Entrevista a António Nazaré de Oliveira
Professor do Ensino Secundário aposentado
“Fui professor durante 40 anos. Se o tempo voltasse atrás e eu tivesse de escolher a profissão, eu escolheria de novo: SER PROFESSOR!”

• Paula Jorge
A rubrica Gente que Ousa Fazer será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!
Ficha Biográfica
Nome: António Nazaré de Oliveira
Idade: 92 anos
Profissão: Professor do Ensino Secundário Aposentado
Livro preferido: Li tantos que me é difícil escolher. Agora, prefiro ler os escritos
das minhas duas filhas.
Destino de sonho: Já não tenho sonhos dessa natureza. É tarde para isso.
Personalidade que mais admira: Minha Mulher e meus Pais, pelo muito que me deram.
Muito obrigada, Dr. Nazaré de Oliveira, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica Gente Que Ousa Fazer.
Paula Jorge (PJ) — Comecemos pelo princípio. Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?
Nazaré Oliveira (NO) — Acabada a Escola Primária, entrei na Conservatória do Registo Predial, como praticante, enquanto me preparava para o exame de admissão ao Liceu. Depois, fui como aluno interno para o Colégio da Via Sacra, em Viseu, até ao 6º ano.
Voltei a São Pedro do Sul e passei transitoriamente pela Tesouraria da Câmara e pela Secretaria Judicial, onde travei conhecimento com o Dr. Abílio Tavares que começou a incitar-me para que prosseguisse os estudos, matriculando-me na Universidade como aluno voluntário, tanto mais que tinha classificações que dispensavam do Exame da Aptidão à Universidade. Matriculei-me no curso de Histórico-Filosóficas. Estudava em casa e deslocava-me periodicamente a Coimbra para exames de frequência e finais. Não era fácil. Para os voluntários a exigência era maior, com exames escritos e orais obrigatórios. Os livros eram caros e difíceis de obter, alguns escritos em línguas estrangeiras e não havia computadores nem fotocópias. Em São Pedro do Sul, fui o primeiro a fazer um curso superior como voluntário. Sentia que isso causava estranheza a algumas pessoas. Como é que este tipo anda na Universidade, se não sai daqui! Como eu, muitos o faziam. Tinha eu concluído o 22 ano, quando me convidaram para trabalhar no Colégio de S. Tomás de Aquino recentemente criado. Sem deixar de ser estudante, passei também a ser professor. Daí em diante, os meus percursos académico e profissional misturaram-se. Com o fim do curso a aproximar-se, era preciso escolher o tema para a dissertação de licenciatura. Não pensei muito. Só podia ser “Lafões”. E foi assim que eu mergulhei no passado da nossa região. Calcorreei os trilhos dos montes, fiz pesquisas em bibliotecas e arquivos, nomeadamente na Torre do Tombo, onde me ajudou o conterrâneo Carlos Matias, então a cursar Direito. E resultou a minha dissertação de licenciatura LAFÕES, SUBSÍDIOS PARA A SUA HISTÓRIA que bastante contribuiu para a boa classificação final que obtive.
E aqui acabou a minha vida de estudante, que não a de estudioso das coisas de História, especialmente da Região de Lafões.
No Colégio de S. Tomás de Aquino, trabalhei os primeiros quatro anos da minha carreira profissional. Ali aprendi a ser professor e muito mais. Eu não era somente professor. Excluindo a parte directiva e a docência dos outros professores, toda a vida do Colégio decorria pelas minhas mãos: relações com o Liceu, com a Inspecção do Ensino Particular, secretaria, contabilidade e tudo o mais. Além de um contínuo, não havia outro funcionário. A minha permanência era constante: eu abria e fechava o Colégio cuja criação foi ura marco na história de São Pedro do Sul e a minha passagem por lá um marco na história da minha vida.
Em 1956, o Colégio de São Pedro do Sul resolveu abrir um colégio em Viseu. O Dr. Sales era Presidente da Câmara e o Cónego Isidro, pároco da freguesia. Não podiam deslocar-se para Viseu. Precisavam de alguém para o novo Colégio. Entenderam que eu era a pessoa indicada. Ofereceram-me sociedade. Era uma prova de fogo. Arrisquei. Tinha concluído o curso e casado nesse ano. O Dr. Silvestre, recém-licenciado em Salamanca, substituiu-me como professor em São Pedro do Sul e eu vi-me transplantado para Viseu e, com a verdura dos meus 27 anos, com o encargo de montar e dirigir o Colégio de Santo Agostinho, com externato e internato. O Dr. Sales apenas lá ia de fugida leccionar as aulas de História. Em breve atingimos 200 alunos. Metade eram internos. Era o mais frequentado da cidade. Residi no Colégio e dirigi-o durante 10 anos: Ali fui tudo: director, professor, vigilante e orientador dos salões de estudo, ecónomo, contabilista… Ao cabo desse tempo, desfiz-me da minha posição. Minha mulher e minhas duas filhas, no Colégio nascidas, também estavam a precisar de outra privacidade e mais assistência da minha parte. Montei casa e passei a trabalhar isoladamente como explicador de Filosofia. Alunos nunca me faltaram. Em minha casa, tinha uma ampla e bem montada sala, onde leccionava vários turnos por dia, um deles nocturno e para adultos, onde predominavam professores do ensino primário que queriam fazer o 7º ano. E foram mais 10 anos.
Em 1971, sem deixar de residir era Viseu, voltei profissionalmente à minha terra, para montar e dirigir a Escola Preparatória então criada. Cumprida esta missão, preparei-me para outro rumo. Após 24 anos de ensino particular, ingressei no ensino oficial como professor efectivo da Escola Secundária Emídio Navarro, onde leccionei 16 anos, até me aposentar, em 1992. Pouco tempo depois, o Secretário de Estado dos Recursos Educativos publicava no Diário da República, II Série, um louvor “pela elevada formação científica e pedagógica, permanente disponibilidade, excelente relacionamento humano, total empenho e elevadíssima competência profissional”. Mas eu sabia que alguma coisa faltava. Aproximava-se a data da Comemoração do Centenário da criação da Escola. A sua história estava por escrever. Propus-me fazê-lo. Vasculhei arquivos, li centenas de actas, mais de um milhar de ofícios, contas de gerência, diplomas oficiais, papelada de 100 anos. Articulei os dados e dei à estampa o livro DA ESCOLA DE DESENHO INDUSTRIAL DE VISEU À ESCOLA SECUNDÁRIA. DE EMÍDIO NAVARRO (1898-1998) e abri com o soneto que fiz para os Jogos Florais do Centenário e foi 1º prémio:
Quando o passado século declinava,
Nasceu, frutificou, ganhou raiz;
No decorrer do tempo que passava,
Da arte de ensinar se fez matriz.
Formou para a vida muitas gerações,
P’ra tantos foi de luz uma alvorada;
Sem renegar as suas tradições,
É Escola actual e renovada.
Aqueles que nos deixaram são saudade,
Os de hoje e os de amanhã, continuidade;
Depois de tantos anos decorridos,
Quem teve a honra de por ti passar
Bem pode com orgulho proclamar:
Escola! Cem anos estão cumpridos!
Fui professor durante 40 anos. Se o tempo voltasse atrás e eu tivesse de escolher a profissão, eu escolheria de novo: SER PROFESSOR!
Paralelamente à actividade docente, dediquei-me à investigação histórica e à escrita. Na imprensa regional, nas revistas Beira Alta, Milénio (Inst.Politécnico), Revista Portuguesa de História do Livro, neste caso a convite do Director, que muito me honrou, pela categoria da revista e qualidade dos colaboradores, na maioria Professores de Universidades europeias (Paris, Sorbonne, Barcelona); ali deixei um trabalho sobre um tema de Lafões: “SOBRE A NATURALIDADE DE DUARTE DE ALMEIDA; 0 DECEPADO DE TORO”. Após a aposentação, intensifiquei a investigação e publiquei alguns livros: em 1996, A RAINHA D. AMÉLIA EM SÃO PEDRO DO SUL, editado pela Câmara Municipal da presidência do Dr. Bandeira Pinho e prefaciado pelo Prof. Doutor Carvalho Homem que o apresentou em sessão do centenário da presença da Rainha; a LENDA DE SÃO MACÁRIO, cujos direitos de autor cedi à Fábrica da Igreja de S. Martinho das Moitas, que já fez várias edições e o vende no dia da festa; em 2002, TERMAS DE SÃO PEDRO DO SUL (ANTIGAS CALDAS DE LAFÕES), com o patrocínio da Câmara Municipal da presidência do Dr. António Carlos Figueiredo; foi apresentado no dia do Município, em sessão solene comemorativa dos 850 anos da criação do Concelho do Banho, o mais antigo de Lafões; foi-me atribuída a Medalha do Município. “PARA A HISTÓRIA DA ASSISTÊNCIA NO DISTRITO DE VISEU, ANTES DAS MISERICÓRDIAS”, na comemoraçao dos 500 anos. Neste trabalho, Lafões ocupa lugar de destaque, com a Albergaria de Reigoso, a Gafaria do Banho e o Hospital Real das Caldas de Lafões. Na Revista Beira Alta publiquei monografias sobre as freguesias de Baiões, Bordonhos e Vila Maior. Pena que não tenha tido tempo para as restantes freguesias, embora sobre elas e algumas dos concelhos de Vouzela e Oliveira de Frades tenha deixado muitos artigos na imprensa regional. Em 2004, foi-me atribuído o PRÉMIO ANIM’ARTE INVESTIGAÇÃO.


PJ – A sua vida foi uma entrega total ao ensino, desde professor e Director. Como se descreve nesta faceta de Educador ao longo do seu percurso?
NO – Sendo professor, tinha de ser um educador. Mas onde eu me senti mais plenamente educador foi durante os 10 anos em que estive a residir e dirigir o Colégio de Santo Agostinho que, além dos alunos externos, tinha uma centena de internos pelos quais eu era responsável. Grande parte tinha os pais nas então chamadas províncias ultramarinas: recordo o aluno Fradique Meneses que veio a ser Presidente da República de São Tomé; o Orlando, que veio aos 20 anos, para estudar no Colégio e jogar futebol no Académico de Viseu; manifestou desejos de ser baptizado, preparámo-lo e fui padrinho de baptismo; morreu de desastre rodoviário quando estava indigitado para Ministro da Educação da Guiné; e três irmãos nascidos no Brasil, filhos de um lafonense magnate industrial na Amazónia, e estiveram comigo seis anos..E tantos outros… Tenho a consciência de que bastante contribuí para a sua formação assente nos valores fundamentais, especialmente honestidade e respeito pelos outros. E evidente que não trabalhei sozinho. Valeu-me o precioso auxílio de minha mulher e a colaboração dos Prefeitos, geralmente antigos seminaristas que admitíamos no internato em troca de prestação de alguns serviços como vigilância dos salões de estudo, camaratas, recreios. Aproveito para enviar um abraço ao Dr. Alexandrino Matos que foi um desses Prefeitos, meu antigo aluno e colaborador, e faz hoje parte do corpo redatorial da Gazeta.
PJ – Como olha e qual a sua perspetiva sobre o ensino, atualmente, em Portugal?
NO – É-me difícil responder a esta questão, porque estou fora do contacto directo com o ensino actual, o que me priva de um conhecimento que me permita uma resposta bem fundamentada. Do ensino do passado sabia eu, porque estive lá como professor e como membro dirigente de uma Comissão de Pais e Encarregados de Educação cujos estatutos ajudei a redigir. Agora, só sei do que ouço ou leio nos órgãos de comunicação, tão controversos e, às vezes, até contraditórios. Tão pouco caio no erro de estabelecer comparações valorativas. São realidades incomparáveis: outros tempos, outros problemas que exigem novas respostas, novas metodologias, novos instrumentos. De uma coisa não tenho dúvidas: os Professores são as chaves-mestras do ensino.
Centenário da Escola Emídio Navarro em Viseu
PJ – Muitas histórias terá guardado no seu vasto currículo enquanto professor. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais o marcou?
NO – Duas apenas. Nos meus primeiros tempos, leccionei Português do 1º Ciclo. Mandei fazer uma redacção subordinada ao título “Como passei as minhas férias do Natal”. Acabadas as férias, li as redacções. Eram todas semelhantes, excepto a do Domingos, o Capitão que ainda vive nas Termas. Dizia ele: “Eu passei as minhas férias do Natal muito chateado, porque estive doente”. E nada mais! Outra estória passada no internato: um dia, um aluno recentemente chegado de um meio rural adoeceu, veio o médico. Receitou-lhe supositórios. Aviada a receita, o aluno perguntou à minha mulher como se tomava o supositório, se o podia partir, para o engolir melhor. Só não rimos, porque ficámos tristes com o estado de atraso em que nos chegavam alguns alunos. Respeitámos a privacidade do aluno e nunca contámos o episódio. Fazia parte da missão educativa.
PJ – É um exaustivo colaborador da Gazeta da Beira, sem nunca falhar, ao longo de tantos anos, com as mais interessantes crónicas. Quer falar-nos desta missão?
NO – A idade e problemas de saúde obrigaram-me a deixar a investigação, que implicava deslocações a bibliotecas e arquivos. Mas eu não queria deixar de escrever. Então, voltei-me para os arquivos da memória. Desde Junho de 2017, venho publicando em todos os números da Gazeta um conjunto de crónicas com o título genérico de Coisas e Gente da Minha Terra. Em breve, ao cabo de cinco anos, atingirei a centena. Com elas, tenho pretendido ajudar as gerações mais velhas a recordar e as mais novas a conhecer um pouco de São Pedro do Sul de finais dos anos 30, anos 40 e primeira metade dos anos 50. Nas minhas crónicas, tenho recordado acontecimentos, episódios, perfis de figuras típicas, ambientes, hábitos, costumes e muito do que caracterizou um espaço físico e social em que nós, os nossos pais, os nossos avó fomos participantes. Vivências do passado das nossas Gentes!
Centenário da Escola Emídio Navarro em Viseu
PJ – O Dr. Nazaré de Oliveira é um marco na região de Viseu Dão Lafões, aos mais diversos níveis. Quer pronunciar-se sobre o seu apreço e por tudo quanto fez e continua a fazer por estas terras?
NO – O que disse na pergunta sobre o meu percurso académico e profissional responde cabalmente a esta questão. Em 1956, com 27 anos, deixei a minha terra, por razões profissionais. Mas a ela fiquei sempre ligado por laços familiares, amizades e através da investigação e da escrita. A Região de Lafões tem sido sempre o centro dos meus interesses. E as minhas crónicas são disso testemunho. Tenho pena de que elas não fiquem publicadas em livro. A Palimage Editores, que em 2002 publicou o meu livro Termas de São Pedro do Sul (Antigas Caldas de Lafões), por iniciativa e patrocínio da Câmara Municipal, propunha-se fazer a publicação das crónicas, se houvesse um patrocínio. Só que as circunstâncias mudaram e a pandemia tornou tudo mais difícil.
PJ – Para além das múltiplas funções que exerceu e ainda exerce, que outras paixões nutre que o completam enquanto pessoa?
NO – Posso considerar paixão o meu gosto pela leitura, essencial para a escrita. O resto são gostos. Gosto de uma boa prosa e de poesia, principalmente de autores portugueses; gosta de música e a minha música preferida é a Pedra Filosofal, fusão de poesia, filosofia e música; gosto de arte, especialmente dos clássicos do Renascimento: gosto de alguns programas de televisão, nomeadamente da TV Memória. É o meu pendor histórico. Actualmente, a minha actividade é essencialmente mental: leio, penso e escrevo.
Lançamento do livro das Termas na Câmara de São Pedro do Sul
PJ – Apenas numa palavra pode descrever-se?
NO – Em duas: Trabalhador Honesto.
PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?
NO – Que só não me sinto completamente realizado, porque a realização plena nunca é possível. Há sempre muito que fica por fazer. A vida é complexa e demasiado curta para se fazer — e sobretudo fazer bem — tudo o que se pretendia. Fico sempre admirado quando, em entrevistas, vejo e ouço, até figuras públicas, a dizerem que não se arrependem de nada do que fizeram e voltariam a fazer tudo na mesma. É uma afirmação pretensiosa e insensata. Eu fiz coisas mal que não voltaria a fazer; coisas bem que repetiria; e outras que faria de maneira diferente, mas sempre para melhor. Errar é próprio da natureza humana e a primeira condição para corrigir os erros é reconhecê-los.
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Dr. Nazaré de Oliveira! Desejo-lhe um feliz ano novo, a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.
NO – À GAZETA DA BEIRA e a todos os seus leitores, a minha saudação. Para os que me leram, alguns dos quais fizeram chegar até mim o testemunho do se apreço pelo que escrevo, entre os quais muitos dos meus antigos alunos sampedrenses e alguns amigos de infância e juventude, um saudoso abraço. Agora que o convívio físico é praticamente impossível, tem sido para mim um prazer este convívio sentimental através do pensamento e da escrita. Enquanto puder, continuá-lo-ei!

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