando, por vezes, algumas pessoas me fazem comentários sobre eles. É sinal que tenho alguma coisa para dizer.

 

PJ – Muitas histórias terá guardadas durante todo o seu percurso profissional. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais o marcou?

JAM – Algumas curiosas, mas talvez a mais estranha foi a de ter sido contactado por um colega para ver umas moedas antigas. Deram-me para a mão meia dúzia e eu fiquei entusiasmado porque estavam em bom estado, apesar de terem mais de quinhentos anos. Eram de um monarca bastante importante da História de Portugal. Porém, a surpresa que me apanhou mesmo desprevenido é que não se tratava de apenas meia dúzia de moedas. Eram mais de mil moedas. Era um achado numismático importante, mas algo sigiloso. Fiquei de boca aberta. Mais recentemente uma coisa que me deu muito gosto fazer foi o estudo sobre duas inscrições pertencentes a duas igrejas de Viseu já desaparecidas, uma do século XVII e outra do século XVIII. Foram dois trabalhos que apesar de separados estavam interligados. Foram publicados em revistas de especialidade. Marcaram-me bastante pela complexidade da investigação.

PJ – Quer falar-nos de outros projetos em que esteja envolvido, neste momento, ou a curto/médio prazo?

JAM – Neste momento estou a ultimar, com dois colegas da Câmara de Sátão, uma atualização da carta arqueológica desse concelho, publicada em 1990. O nosso livro vai sair durante este ano, talvez no verão.

 

PJ – Acredita que a sociedade dá a devida importância ao setor da cultura?

JAM – Dá, contudo como debaixo desse guarda-chuva cabe lá muita coisa, muitas iniciativas e atividades, nem sempre se apoia quem merecia mais. Valoriza-se, muitíssimas vezes, o que é mais fácil, o que enche a vista, como o fogo – de – artifício. É muito bonito no momento, mas depois ou fica o cheiro a pólvora ou a conta para pagar.

 

PJ – Para além de tudo o que aqui já foi descrito, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?

JAM – Sou um leitor compulsivo e por isso dedico muito do meu tempo à leitura. Mas gosto muito de viajar, de experimentar a gastronomia de outras regiões. Se quisermos conhecer a essência de um lugar, ou região, de um povo, é comer e beber o que as pessoas comem e bebem.

 

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?

JAM – Impossível ser uma só palavra. Tenho alguns defeitos, mas também algumas virtudes, como todas as pessoas, pelo que uma palavra não conseguia sintetizar o que sou.

 

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?

JAM – Estou muito, mesmo muito preocupado com o que vai acontecer às pessoas, às empresas, à sociedade do nosso país, e do mundo em geral, nos próximos tempos. Estamos na trajetória de uma grande catástrofe social devido a esta pandemia do Covid19. Estou mesmo muito preocupado. Isto dá-nos uma lição, para quem esteja desatento: somos frágeis, não somos deuses.

 

PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Dr. Jorge Adolfo! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA!

Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.

JAM – A História da humanidade está cheia de momentos difíceis. Todos eles foram ultrapassados, de forma mais lenta ou mais rápida, com perseverança. Isso é coisa que não falta aos lafonenses.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *