Entrevista a Carlos Tavares Rodrigues

Professor aposentado, jornalista

“Ser-se Professor, mais do que uma função profissional, tornou-se uma verdadeira missão e, mesmo, uma paixão. Impossível deixar de o ser, mesmo que a aposentação isso pareça ditar. Ficando-nos esse estado de espírito cravado na nossa personalidade, agarrado que nem uma lapa, professor um dia, professor toda a vida.”

 

“Gente Que Ousa Fazer”

Olá! Estarei convosco para responder a mais um desafio. Espero não vos desiludir. A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!

 

Ficha Biográfica

Nome: Carlos Tavares Rodrigues

Idade: 72 anos

Onde vive: Vilharigues, Vouzela

Profissão: Professor aposentado, jornalista

Livro: “Oliveira de Frades, 1991”

Música: “Canta, canta, amigo canta… “

Destino de sonho: Mil e uma terras onde nunca fui

Personalidade que admira: Nelson Mandela

 

Muito obrigada Dr. Carlos Rodrigues, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.

Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio. Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?

Carlos Rodrigues (CR) – Com tantos anos de vida, já não é fácil rebuscar essa longa caminhada, mas nunca posso esquecer a minha escola primária em Reigoso, à distância de cerca de dois quilómetros de minha terra, a querida Sobreira, para onde íamos todos os dias a pé. Com muitas recordações e emoções pessoais, sempre à flor da pele, trago sempre no coração os momentos em que as minhas saudosas professoras me pediam para dar aulas aos meus e às minhas colegas, o que me deixava altamente encolhido, mas, simultaneamente, algo orgulhoso. Houve, depois, por razões financeiras, uns tempos de interregno. Veio posteriormente o regresso aos estudos numa Instituição a que muito devo: o Seminário. De paragem em paragem, um dia fui cair num dos melhores locais de formação onde jamais andei, já depois da vida militar, a saudosa Escola do Magistério Primário de Viseu, que frequentei durante três bons anos. Coimbra e o curso de História vieram a seguir, assim como outros passos e graus académicos nessa mesma cidade e em Lisboa. Profissionalmente, sendo Professor, agora aposentado, passei por escolas dos concelhos de Mortágua, Vouzela e Oliveira de Frades. Um dia, vi-me como fundador e primeiro Diretor do Centro de Formação de Lafões, com sede em S. Pedro do Sul. Cumpriu-se, assim, uma verdadeira missão lafonense. Antes, cheguei a passar pelo comércio, por um serviço de escriturário em Lisboa, pelo jornalismo no “Vouga Livre” durante cerca de um ano, como que alimentando uma outra faceta de minha vida que ainda hoje perdura, sobretudo no “Notícias de Vouzela”, onde escrevo faz agora em 2023 precisamente 50 anos, 50 anos, repito. Militar em Tete, Moçambique, daí vieram os meus primeiros textos e já com Lafões na mente. Saindo do mundo das escolas oficiais em 1994, para abraçar o serviço público como autarca, tentei, depois dessa fase de 12 anos, que o ensino nunca me abandonasse, andando pela docência em cursos profissionais privados e, agora, nas Universidades Seniores de Vouzela e, mais recentemente, Oliveira de Frades.

PJ – Descreva-nos como viveu a missão de ser professor, manifestando-se, também, sobre o estado da educação na atualidade.

CR – Ser-se Professor, mais do que uma função profissional, tornou-se uma verdadeira missão e, mesmo, uma paixão. Impossível deixar de o ser, mesmo que a aposentação isso pareça ditar. Ficando-nos esse estado de espírito cravado na nossa personalidade, agarrado que nem uma lapa, professor um dia, professor toda a vida.

Quanto ao ensino atual, muitas são as diferenças, que a vida pula e avança como bola colorida nas mãos de uma criança (António Gedeão/Manuel Freire). Nada poderia ser igual aos anos e fases anteriores. Registo como muito positivo a democratização do ensino, a obrigação da frequência escolar até ao 12º ano, a importância dada ao profissional, a abertura da escola à família e à comunidade e a novos cursos e programas e a tentativa de acompanhamento dos tempos modernos. Temo é que se percam alguns valores que são o cimento de todo o edifício escolar e, nestes momentos, quando há para aí tanto a discutir e a mudar, formulo um desejo muito simples e quase linear: que a paz, a normalidade criativa, a dignidade e o respeito voltem às nossas escolas. Disse.

 

PJ – Abraçou há já alguns anos a nobre causa dos Bombeiros Voluntários de Oliveira de Frades. Pode falar-nos sobre esta sua entrega?

CR – Que rica missão foi essa! Ficarei sempre eternamente grato a quem me convidou para funções dirigentes na Associação dos Bombeiros de Oliveira de Frades, instituição em que fui membro do Conselho Fiscal, Presidente da Direção e Presidente da Assembleia-Geral, honroso “posto” que ainda hoje desempenho. Antes, porém, já tinha sido também dirigente na Associação de Vouzela, muito embora de uma maneira mais fugaz… foram e têm sido momentos incríveis em matéria de solidariedade, porque nestas Casas e causas, o Bombeiro mostra e dá de si o melhor que tem e pode, até à exaustão. Choro ainda hoje (e nunca mais os esquecerei) aqueles brilhantes e abnegados Soldados da Paz que, um dia, fruto de infortúnio, SERVINDO O PRÓXIMO, nos deixaram. Como dirigente que fui e tenho sido de “fato e gravata”, a minha atenção especial vai sempre para a incrível gente que enverga a farda da entrega e da dádiva total a toda a comunidade. Que grandes heróis! Fantástica malta é esta que tão bem nos serve!…

 

PJ – Fale-nos da sua ligação à escrita e a vários jornais onde tem colaborado.

CR – Eis aqui uma questão a que tenho dificuldades em responder. Se o gosto pelas letras lidas e escritas sempre me fascinou, desde os tempos das velhas bibliotecas escolares de Lafões, em generosa oferta do Comendador Manuel Fernandes Gomes, e da Fundação Calouste Gulbenkian, esta minha costela muito fica a dever às professoras que tive na escola primária, que me incentivaram a ler e a escrever até mais não. Relembro que, um dia, a Professora Dulce da Natividade Rodrigues, que veio a casar-se numa terra bem perto da minha, Pereiras ou Sobreiro, não sei bem, me ofereceu uma esferográfica branca de feltro, uma raridade naqueles tempos, lembrança que, nunca, nunca mais esqueci. Talvez esse gesto me tenha feito gostar ainda mais de escrever. Quanto a outros saltos, nomeadamente para a colaboração com o mundo da imprensa escrita, penso que tudo aconteceu em sonho feito realidade num continente bem distante, África, mais concretamente em Tete/Moçambique, aquando da prestação de serviço militar. Estávamos nos anos setenta e ao ser assinante do querido jornal “Notícias de Vouzela” me lembrei de enviar, como já aflorei pela rama, uns textos. Dois deles foram publicados em caixa, um, e outro mesmo em primeira página, para minha inteira surpresa e espanto, isto em 1973, faz este ano precisamente 50 anos. Tal como um rio, as águas foram correndo e fui passando pelo citado “VougaLivre”, pelos Notícias e Diário de Viseu, pelo Jornal de Notícias, por suplementos do

Expresso, pelo Notícias de Lafões, pelos Ecos da Gravia, etc, mas nunca, nunca mesmo deixando de lado a jóia da minha coroa, o Notícias de Vouzela. Vieram ainda outras publicações, como a Monografia de Oliveira de Frades (co-autor), o Boletim Municipal e Revistas deste Município, “pedaços” de outros livros, revistas e um sem número de publicações de diversa ordem e grandeza, incluindo dissertações várias… Não posso, nem devo deixar de fora, a fantástica obra editorial da Confraria dos Gastrónomos da Região de Lafões (de que fui Presidente da Direção e AG e agora o sou no CF), que tem feito sair uma série de publicações em que tenho tido o gosto de participar, assim como, numa outra esfera, em edições da Associação Nacional de Municípios com Centros Históricos… enfim, são cinquenta anos de caneta e computador na mão e o mais que virá, creio eu…

PJ – Descreva-nos também a sua paixão pela rádio e quando começou.

CR – Essa é uma paixão bem mais recente. Gostando de tudo o que mexe e pode servir a minha região, um dia, em finais dos anos oitenta, nasceram por aqui as célebres e nunca esquecidas rádios-piratas, clandestinas e proibidas. Passei por uma série delas: a Rádio Valadares, a Rádio Regional de Fataunços, a Rádio de Oliveira de Frades, a Rádio Lafões e, acima de todas, para mim, a Rádio Vouzela, hoje VFM/Rádio Vouzela, onde me mantenho, agora a estar sob a lei e com a lei a reger-nos. A nível nacional, colaborei com a RR, com a RDP, delegações de Viseu, por exemplo. A magia do microfone, eis outra forma de ser e estar com a nossa gente e isso é que importa…

 

PJ – A sua passagem como autarca ajudou-o, certamente, a conhecer o território de Lafões de um modo mais profundo. Fale-nos desta sua experiência.

CR – Obrigado, Paula, por tocar num dos mais cativantes assuntos da minha vida, em etapa por onde andei durante cinco mandatos, dois na Assembleia Municipal de Vouzela e três no executivo da Câmara Municipal de Oliveira de Frades, como Vereador e Presidente. Pude, nestes cargos, dedicar-me de alma e coração a fazer tudo aquilo que fui capaz pelos conterrâneos destes dois concelhos, ainda que em papéis muito diferentes: na AM apenas pelo discurso; na CM, metendo a mão à obra e dar tudo pela concretização de projetos e ações, ora com mais, ora com menos sucesso e até com muitos erros e falhas à mistura. Mas tudo isso faz parte da vida de quem quer fazer alguma coisa.

Esses períodos foram de uma riqueza ímpar em contactos e conhecimentos das nossas gentes, dos territórios que habitam, das suas necessidades e realizações. Se escolas tive, esta, a da vida intensa, foi talvez a mais notável. Mais do que os livros, o sentir o pulsar das populações foi a maior secretária das aprendizagens que fomos tempo ao longo destes 72 anos.

 

PJ – O que significa ser lafonense de alma e coração?

CR – Não sei, nem talvez nunca mais o venha a saber: ser lafonense é qualquer coisa de fantástico, de extraordinário, de poder cheirar a maresia e o ar das nossas serras, rios e paisagens, isso não se pode descrever. Sente-se e está tudo dito.

 

PJ – Muitas histórias terá guardadas durante todo o seu percurso de vida. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais o marcou?

CR – Em mais de sete décadas de vida, muitos momentos me marcaram. Um deles, o mais doloroso, foi, em 1975, quando perdi meu irmão Tonito, que passou grande parte de sua vida no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde recebeu cuidados de excelência, durante anos a fio, para tratar de um cancro que teve na cabeça, mas que, infelizmente, ninguém conseguiu salvá-lo, tendo falecido aos 14 anos. Uma tristeza imensa, tal como a partida de minhas avós (que os avôs, com muita pena minha, nunca conheci), dos meus pais, dos meus tios, dos meus primos e amigos, tantos amigos que já cá não estão connosco. Mas que recordo para sempre. Por mais que queira esquecer, estas perdas são eternas…

 

PJ – Quer falar-nos de alguns projetos em que esteja envolvido e que ainda não tenhamos falado?

CR – Além de algumas aventuras na escrita, ainda não acabadas, uma destas passa, com a equipa que me acompanha, pela conclusão da reedição da Monografia de Oliveira de Frades, uma obra de um fôlego enorme que, em 1991, a sua primeira edição teve cerca de 600 páginas. Esse é um objetivo a curto prazo. Outros, talvez esperando mais um pouco, também acabarão, creio eu, por ver a luz do dia.

Não podia deixar terminar esta entrevista que, com muito gosto dou a minha boa Amiga Paula Jorge, sem falar de uma outra missão que tenho em mãos, que é a minha ligação à ASSOL, essa Instituição de ouro que ao mundo das pessoas com deficiência tanto tem dado em Lafões e noutras áreas territoriais. Cabendo-me a honra de ter sido seu Presidente da Direção durante uns anos (desejando ao Gil Almeida e à sua equipa que tenham todo o sucesso do mundo), sinto-me muito feliz por ser seu Presidente da AG. Associação com marca de pergaminhos internacionais, a sua obra e os milhares de pessoas apoiadas e parceiros ativos falam por si. Com participação em muitas outras associações da nossa Região, para elas todas espero que continuem as suas nobres e também gratificantes funções a todos os níveis e a todas agradeço a confiança que em mim depositam.

PJ – Para além de tudo o que já foi referido, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?

CR – Uma outra paixão das grandes é o gosto pelo conhecimento e pela vontade de o dar a conhecer a quem comigo contacta. Livros, jornais, rádios e televisões são uma das minhas boas perdições.

Sabe, Paula, revendo as muitas linhas que aqui fui escrevendo, quase que parece que estou a ser egoísta demais, mas como me pede uma história de vida, quis fazê-lo com a abertura e a responsabilidade que a sua proposta colocou em cima da minha pessoa. Muito obrigado por isso e pela atenção que me tem dispensado. Faço votos para que nunca pare na sua criação e obra literária, nem na entrega que faz ao mundo da comunicação e do ensino, o que muito nos une além de sermos conterrâneos…

 

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?

CR – Lafonense

 

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?

CR – Diz-me, nesta hora, que uma gratidão enorme me invade e que o coração bate fortemente para dizer obrigado à vida e a si, Paula Jorge, por me ter dado esta oportunidade. Muito bem-haja e muitos sucessos…

 

PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que

foi uma enorme honra, Dr. Carlos Rodrigues! Desejo-lhe a continuação de um

excelente ano de 2023 e MUITO OBRIGADA!

23/02/2023


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