Entrevista a Clara Sporman

27 de Março - Dia Mundial do Teatro

Clara Sporman, a jovem atriz e criadora de Lafões que quer fazer Teatro para “conversar com as pessoas”

Em Lafões há uma tradição cultural ligada ao Teatro e encontramos, ao longo dos anos, diversas estruturas teatrais, sobretudo de iniciativa associativa, nos vários concelhos da região. E de Lafões são também nomes importantes do Teatro como Jaime Gralheiro (dramaturgo e encenador) ou Pedro Giestas (ator e encenador).

A esse propósito, no momento em que se comemora o Dia Mundial do Teatro – 27 de Março, a Gazeta da Beira entrevistou Clara Sporman, uma jovem atriz e criadora, natural de S. Pedro do Sul, atualmente a residir em Vouzela, cheia de projetos e de iniciativas que também abrangem Lafões.

 

Gazeta da Beira (GB) – Olá Clara. É com muito prazer que a Gazeta da Beira a entrevista, neste momento em que se comemora o Dia Mundial do Teatro. É de S. Pedro do Sul e queremos saber um bocadinho sobre si, a sua saída para estudar no Porto, depois o seu regresso a Lafões e, também, sobre o seu percurso como cidadã e como criadora.

Clara Sporman (CS) – Sim, fiz o ensino secundário em Línguas e Humanidades em S. Pedro do Sul. Já tinha feito teatro amador quando era criança, mas tive uma pausa bastante grande, até que, no final do meu 12º ano, criámos um projeto na escola com o Sérgio Lucas que, na altura, nos ajudou. E foi aí que comecei outra vez a sentir vontade de fazer teatro. Pesquisei algumas possibilidades de estudo e encontrei a ESMAE – Escola Superior de Música e de Artes do Espetáculo, do Porto. Inscrevi-me logo e fiz provas! Na altura achei mesmo que não ia entrar… Não estava mesmo dentro daquele mundo e havia pessoas que já tinham tirado cursos profissionais naquelas áreas. Mas consegui e lá fui para o Porto. Disse a mim mesma: “vamos experimentar, se eventualmente achar que não, mudo de curso, faço outra coisa”, mas quis mesmo arriscar. E realmente, quando me deparei com pessoas vindas de todo lado a fazerem provas e a tentar entrar naquela escola, pela segunda ou pela terceira vez… E quando consegui aquela oportunidade pensei: “Clara, tu não podes desperdiçar isto, tens que ir!” A experiência do meu primeiro ano na ESMAE, todo o percurso, foi completamente arrebatador.  Foi entrar no mundo completamente novo das artes e do ensino das artes. Foram mesmo dos melhores anos da minha vida.

Acabei o curso em setembro de 2020, já em plena pandemia. Fiquei no Porto alguns meses porque achava que ia ter muito mais oportunidades de trabalho lá, mas não, acabei por voltar para casa até porque surgiram propostas de trabalho aqui nesta zona. Comecei a contar com pessoas da minha área, de Viseu. De repente, conheci um grupo de pessoas que agora me estão a ajudar nestes novos desafios.

GB – Até ir estudar para a ESMAE, tinha alguma perceção da dinâmica cultural criativa na zona do Vale de Lafões ou nos municípios em volta?

CS – Eu era espectadora, sim. Costumava ir a Tondela, ao ACERT, ou seja, essa era a minha referência. De resto fui algumas vezes a Monte Muro, também a Castro Daire. Participei no projeto “A Viagem do Elefante” (produção do Trigo Limpo teatro ACERT – Tondela). Comecei a perceber que há pessoas que trabalham em teatro, em cultura, profissionalmente. O pensamento crítico foi muito fomentado na ESMAE. Temos também a questão da criação. Isto tudo acho que nos constrói como pessoas. É uma coisa a que toda a gente devia ter acesso.

 

GB – Quando regressou a São Pedro do Sul, o que aconteceu?

CS -. Regressei porque tive uma proposta de trabalho aqui, em Viseu. Comecei o estágio profissional na companhia profissional “Mocho no Telhado”. Neste momento estou mais interessada em trabalhar aqui, no Vale de Lafões. E estou já a criar projetos para aqui.

 

GB – Gostávamos de saber a sua opinião sobre esta ideia da capitalidade, de que Lisboa é que é mundo. Há uma rede de teatros já bastante alargada. Mas uma coisa é ter um teatro municipal, de acolhimento, outra coisa é ter companhias locais que têm relação com as diferentes terras e com as pessoas. Como é que vê esta questão? A criação de outras centralidades?

CS – Sair do Porto, vir para aqui, com a experiência lá vivida, dá-me naturalmente um novo olhar. Vi que aqui realmente era a minha casa, onde me sentia bem. Mas sejamos francos, aqui o investimento não tem a dimensão do que existe nas grandes cidades. Temos São Pedro do Sul e a região de Lafões, e vá, temos Viseu que está num patamar um pouco diferente, porque já tem eixos de financiamento para a cultura. Tem muitas associações, muitas companhias que dão muita programação à cidade e dinamismo. A “Mocho no Telhado” é uma delas. Quando vamos aqui para as concelhos mais pequenas como é São Pedro do Sul, Vouzela ou Oliveira de Frades, temos associações locais, temos até grupos de teatro, dança, música. Estas estruturas até se dinamizam, mas o problema é que não se vê uma política de incentivo e apoio à criação. Também é verdade que a orientação está muito centrada na questão da tradição, na promoção de trabalhos com a comunidade que de alguma forma preservem o património material e imaterial da região. As questões dos cânticos ou das danças tradicionais, mesmo o próprio teatro também. Tudo isso faz parte da relação com as comunidades, acho é que é preciso ir mais além e dar o próximo passo.  Não deixar que isso fique para trás, mas acrescentar com novos olhares e desafios. É esse o meu grande foco neste momento. Sei que há alguma tendência para não se querer pessoas novas. O desafio é ao mesmo tempo, havendo pessoas de fora que querem trabalhar, coser as coisas! Esta pluralidade e esta troca de experiências de uma forma mais horizontal pode ser desafiante para todos.

GB – Sabemos da sua participação num espetáculo, em Viseu, com a temática do Holocausto. Gostaríamos de conhecer melhor essa sua experiência.

GB – Sei que o projeto “Camará” foi transmitido num canal da televisão e isso deu projeção. É um espetáculo sobre o Holocausto, parte de um tema muito específico que foi um jornal, uma revista juvenil criada num campo de concentração da República Checa durante a Segunda Guerra Mundial pelos prisioneiros. O espetáculo tem uma dimensão educativa muito forte, ou seja, nós fazemos sempre um trabalho com as escolas, alunos do ensino secundário. Depois da reportagem sobre o espetáculo, é um facto que houve muita procura. Como eu disse, o facto de as artes performativas viverem do contacto com o público precisam de divulgação, portanto os meios de comunicação social são quase uma espécie de amplificador!

Há também preocupação de a divulgação ser feita para além dos meios digitais uma vez que as pessoas idosas, por vezes não têm tanta facilidade em aceder a um telemóvel e ler as coisas online. Também pensámos em desafiar as pessoas a fazerem telefonemas a promover o projeto: por exemplo, aquela senhora tem de fazer 3 telefonemas para 3 amigas suas a divulgar este projeto para irem ver todas a peça.

 

GB – A Clara em uma associação que é ao mesmo tempo associação cultural e também um coletivo de criação artística. Gostávamos de saber um bocadinho mais sobre essa associação e que nos desvendasse o projeto que quer fazer aqui, na região de Lafões

CS – A associação foi criada com ex-colegas da ESMAE. No final do curso já tínhamos muita vontade de fazer um espetáculo específico (que ainda vamos estrear este ano, esperemos). Como tínhamos esta vontade de trabalhar para um espetáculo pensámos em criar uma associação cultural, uma companhia. Percebemos que a longo prazo era fixe termos projetos nossos, criarmos a nossa identidade. Queremos mesmo trabalhar com as pessoas daqui e como eu sou de cá, de Lafões, e tenho uma relação mais próxima, surgiu a ideia de um primeiro projeto, no âmbito de um programa de financiamento da DGARTES, direcionado para o envelhecimento ativo. O projeto tem como objetivo trabalhar com as comunidades locais, com a população idosa de São Pedro do Sul, Vouzela e Oliveira de Frades. Não é um projeto de intervenção social. Queremos criar um espetáculo, um objeto artístico nosso, mas que seja feito a partir de material recolhido junto destas comunidades, a partir das memórias, histórias de vidas das pessoas. Para isso queremos contar com a colaboração das IPSS, dos lares, dos centros sociais que nós sabemos que têm muito mais facilidade em contactar as pessoas. E queremos saber o que aquela pessoa em concreto pensa, sonha, gosta. E promover também junto delas atividades de intervenção teatral, queremos ter essa experiência com elas. No fundo é uma troca. E é através dessa recolha que depois, com uma equipa de seis pessoas, seis jovens, vamos interpretar esse material e transformar num espetáculo. Ir mais além na questão das tradições, do património da região. Estamos a dar uma coisa nossa, feita por nós no século XXI, mas que parte das pessoas daqui, das suas vidas. E com o filtro de pessoas que têm 22 anos. O tema também é esse, a questão das idades, do tempo: passado – presente – futuro. O desafio: como é que alguém com 22 anos contacta com uma pessoa de 70 ou de 80 que já tem toda uma vida para trás. Normalmente associamos as pessoas mais idosas a esta questão da sabedoria, de nos darem conhecimento e experiência, mas e o que é que eu também dou a essa pessoa? Que viagens é que se cruzam? Exato: as viagens. E o campo das emoções. Na minha geração não é a mesma coisa, simplesmente. Essa questão das emoções é uma coisa que eu quero mesmo trabalhar.

GB – Como é que vê a questão da sustentabilidade de um projeto como este que acabou de descrever e como é que os meios de comunicação, internacionais, nacionais e sobretudo regionais, como é que é o caso da Gazeta da Beira, podem ser úteis?

CS – A questão da sustentabilidade é essencial. É preciso que haja dinheiro, as coisas não podem ser feitas de graça, obviamente. Os projetos de artes performativas no geral vivem da relação com o público. E da adesão do público. Acho que este projeto tem tudo para ser bem acolhido porque efetivamente ele é dirigido às populações daqui, feito com elas. É sustentável no sentido em que conseguimos prever essa adesão. Ainda assim, candidatamo-nos a um financiamento da Direção Geral das Artes. Ao mesmo tempo também é preciso que as autarquias locais se envolvam, no acolhimento do projeto, no acolhimento da ideia, no envolvimento com os públicos, no envolvimento com os artistas. Às vezes a política ou os órgãos políticos, não sei… ou somos nós os artistas que nos afastamos deles ou são eles que se afastam de nós. Não sei, posso estar errada, mas aquilo que eu tenho sentido nos últimos meses é que estamos sempre a pedir favores às pessoas e isso deixa-me triste e fica uma sensação de frustração até porque nós estamos a oferecer um serviço aqui ao território, à comunidade. Saberem o que é que está a ser feito e não é só esta ideia de “ele é o artista, trata da parte criativa, vai lá fazer qualquer coisa e depois nós só passamos o cheque”. Acho que não deve ser assim, é uma questão de política cultural. Tem havido bastantes coisas em rede dos três municípios, isso ótimo, temos aqui uma possibilidade de parceria de três concelhos que deve ser explorada. Quanto mais trocas houver e isto já há nos outros campos, mais informação circula e mais gente usufrui dos eventos culturais

Por exemplo, o projeto sobre o envelhecimento faz essa ligação aos 3 concelhos.

Os meios de comunicação são fulcrais na divulgação, no acesso, principalmente os regionais, ou seja, a Gazeta da Beira, as rádios locais. Também há a televisão, mas é coisa de outra magnitude, mas saber que as pessoas daqui estão a ler ou a ter conhecimento dos projetos daqui é o mais importante. A Gazeta tem um papel muito importante porque efetivamente, há pessoas que só leem a Gazeta e que gostam de saber destas coisas, é um dever informar as pessoas.

 

GB – Isso é uma bela ideia porque está a envolver as pessoas que são simultaneamente públicos e participantes. Já em nome para o projeto, para o espetáculo?

CS – Sim. Chama-se “Daqui prá frente”.

 

GBE daqui prá frente vamos ouvir falar da associação, que ainda não nos disse como se chama?…

CS – Ah, sim! A associação chama-se “Casulo”.

 

GB – Com a “Casulo” e o projeto “Daqui prá frente” deixamos o desafio às rádios e ouros órgãos de Comunicação Social para que venham conhecer a associação e a Clara e também o desafio às autarquias que se envolvam, para além do financiamento, neste tipo de projetos desde início. Clara, se quiser deixar uma última mensagem nesta nossa entrevista, por exemplo, o que é que diria à sua vizinha em Vilharigues sobre o projeto?

CS – Numa frase diria: – venha ver-nos, venha conhecer-nos e vamos conversar, porque acho que é preciso mesmo conversar com as pessoas!

 

——————————————————————————————————-

27 de Março – Dia Mundial do Teatro

Neste dia, pretende-se destacar a importância do Teatro na história e na cultura da Humanidade, a importância do Teatro como forma de expressão artística, bem como forma de expressão crítica da sociedade, mas também de divertimento e de expressão popular.

A primeira Mensagem Internacional do Dia Mundial do Teatro foi escrita por Jean Cocteau (França), em 1962. Foi celebrado pela primeira vez em 1962 pelo International Theatre Institute (ITI) e, desde então, é comemorada pela comunidade internacional de teatro, pelos seus criadores, pelos seus trabalhadores. Uma das iniciativas mais importantes, a cada 27 de março, é a circulação da Mensagem Internacional do Dia Mundial do Teatro, através da qual, a convite do ITI, uma figura de reconhecido mérito partilha mundialmente as suas reflexões sobre o tema do Teatro, da profissão, da situação do Teatro no mundo.

31/03/2022


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *