Entrevista a Carlos Cruchinho
Professor de Português, História e Geografia e Expressão Dramática

“Cada povo tem a sua cultura e uma identidade própria. A fruição das artes em geral tem um poder transformador único numa sociedade. A frequência de eventos culturais torna um povo mais feliz e com uma visão mais alargada do mundo. Infelizmente neste retângulo à beira mar plantado a cultura não é valorizada devidamente.”
• Paula Jorge
Ficha Biográfica
Nome: Carlos Manuel Martins Cruchinho
Idade: 53 anos
Profissão: Professor de Português, História e Geografia e Expressão Dramática
Livro preferido: 1984 de George Orwell
Destino de sonho: Tibete
Personalidade que admira: Nelson Mandela
Muito obrigada, Carlos Cruchinho, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”. Comecemos pelo princípio.
Paula Jorge (PJ) – Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?
Carlos Cruchinho (CC) – Nasci na cidade Luz, na comuna de Saint Ouen Seine – St. Denis, às 13 horas da tarde, do dia 11 de abril de 1968. Residi na capital francesa até aos seis anos de idade, onde frequentei L’École Maternelle de Pantin durante 2 anos. Na segunda quinzena de julho e o mês de agosto de 1974, a minha família veio de férias a Portugal, a poucos dias de terminarem as férias grandes, assim chamadas pelos mais novos, fiquei a saber que não iria acompanhar os meus pais e o meu irmão no regresso a França. Os meus pais tinham decidido a minha permanência em Portugal para iniciar os meus estudos, tendo – me matriculado na 1ª classe na Escola Primária de Penamacor, onde eles tinham feito o exame da 4ª classe. No Externato Nossa Senhora do Incenso frequentei o 3º ciclo do Ensino Básico Unificado e o Ensino Secundário. Entre 1986 e 1990 licenciei-me no Ensino do Português, História e Ciências Sociais na Escola Superior de Educação de Castelo Branco.
Em termos profissionais tenho exercido a minha prática docente um pouco por todo a país, embora na última década e meia entre as Terras de Besteiros – Tondela e as Terras de Viseu Dão Lafões – Oliveira de Frades.

PJ – Pode falar-nos do seu percurso ao nível da escrita, enunciando os seus livros?
CC – – Esta aventura de escrever poesia e prosa é recente na minha vida, contudo sempre me lembro de escrevinhar pequenos poemas de amor em cartas, agendas e pequenos blocos. Registar pequenos apontamentos sobre situações vividas e histórias interessantes narradas pelos mais velhos durante a minha infância. No ano de 2018 publiquei os meus primeiros poemas originais numa antologia com a chancela Artelogy. Aos poucos fui ganhando coragem para a publicação do meu primeiro livro de poesia “Inquietações”, resultado da escrita de poemas originais durante mais de dois anos. Ao partilhar formalmente a minha escrita com um público mais alargado deixei de ter medo de existir, procurando um sentido para a minha existência.
Se alguém me dissesse há alguns anos atrás que eu iria estar a escrever textos praticamente todos os dias! Daria umas grandes gargalhadas. Contudo, por vezes, a nossa vida toma rumos inesperados. Como é que tudo começou?
No internamento pediátrico do Hospital Teotónio em Viseu, durante um período de doença do meu filho. Ao observar tanto sofrimento angustiante e com tanto tempo disponível, um dos primeiros poemas surgiu para dar força a uma menina diagnosticada com diabetes tipo II. Intitulado A´garra a vida. A partir do momento que olhamos com olhos de ver para os outros, para as injustiças e crueldade perpetradas pelo Homem… O grito da nossa revolta pode surgir na ponta da nossa caneta ou nas palavras ditas ou publicadas. E nunca mais parei de escrever… Em outubro 2021 publiquei o “Corações com Alma” histórias despretensiosas, um livro fruto das minhas vivências ao longo das cinco décadas de existência. Os maiores cúmplices das minhas narrativas encontrei-os nos lugares mais simples, nas ruas da minha infância, nos becos sem saída, nas conversas mais banais e num olhar mais atento. Apetece-me citar um adágio popular “Quem conta um conto acrescenta sempre um ponto…”
Nesta dualidade física e espiritual, com o “Corações com Alma” pretendo despertar da letargia os mais acomodados, para pensarem pela própria cabeça ao utilizarem a razão, viverem a vida com o coração, incitando-os a procurar transformar a realidade, numa existência no seio da fraternidade, onde o amor ao próximo torna-nos livres de sonhar com um admirável mundo novo.
PJ – Quais os temas que mais gosta de abordar quando escreve e quais os géneros literários que mais gosta de escrever?
CC – A minha escrita procura registar os pormenores que escapam ao olhar comum dos homens e mulheres, enxergar as pessoas com o coração para compreender a sua alma. A interação entre os lugares, as pessoas e as conversas inéditas fazem o resto, desafiam-me a registá-las numa folha em branco. Escrevo para não esquecer, escrevo para uma memória futura, escrevo para libertar certas palavras incontornáveis, a felicidade, o amor, a generosidade, a justiça e o respeito pela dignidade humana. As palavras certas em prosa ou em poesia acompanham esta breve viagem, onde no placo da vida urge acompanhá-la sempre com uma boa banda sonora.

Gosta de ler? Considera importante ler para se escrever bem?
CC – Sim. Com a disponibilidade de equipamentos culturais e a proliferação de bibliotecas escolares e municipais, o acesso a livros tornou-se facilitado, o que tem muito incrementado os hábitos de leitura na população em geral. No entanto, muito trabalho ainda está por fazer neste âmbito, já que segundo um estudo patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian sobre os hábitos de leitura, 61% da população portuguesa admitiu não ter lido um livro físico na sua totalidade, durante o ano de 2021.
Recordando as minhas primeiras leituras, no início da década de 70, o acesso aos livros só era possível através das carrinhas da Fundação Calouste Gulbenkian. Mensalmente como utilizador podia requisitar obras literárias de escritores portugueses e estrangeiros. Os meus preferidos passavam pelo Sandokan – Tigre da Malásia de Emílio Salgari, As pupilas do Senhor Reitor de Júlio Dinis e a banda desenhada Asterix e Obélix de Goscinny e Uderzo e o Tintim, Milu e companhia por Hergé, preenchiam as nossas cabeças e alimentavam os nossos sonhos de meninos de calções curtos. Na génese de um autor ou escritor está sempre um bom leitor. A leitura de excelentes escritores alarga o vocabulário disponível, constrói um repositório de histórias e enredos, estimulando a imaginação criadora do autor. O contacto com diversos estilos literários, a leitura dos clássicos ou escritores mais contemporâneos possibilita uma consciência leitora essencial, para uma apropriação do conhecimento e a posterior transformação da realidade circundante.
PJ – Fale-nos da sua experiência teatral como ator, figurante e performer.
CC – Como performer destaco a participação no “Absolutamente … Trabalho em progresso – Performance física” coreografada por Romulus Neagu, bailarino da Companhia de Dança Contemporânea Paulo Ribeiro – Teatro Viriato. Uma oportunidade e um enorme desafio para expressar-me através do corpo em movimento. Das inúmeras figurações tive oportunidade de integrar o elenco da Viagem do Elefante – espetáculo teatral de rua do Trigo Limpo Teatro ACERT, a partir do conto homónimo de José Saramago. No ano do centenário do nascimento do Nobel da Literatura relembrar o périplo do elefante Salomão pela região de Viseu Dão Lafões, porque segundo o escritor “sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”.
Como ator destaco a participação na peça “Andam Faunos Pelos Bosques” pelo Grupo ProjectOff, inspirada no livro homónimo do escritor Aquilino Ribeiro. Esta peça venceu o prémio Animarte – Produção Artística de Teatro. Outro projeto desafiante foi encarnar o personagem Vasco na peça Câmara de Eco pelo Teatro Onomatopeia, uma produção da Zunzum e encenação de Jorge Fraga.
O teatro, a arte de representar e a construção de personagens uma paixão incontornável para toda a vida. Os dramaturgos e os atores, sempre foram grandes operários na mudança de mentalidades, os primeiros criticando a sociedade e os seus costumes, os segundos utilizando os seus personagens para transmitir sentimentos, emoções e certas mensagens, escapando muitas vezes às censuras em tempos de repressão.
PJ – Qual o sentimento que o domina quando está em cima de um palco em contacto com o público?
CC– O sentimento dominante em cima de um palco passa pela pertença a um coletivo, capaz de transformar um texto escrito numa narrativa destinada a fruição do público. O desafio de encarnar personagens diferentes, desempenhar novos papeis e expressar sentimentos e emoções únicas, vedadas por vezes na vida real. Emocionar o público com o poder da palavra.
PJ – Tem algum ritual que faça antes de subir ao palco?
CC – O meu único ritual antes de subir ao palco é colocar as mãos em concha, olhar um ponto fixo e pedir proteção para a minha representação. Após uma breve oração, concentro-me nas minhas primeiras palavras do texto e revejo todo alinhamento da peça. E na minha cabeça surge a música dos Queen, “show must go one…”
PJ – Muitas histórias terá guardadas durante todo o seu percurso de vida e profissional. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais o marcou?
CC– Já lá vão mais de cinco décadas de vida, muitas histórias povoaram o meu percurso profissional e de vida. Ao longo da minha carreira como professor guardo até hoje na memória, as sensações inesquecíveis no meu primeiro ano a ensinar na vila de Resende. A minha vocação posta à prova num território encravado entre a montanha e o rio Douro. Os meus primeiros alunos sorviam as minhas palavras, os seus olhares ingénuos exibiam o brilho da curiosidade a cada lição, o poder mágico transformador da educação operava autênticos milagres naquelas humildes crianças. Com intenção de promover a leitura nos meus alunos, pedi-lhes que trouxessem um livro para organizar uma biblioteca de turma. Na semana seguinte, três alunos trouxeram para participar na troca livros a Bíblia, segundo eles o único livro disponível nas suas casas. Este episódio transformou o jovem professor idealista num professor pragmático, lembro-me de ter respondido “Não há problema nenhum, têm em casa o livro mais lido em todo o mundo.”
PJ – Quer falar-nos de algum projeto em que esteja envolvido e que ainda não tenhamos falado?
CC – Nesta entrevista tenho revisitado todos os projetos em que estive ou estou ainda envolvido. O projeto Eu no musEu em Viseu tem um lugar especial na minha vida. O público-alvo deste projeto são indivíduos com défice cognitivo com espectro de alteração que varia desde o défice cognitivo ligeiro com manutenção da autonomia funcional, até à demência moderada. Nas sessões dinamizadas mensalmente por uma equipa interdisciplinar pretende-se, promover o bem-estar e a inclusão social mediante a fruição e (re) interpretação de obras de arte nos Museus. Citando Anne Basting “A arte é importante na vida de todas as pessoas. Constitui uma forma de pensar e experimentar o mundo, assim como uma forma de expressão pelo que, de algum modo, remete-nos para o valor intrínseco da arte em geral. O que me parece realmente assombroso é que as pessoas tenham assumido que isto não estava ao alcance das pessoas com demência.” O hortelão Estragão e o restaurador de obras de arte Vasco Maravilha foram duas personagens criadas por mim, para desconstruir as obras de arte patentes no museu, tornando-as acessíveis aos beneficiários deste projeto de inclusão pela arte. O projeto Vila Poesia em St. Cruz da Trapa também tem um cantinho reservado na minha vida.
PJ – Acredita que a sociedade dá a devida importância ao setor da cultura?
CC – Cada povo tem a sua cultura e uma identidade própria. A fruição das artes em geral tem um poder transformador único numa sociedade. A frequência de eventos culturais torna um povo mais feliz e com uma visão mais alargada do mundo. Infelizmente neste retângulo à beira mar plantado a cultura não é valorizada devidamente. Como poderíamos mudar a situação?
Em primeiro lugar com a formação de públicos, promovendo a criação de condições de cofinanciamento da cultura em Portugal; em segundo lugar cumprir o que se encontra consagrado na Constituição da República Portuguesa, considerar a cultura uma prioridade de qualquer Governo. Em terceiro financiar com 1% através do orçamento de estado as artes.
PJ – Para além de tudo o que já foi referido, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?
CC – Como não podia deixar de ser, nutro uma profunda paixão pela minha família, este meu percurso seria impossível sem o apoio incondicional dela. Cada pedra posta e sobreposta tem como alicerce principal a minha esposa, uma inspiração contínua, um incentivo incessante para realizar os meus sonhos e projetos. No reverso da medalha coloco outra paixão, o voluntariado, a ajuda desinteressada ao próximo, permitindo a mitigação dos infortúnios e injustiças.
PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
CC – A palavra adequada seria inquieto.
PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?
CC – Sê discreto, sê generoso, sê perseverante na defesa da justiça…. Ama incondicionalmente, faz o bem e não olhes a quem… Sem esperar retorno.
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Carlos Cruchinho! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA!
Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.
CC – “(…) a simplicidade é a essência da felicidade!”
14/04/2022

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