Entrevista a Dulcí Ferreira

Escritora

A entrevista que se segue é a uma escritora que já, numa edição anterior, tive o gosto de entrevistar. No entanto, o seu currículo é tão vasto que senti urgente voltar a entrevistar alguém que tanto contribui para a cultura. A senhora que se segue chama-se Dulcí Ferreira e vive em Castro Daire.

 

No campo da literatura, Castro Daire deve ser dos concelhos do país que mais gente tem a escrever e a publicar livros. Por aqui, existem também outras formas de arte e artistas que já começam a dar cartas no panorama cultural, não apenas local, mas também a nível regional e nacional.

 

Paula Jorge (PJ) A DulcÍ Ferreira tem uma vasta obra. Pode falar-nos um pouco dos seus livros?

Dulcí Ferreira (DF) – Em primeiro lugar, quero agradecer ao Jornal “A GAZETA DA BEIRA”, na pessoa da professora/escritora e amiga, Paula Jorge, pelo convite para esta entrevista, uma vez que não deixa de ser um meio de promoção do autor e da sua obra perante os leitores que abrange. Depois, dizer que é uma honra ver as minhas palavras estampadas nas páginas deste dinâmico periódico que dá vez e voz a tanta gente ligada à cultura da nossa região.

Quanto aos meus livros, posso dizer que serão a consequência de uma paixão que cultivo desde pequenina, quando comecei a juntar as primeiras letras e a perceber que, do mesmo escrito, poderia fazer múltiplas leituras e criar, no meu íntimo e na minha imaginação, os universos possíveis, onde me pudesse refugiar daquele em que nem sempre me compreendia. Era nesses mundos paralelos que me sentia feliz e que extrapolava na criação de novas histórias, incríveis e plenamente minhas. Posso afirmar com toda a convicção que os meus livros são o fruto das muitas leituras que fiz ao longo da vida, tal como a minha desenvoltura na comunicação. Quem muito lê, muito viaja através da mente daqueles que se desnudaram, entregaram e partilharam na alvura das páginas brancas dos livros que escreveram, oferecendo ao leitor uma ramificação de ideias, de opiniões, de ensinamentos, de caminhos a seguir, de reflexões a fazer, em suma, mil possibilidades de descobrir o mundo, a história e a vida.

 

UM LIVRO

(um filho)

Um livro pode ser…

O desconhecido que nos entra em casa ao anoitecer

O amante ousado que nos seduz ao adormecer

O companheiro fiel de longas tardes de verão

O maior cúmplice nos devaneios da imaginação
O conhecimento e as aventuras da alma e do coração
Mas também a tristeza do vazio que fica

Quando deixamos de lhe dar a mão.

Um livro é a realização de uma grande paixão

Sempre que somos capazes de lhe dar continuidade.
É nesta altura, de completa gestação

Que o livro se torna um filho, que de igual amor nascido

Também requer liberdade.

 

PJ – Tem diversos registos literários. Em qual deles se revê mais, se é que tem preferência por algum?

DF – Como já referi algumas vezes em entrevistas anteriores, escrevo por intuição e por paixão. Podemos chamar-lhe um dom, contudo, creio que a variedade de registos em que me expresso deve-se, primeiramente, à enorme curiosidade e necessidade que tenho de fazer experiências e testar as minhas capacidades intelectuais; depois, pelo imenso amor que tenho à escrita e aos livros. Cada um, na sua categoria, é projetado, gerado e parido com igual amor.

A Poesia é a absorvência do que me rodeia, do vivido, do sentido, do fruído, do observado, do que me faz feliz, mas mais do que me magoa ou me aperta por dentro. Confesso que, quando comecei a partilhar os meus escritos e, logo depois, a mostrar obra feita para edição, me abraçava um certo ciúme e receio de libertar as palavras feitas poema, de deixá-las ir e de serem tomadas por outros. Doía pensar que podiam não mais voltar para mim. Nos poemas colocava os meus queixumes, os meus descontentamentos, as minhas frustrações, os meus momentos de tristeza. A minha solidão. Só muito raramente escrevia sobre cenários mais alegres. Compreendi, entretanto, que só fazia sentido escrever para partilhar, para levar aos outros a essência dos sentires, plasmada nas palavras belas.

Quanto ao Romance, é algo que requer outra abordagem, outra forma de fazer, outra entrega, estudo, pesquisa, conhecimentos, vivências. O que mais me fascina na escrita romanesca é a possibilidade de me desdobrar, desconstruir, fragmentar, reconstruir e multiplicar. Criar várias personagens e dar-lhes uma identidade, características físicas e psicológicas, um tempo, um lugar, vida própria, é realmente extraordinário.

Através dos Contos que escrevo, vou desvelando memórias, passagens ancestrais quase esquecidas, vivenciadas por mim, por familiares ou mesmo por conterrâneos, eventos que merecem ser registados para a compreensão do “modus vivendi” à época, tal como de valores que se vão perdendo ao longo do tempo.

No que concerne à literatura infantojuvenil, já redigia peças de teatro a pedido das professoras das minhas filhas, quando estas frequentavam o ensino básico. Posso dar como exemplo, um pequeno guião que escrevi para o 4º Ano de Escolaridade – Escola Primária de Farejinhas, que integrou, como atores, crianças e adultos. A princípio, só teria de escrever o texto, depois foi-me pedido que o ensaiasse e logo que o encenasse também. A peça seria apresentada ao público no dia 27 de junho de 2003, na vila de Castro Daire, lugar das Carvalhas, antiga Feira das Vacas, durante as comemorações do Dia Mundial da Criança. Tinha por título “O CAMINHO ERRADO” e sensibilizava os mais novos para a perigosidade dos maus vícios, os malefícios da droga, do tabaco e do álcool. Ironia do destino, a peça foi representada, mas eu não pude ver os meus pupilos em ação porque o meu pai faleceu nessa mesma noite. Apesar de sugerido o cancelamento pelas professoras, a peça acabou por “subir ao palco”. Meu querido pai era um amante das artes. Amava a música e a poesia. Declamava os versos que criava mentalmente, em Odes às raparigas da aldeia. Decerto, ficaria feliz por se ter dado asas ao projeto artístico.

No caso da obra infantojuvenil “NO REINO DA BICHARADA – AVENTURAS NO COUVAL”, que apresentei ao público pela primeira vez a 29 de outubro de 2022, posso dizer que se trata de uma autêntica obra de arte, com vários contos com temáticas que se interligam, histórias suscetíveis de teatralizar e até animar para televisão e que transmitem a pequenos e grandes, valores pedagógicos, lúdicos, didáticos e catequéticos. Segundo a opinião de muitos leitores que já adquiriram a obra, esta deveria integrar o plano nacional de leitura nas escolas por tudo o que nela encerra. Merece a atenção dos vereadores da Cultura e da Educação, tal como de pais e professores.

PJ – Vai quase todos os anos expor na Feira do Livro de Lisboa. Fale-nos desta experiência e de outras.

DF – Sim. Já agora, passo a publicidade, se me for permitido. Estarei na Feira do Livro de Lisboa, a convite do Grupo Editorial Atlântico, pelo 7º ano consecutivo, no próximo dia 4 de junho, em Sessão de Autógrafos, entre as 17 e as 18 horas. Como é natural, espero pelo abraço aconchegante de familiares e amigos e dos poetas/escritores que por ali marcarem presença nesse dia.

A Feira do Livro de Lisboa é sempre uma mais-valia para qualquer autor ali representado, não fosse, esta, uma das maiores Feiras do Livro da Europa. É orgulho, é prestígio. Por lá circulam poetas e escritores nacionais e estrangeiros, desde os mais renomados e vendidos, aos menos conhecidos. Regozija-me a ideia do meu nome e a minha obra se encontrarem referenciados entre tantos e ilustres intelectuais, amantes das artes e das letras. A Feira é também uma grande oportunidade de darmos a conhecer mais pormenorizadamente o nosso trabalho literário, e dos nossos livros ficarem expostos aos olhares de milhares de pessoas. É ainda a melhor forma de nos cruzarmos com amigos e conhecidos, colegas das letras com quem sempre aprendemos algo.

Para além da Feira do Livro de Lisboa, também já estive na Feira do Livro do Porto. É diferente, de menor dimensão, embora o fim seja o mesmo e a experiência sempre extraordinária e enriquecedora.

 

PJ – Como se encontra a cultura nos meios mais rurais, nomeadamente em Castro Daire?

DF – No campo da literatura, Castro Daire deve ser dos concelhos do país que mais gente tem a escrever e a publicar livros. Por aqui, existem também outras formas de arte e artistas que já começam a dar cartas no panorama cultural, não apenas local, mas também a nível regional e nacional. Não faltam talentos na geografia castrense e muitos precisam apenas de um empurrãozinho para mostrarem a sua arte. Para além da escrita, existem escultores, músicos, pintores, cantores, compositores, bailarinos, atores… Há várias bandas filarmónicas, grupos folclóricos, grupos de baile. No campo da representação, podemos dar como referência o nosso Grupo de Teatro Regional da Serra do Montemuro, com atores de excelência e grande experiência de palco, já sobejamente reconhecidos por esse país fora. Como, eles mesmos, se preocupam em dinamizar culturalmente as aldeias mais recônditas do concelho, o ano passado levaram peças de teatro a todas as povoações, numa espécie de “tour” teatral, criada em parceria com o município de Castro Daire (salve o erro). Ninguém ficou de fora. É caso para dizer: “Se Maomé não vai à montanha…”.

Também existem, amiúde, espetáculos e exposições temáticas no Centro Municipal de Cultura e na Biblioteca Municipal, e até um Cartaz Cultural bastante dinâmico e recheado, mas geralmente com artistas de fora da geografia castrense. Não estou, de todo, a dizer que não seja interessante e importante a interação com escritores e artistas de outros quadrantes geográficos, mas a realidade é que pouco se faz com a “prata da casa”. Não se aposta nem se valoriza o que por cá existe.

Por exemplo: por que se faz uma Feira do Livro sem que sejam convidados os autores da terra e expostas as suas obras? Quando é que se fará algo de interessante com a envolvência de todos e do público castrense em geral? Eu valorizo a presença e o aconchego das pessoas da terra, mas não o tenho sentido na maioria dos meus eventos literários. Gostaria de ver mais pessoas a desfrutar dessas criações, a ler os meus livros, tal como os livros dos outros autores castrenses, valorando o seu esforço e a sua coragem.

Resumindo, não faltam eventos culturais no concelho de castro Daire para quem realmente se interessa e aprecia.

PJ – Qual está a ser o impacto, a nível de público, das suas últimas obras?

DF – No que respeita ao romance “PARA LÁ DOS ESPELHOS”, tratando de temáticas muito atuais e que dizem respeito a todas as classes sociais, devo dizer que a crítica é muito positiva, apesar de ainda não ter realizado grandes eventos promocionais da obra, devido à conjuntura atual. Não vou dizer que se tem vendido muitos livros, embora as primeiras edições já tenham esgotado. Vai-se vendendo. As pessoas estão a definir prioridades e a gerir, como podem e sabem, o orçamento familiar, gastando apenas o extremamente necessário. Por este motivo, decidi também fazer uma reflexão sobre as vantagens e desvantagens de andar por aí a promover os meus livros, com toda a despesa e logística que isso acarreta.

Quanto ao livro infantil, está a fazer, especialmente, as delícias de leitura dos mais velhos, que definem a interação entre os bichinhos do Couval como sendo uma excelente terapia para depois de um dia de trabalho enfadonho e cansativo. Também os mais jovens se divertem com as suas histórias, ou lidas pelos próprios, ou teatralizadas pelos mais velhos àqueles que ainda não sabem ler. Vamos com calma. Os livros são eternos. Podemos promovê-los em qualquer altura.

 

PJ – Qual a sua opinião sobre as oportunidades dos escritores nos meios do interior?

DF – Todos sabemos que devido à democratização das tecnologias de informação e comunicação, qualquer pessoa com um pouco de jeito pode escrever um livro e ter acesso a uma editora. Atualmente, as editoras olham muito ao lucro e editam tudo o que lhes aparece pela frente. Costumo dizer que há mais escritores do que leitores e se isso é um problema nas cidades grandes, onde se concentra a maior parte do público leitor, maior problema se torna nos meios mais pequenos e desertificados, longe da civilização. Depois, existe o livro digital, muito mais barato e de fácil acesso, a que a classe de leitores mais jovens vai aderindo. A oferta é maior do que a procura, sem dúvida. O que vale é a quase troca de livros entre autores nos lançamentos uns dos outros. Se isso beneficia alguém? Não creio, mas aumenta a interação entre escritores e poetas, proporcionando encontros e tertúlias e maior conhecimento entre todos. Mas o inverso também existe, principalmente na rivalidade que se instala, por muitos autores julgarem a sua escrita superior à dos demais. Há dias, uma livreira dizia-me que essa rivalidade existe, mas que toda a literatura é boa quando bem-feita, uma vez que cada um se expressa de forma única e especial, não tirando uns, o lugar aos outros. Muito pelo contrário. Ajudam, sim, a enriquecer o panorama literário. E não podemos esquecer que, no meio de tantos livros, haverá obras inferiores premiadas e outras de excelência, esquecidas numa estante qualquer por falta de um olhar atento ou de uma oportunidade.

 

PJ – Quer deixar aqui um conselho a quem quer arriscar no mundo da escrita?

DF – Se for para realizar um sonho, que ninguém deixe de o fazer. Se for para ficar rico, eu diria que apenas um grupo muito restrito de escritores portugueses consegue sobreviver da escrita. No entanto, se escrever for também uma paixão ou uma terapia, força e que seja muito bem-sucedido. Cabemos cá todos.

 

PJ – Projetos da escritora Dulcí Ferreira para curto e médio prazo?

DF – Na verdade, não gosto de falar de projetos ainda em construção. No entanto, posso adiantar que tenho alguns trabalhos terminados, nomeadamente um novo livro de poesia pronto para edição e um projeto infantil que está em processo de conclusão pelo ilustrador Augusto Soares dos Santos. Aliás, já o havíamos mencionado no evento de lançamento das últimas duas obras. Será nestes dois projetos que me focarei nos próximos tempos.

 

PJ – E a família, como se concilia com esta missão?

DF – Tenho duas filhas, ambas doutoradas, cientistas e a trabalhar, uma na Dinamarca, outra na Finlândia. E tenho uma neta finlandesa, agora com 3 anos e uns meses. Estão longe e vêm a Portugal uma a duas vezes por ano, tendo eu que viajar para estar mais tempo com elas. Não se intrometem muito no que escrevo, não têm muito tempo disponível para tal, mas admiram e apreciam as minhas obras. Devo referir que antes de enviar os meus originais às editoras para apreciação e possível edição, os dou primeiro a ler às minhas filhas. São elas as minhas maiores críticas literárias.

Por cá, tenho o meu marido que me dá bastante liberdade para escrever e realizar os eventos a que me propuser. No entanto, trabalho não nos falta. Ele gere uma empresa familiar de Transportes Internacionais (TIR) e eu dou apoio na retaguarda. Tenho ainda uma pequena imobiliária ao meu cuidado, a casa e todos os espaços envolventes, e outras tarefas que requerem manutenção e cuidado. Escrevo, geralmente, pela noite dentro, o que me leva, por vezes, a levantar mais tarde. É quando consigo o silêncio necessário e maior poder de concentração. Não tenho grandes rotinas e dormir pouco não é saudável. Receio vir a ter alguns problemas de saúde futuramente, derivado à privação de sono. Esperamos que não.

11/05/2023


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