Entrevista a António Souto
Professor e escritor
“Gente Que Ousa Fazer”
• Paula Jorge
A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!

“A arte e a cultura têm um papel fundamental na qualidade de vida das populações. Elas são essenciais para o desenvolvimento do espírito crítico e do respeito pelas diferenças, para termos mentes abertas, inovadoras, comunicativas.”
Ficha Biográfica
Nome: António Souto
Idade: 50 anos
Onde vive: Castro Daire
Profissão: Professor
Livro: “Memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar
Música: “The show must go on”, Queen
Destino de sonho: a Felicidade
Personalidade que admira: o Papa Francisco
Muito obrigada, António Souto, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.
Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio. Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?
António Souto (AS) – Eu frequentei a escola em Castro Daire até à conclusão dos estudos liceais. Depois, por uma questão de proximidade, optei por prosseguir o ensino superior em Viseu, pelo que concorri à Universidade Católica. Aí concluí a licenciatura em Humanidades, que me deu uma sólida formação nas línguas clássicas, o latim e o grego, e na cultura greco-latina, que é a base da nossa cultura europeia. Seguindo a via do ensino, fiz o estágio profissional em Castro Daire e depois, como professor de Português, andei os primeiros anos por várias terras: Tarouca, Régua e Cinfães. Nesta última estive cerca de 20 anos. Guardo boas memórias do meu período em Cinfães. As pessoas são muito espontâneas e generosas. Deixei lá grandes amigos. Entretanto, também estive 8 anos no Agrupamento de Castro Daire. O facto de trabalhar na terra onde resido permitiu-me ter um pouco mais de tempo livre, dado que não perdia tempo com deslocações diárias de dezenas de quilómetros. Deste modo, pude concluir o meu mestrado na UTAD, em língua e literatura portuguesas, e depois entrar nesta aventura da escrita ficcional.
PJ – É uma pessoa muito ligada ao mundo literário. Pode falar-nos do seu percurso ao nível dos livros, enunciando todas as suas publicações e os momentos mais marcantes?
AS – O meu percurso no mundo literário começou há 30 anos, pois durante esse período sempre ensinei Literatura. Como escritor, é um percurso ainda relativamente recente, dado que se iniciou há apenas dois anos e pouco. Tenho duas obras publicadas, ambas na editora “Cordel D` Prata”. São elas “Também há Cores na Escuridão”, que saiu em 2021, e “O Sol na minha mão”, que foi lançado em setembro passado, na Feira do Livro de Lisboa. A ter que escolher um momento como especialmente marcante, optaria precisamente pelo dia do lançamento do meu novo livro. Pelo enquadramento, no maior evento literário do país, ao qual afluem meio milhão de pessoas, e sobretudo porque se reuniram à minha volta, no palco da Feira do Livro, onde fiz a apresentação, familiares, amigos e outros autores que muito estimo, alguns deles meus conterrâneos. Foi um dia muito especial. Mas, afinal, são sempre especiais os momentos em que somos abordados por um leitor e este nos diz que se reviu numa personagem ou que reviveu a sua infância através da leitura e isso o comoveu. Sentir que tocamos no coração de alguém é muito enternecedor.

PJ – Será possível perguntar a um escritor qual o livro que mais o marcou ao escrever? Se sim, qual e porquê?
AS – Costuma-se dizer que a pergunta mais ingrata que se pode fazer a um escritor é “qual das suas obras gosta mais?”. Os livros são como filhos, para o seu autor, pelo que este sempre dirá que gosta de todos por igual. A sua pergunta, no entanto, é diferente e muito mais interessante. Qual dos livros me marcou mais, enquanto os escrevia? Sem dúvida, o primeiro. Por dois motivos. Eu iniciei-o no Verão de 2020, numa fase pessoal e familiar muito complicada, dado que perdemos alguém que nos era muito próxima e querida. Talvez, de forma inconsciente, a escrita tenha constituído uma forma de evasão, uma escapatória à dor da perda. Talvez tenha sido um refúgio e um processo de cura interior. Aliás, o próprio título revela essa vontade de descobrir que “Também há Cores na Escuridão”. Por outro lado, com essa história eu procurei fazer uma homenagem à minha mãe. O início da narrativa inspira-se num episódio da sua vida. Tal como a protagonista do meu livro, a minha mãe também teve de abandonar a família e a aldeia, ainda criança, para ir trabalhar para uma família da cidade. Mas apenas as páginas iniciais se baseiam em facto reais, toda a restante intriga, a esse nível, é fruto da imaginação. Por estes motivos, dediquei esse livro às mulheres da minha vida.
PJ – Dê-nos a sua opinião sobre como é lançar um livro em Portugal, atualmente, referindo-se às dificuldades com que um escritor se depara.
AS – Não é nada fácil, conseguir lançar um livro em Portugal. A menos que se seja uma figura pública, cujo rosto é facilmente identificado pelo público em geral. Nesse caso, o sucesso editorial é garantido, independentemente do mérito da obra em si. Para quem está a começar, o processo de publicação é uma prova de obstáculos. Nos últimos anos, assistiu-se a uma grande concentração das editoras e estas ficaram quase todas a pertencer aos mesmos grandes grupos económicos. Ora estes têm como único objetivo a obtenção de lucros. Deste modo, não apostam em novos autores, tenham estes o mérito que tiverem, porque não lhes garantem, como é óbvio, o retorno do investimento. No caso de um autor desconhecido, a qualidade da sua obra nem chega a ser avaliada, é logo descartada. Como alternativa, o escritor tem de recorrer a uma pequena editora e isso sai caro, porque este tem de assegurar a aquisição de muitos exemplares por si mesmo. Como nem toda a gente tem disponibilidade financeira para o fazer, é provável que haja livros muito bons arrumados nas gavetas de quem os escreveu e que estes nunca venham a conhecer a luz do dia.
PJ – Acredita que a sociedade e as instituições que nos representam dão a devida importância ao setor da cultura?
AS – Eu penso que não. E basta observar como a percentagem do orçamento de Estado que se destina à cultura é tão irrisória. E isso é lamentável, porque a arte e a cultura têm um papel fundamental na qualidade de vida das populações. Elas são essenciais para o desenvolvimento do espírito crítico e do respeito pelas diferenças, para termos mentes abertas, inovadoras, comunicativas. Mas compreende-se que seja difícil dar prioridade à cultura, quando vemos tantos cidadãos que esperam anos por uma consulta de especialidade, quando tantas crianças e jovens não têm todos os professores, quando a pobreza está a aumentar no nosso país. Portugal, a nível europeu, apresenta um dos maiores índices de desigualdade social: mais de um quinto da população vive em situação de pobreza. E os mais afetados são as crianças e os mais velhos. Um em cada quatro idosos não tem dinheiro para aquecer a casa, porque ainda se pagam reformas de miséria. Podemos conviver bem com isto? O pior é que quem vive na pobreza está mais vulnerável a problemas de saúde e tem mais dificuldade em aceder a oportunidades de emprego, de formação e de cultura. E tudo isto são condicionantes que aumentam os riscos de desigualdade, estigmatização e exclusão social, gerando um ciclo vicioso. Sendo assim, enquanto os problemas prioritários forem os da sobrevivência, não admira que a cultura seja remetida para segundo plano.

PJ – Muitas histórias terá guardadas durante todo o seu percurso de vida. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais o marcou?
AS – Posso partilhar uma história que envolve a “Gazeta da Beira”. O meu pai é natural do concelho de São Pedro do Sul (os meus avós são de Goja, entre Vila Maior e a Cobertinha), embora tenha vindo ainda muito novo para Castro Daire. Como trabalhou durante muitos anos na antiga “Pensão Avenida”, da qual mais tarde veio a ser proprietário, fazia questão de assinar a “Gazeta da Beira” e a “Tribuna de Lafões”, jornais que punha à disposição dos clientes. Deste modo, estes periódicos regionais sempre me foram familiares, desde pequenino. Curiosamente, muitos anos mais tarde, em meados da década de noventa, por intermédio de um primo meu que trabalhou no jornal, eu iniciei um período de colaboração com a “Gazeta da Beira”. O meu contributo consistia na redação de crónicas de crítica literária, onde eu deixava sugestões de leitura. Recordo-me distintamente de ter, entre outras, abordado obras como “Eugénia e Silvina”, de Agustina Bessa Luís, e “Ensaio sobre a Cegueira”, ainda o nosso Saramago não tinha recebido o Nobel. Foi uma colaboração muito frutuosa, que durou largos meses. A minha única mágoa, no presente, é a de não ter conservado nenhum exemplar dessas publicações, relíquias de há trinta anos!
PJ – Quer falar-nos de alguns projetos em que esteja envolvido e que ainda não tenhamos falado?
AS – De momento, estou empenhado na consecução de dois projetos, um a curto prazo e outro a médio/longo prazo. O primeiro é a apresentação de “O Sol na minha mão” em Castro Daire, na Biblioteca Municipal. Será já no próximo sábado, dia 26. Estamos a preparar uma tarde cultural, em conjunto com a Dr.ª Marta Carvalhal, que lidera a equipa da biblioteca. Teremos declamação de poemas, música e, naturalmente, a apresentação do livro propriamente dito. Serão minhas convidadas a professora Celeste Almeida, nome ilustre e que dispensa mais apresentações, e Ana Lúcia Loureiro, outra autora local e estudiosa de literatura. O segundo projeto que me entusiasma é o da conclusão do meu terceiro romance. Trata-se da obra mais desafiante que tive até ao momento e também aquela que mais tempo me tem ocupado. Está praticamente concluída, mas ainda é cedo para adiantar pormenores. Espero que venha a ter o mesmo acolhimento que os seus predecessores, que têm tido críticas muito boas. Se tudo correr bem, sairá aproximadamente no final de 2023.
PJ – Para além de tudo o que já foi referido, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?
AS – De tudo o que já foi dito, penso que ficou clara a minha paixão pela escrita ficcional. Mas a literatura é um campo aberto que conflui com a Psicologia, a Filosofia, a História, e todas essas matérias são apaixonantes. Contudo, se há um aspeto que caracteriza as minhas obras, em interligação com a criatividade, é a paixão pela História. Tudo o que escrevo tem, na sua base, um prolongado trabalho de investigação. A título de exemplo, para escrever “O Sol na minha mão”, tive de pesquisar informação sobre um período histórico preciso, a Guerra Civil Espanhola, de 1936 a 1939. Na investigação sobre o impacto desse conflito em Portugal, pude comprovar a cumplicidade quase criminosa entre os regimes fascistas de Franco e Salazar e descobri, por exemplo, que existiram campos de concentração de refugiados no Alentejo. E que tivemos um herói quase desconhecido, uma espécie de Oskar Schindler ou de Aristides da Sousa Mendes, chamado António Augusto Seixas. “O Sol na minha mão” mostra o lado cruel da guerra, mas também o humanismo e a solidariedade do nosso povo. É por isso que me apaixonam estas pesquisas, porque se descobrem histórias fantásticas. Em suma, a imaginação, a reflexão sobre experiências de vida e o conhecimento histórico são os pilares em que assento os meus livros.
PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
AS – Eu costumo descrever-me simplesmente como “trabalhador”. Em primeiro lugar, porque a inspiração, seja ela muita ou pouca, dá sempre muito trabalho. Mesmo que este se faça por gosto, a verdade é que só com abnegação e dedicação se conseguem criar as condições necessárias para escrever e criar. E, depois, também me defino como “trabalhador” para contrariar uma certa desvalorização deste termo, por parte da sociedade. Repare como, por exemplo, as empresas substituíram esta palavra por outra: “colaborador”. As palavras não são sinónimas e há um propósito que subjaz à substituição. “Trabalhador” remete para uma linguagem mais “sindicalista”, mais reivindicativa. Ao excluírem o termo, os detentores do poder económico estão a desvalorizar o papel dos sindicatos e da reivindicação, o que lhes dá imenso jeito. Mas, para mim, todos os trabalhos são dignos e importantes, do médico que está no hospital ao varredor que limpa as ruas. Mas importa que se diga que são trabalhos, feitos por trabalhadores. Na minha ótica, “colaborar” é ajudar o outro, de livre vontade, estando no mesmo plano que ele, sem pedir nada em troca. Enfim, as palavras têm importância.
PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?
AS – O meu coração mostra-se agradecido por este convite e por esta oportunidade de divulgar o meu trabalho. Mas é também um coração que olha à sua volta e que fica, muitas vezes, angustiado com o que vê. Na sociedade moderna, há uma grande pressão para as pessoas alcançarem a felicidade. Torna-se o principal objetivo de vida, um imperativo. Mas a procura da felicidade não pode ser um objetivo egoísta, algo que eu obtenho só para mim mesmo. Nós somos nós e as circunstâncias que nos rodeiam. Quando vemos que o mundo está em convulsão, não podemos ficar indiferentes ou insensíveis ao sofrimento alheio. Eu penso que é por isso que, em períodos de crise, os problemas de saúde mental aumentam. Em Portugal, há uma elevada prevalência de doenças psiquiátricas. Segundo os especialistas, um em cada quatro portugueses sofre de problemas deste tipo. E desde a pandemia os casos de depressão e ansiedade têm aumentado, particularmente entre os jovens, um dos grupos mais severamente afetado por aqueles dois anos tão duros. E agora a guerra, que continua a ser alimentada com tanta sanha, por todas as partes. É um desafio muito complexo, ser-se feliz neste contexto.
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, António Souto! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.
AS – A minha mensagem é muito simples: leiam. Leiam, por exemplo, a imprensa regional, que precisa tanto de apoio. Muitas vezes, pensamos na leitura como algo que se faz por prazer, para distração, nos tempos livres. Mas ela é muito mais do que isso: é fonte de aprendizagem e de desenvolvimento pessoal. É muito importante que estimem os livros, que os valorizem. Requisitem-nos nas bibliotecas, ofereçam-nos a familiares e amigos (por exemplo, nesta época de Natal que se avizinha). Há livros para todas as idades, de todos os tipos, tamanhos e feitios. Eu acredito que a leitura pode melhorar as nossas vidas, desde logo porque tem essa capacidade de nos levar mais além, de nos mostrar que há mais vida e mais mundo para lá dos muros que cercam cada uma das nossas vidas. Por isso, leiam!
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