Entrevista a António Martins
Diretor do Agrupamento de Escolas de Santa Cruz da Trapa

A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!
• Paula Jorge
Ficha Biográfica
Nome: António Luís Silva Martins
Idade: 47
Profissão: Professor
Livro preferido: Equador de Miguel Sousa Tavares (de quem os professores tanto gostam (risos…)
Destino de sonho: Nepal e Tibete
Personalidade que admira: Nelson Mandela, o carismático “construtor de pontes”, o líder natural…
Muito obrigada, António Martins, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.
Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio.
Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?
António Luís Silva Martins (AM) – Bem… não frequentei o jardim de infância, pois não havia essa oferta na minha aldeia. A minha mãe pediu a uma professora vizinha para eu ir com umas primas minhas para a escola, que distava 2km da minha casa, quando ainda tinha cinco anos. Terá correspondido à minha educação pré-escolar… fiz a, então, escola primária nessa escola. De entre muitas recordações, muitas traquinices, lembro o meu terceiro ano em que tive o prémio de melhor aluno (modéstia à parte) (Risos). Eramos só 21 (risos). Uma senhora da aldeia, ofereceu um prémio monetário para o melhor aluno de cada ano. A mim couberam-me 1500$00. Deduzo que os prémios terão sido de 500, 1000, 1500 e 2000 escudos para cada ano de escolaridade. Coisas que nunca se esquecem…
Fiz toda a minha escolaridade em Tábua até ir estudar para Lisboa, no Instituto Superior de Ciências Educativas, no curso de Professores do ensino Básico 2.º ciclo na variante de Educação Física. Lecionei ainda enquanto estudante, no ultimo ano do curso, na Ericeira, depois passei por Arganil (ao lado de Casa) Sátão, Cinfães, Tábua, Tondela, Albergaria a Velha e santa Cruz da Trapa. Já lá deverão ir uns 25 ou 26 anitos de tempo de serviço.
Como se passa com todos, há pequenas decisões ou acontecimentos na nossa vida que mudam o futuro todo. Foi assim, quando tive uma aluna com Necessidades Educativas numa turma minha, a qual fez com que eu sentisse necessidade de saber mais e por isso quis fazer um curso de especialização em Educação especial. Na hora da candidatura coloquei como primeira opção esse curso e como segunda a especialização em administração escolar. Não entrei na primeira opção e não era minha vontade matricular-me na segunda. Cruzei-me na universidade com a coordenadora do curso que me fez sentir que seria uma oportunidade perdida não efetuar a matrícula. Confesso que a ideia foi ir fazendo o curso e ver se me identificaria com os conteúdos de uma área que não me dizia nada. Efetivamente, foi em boa hora que me matriculei, tendo concluído a especialização. Pode dizer-se que aquela professora (viria a ser mais tarde diretora regional de educação do Centro) foi a culpada de eu estar nas funções em que estou há doze anos. Alguns anos depois fiz a especialização em educação especial o que fez com que efetivasse nesse grupo de recrutamento no agrupamento de Santa Cruz da Trapa. Entretanto, frequentei o mestrado em administração escolar na universidade de Aveiro, ficando por concluir. A disponibilidade não permitiu. Talvez daqui a quatro anos, quando ficar liberto destas funções…

PJ – Está há alguns anos no “comando” do Agrupamento de Escolas de Santa Cruz da Trapa e recentemente ganhou outro mandato, juntamente com a sua equipa. Fale-nos desta missão que tem abraçado.
AM – Efetivamente tive agora a recondução no cargo de diretor para um 4.º mandato. Se tudo correr bem, serão os derradeiros 4 anos de um ciclo de 16, durante os quais se dará continuidade ao rumo do AESCT, com base num projeto de sucesso, reconhecido pelo escrutínio constante, quer da tutela, quer da comunidade educativa. Tenho que realçar que o segredo do sucesso alcançado por esta direcção e pelo AESCT no geral, resulta de um verdadeiro trabalho de equipa, em que uns se completam aos outros, numa gestão partilhada, de muita proximidade, procurando envolver toda a comunidade, sem perder de vista que só com o contributo de todos é que conseguimos uma verdadeira comunidade em que todos concorrem para o êxito dos alunos, o que será, sem dúvida, a base de uma sociedade melhor.
PJ – O Agrupamento de Escolas de Santa Cruz da Trapa é uma Escola TEIP. O que é que isto significa em concreto?
AM – Bem… A sigla TEIP quer dizer Territórios Educativos de Intervenção Prioritária. Ora, a intervenção prioritária surgiu porque houve algo que justificou essa essa intervenção por parte do ministério da educação. Embora desconheça em concreto o que esteve na origem deste reconhecimento, pois ainda não estava nas funções de diretor, relaciono-o com o facto de o AESCT ter tido muito maus resultados nos exames do 9.º ano nos idos anos de 2007 ou 2008, criando um enorme desfasamento entre as avaliações internas e a obtida nesses exames. Depois o facto da interioridade, o afastamento dos alunos dos grandes centros e a consequente privação de experiencias culturais a par da prevalência de famílias com grandes dificuldades económicas e as dificuldades de aprendizagem inerentes a estas circunstâncias também tiveram a sua influência. O AESCT enquanto TEIP iniciou com a minha entrada nas funções de diretor, em 2009. Foi muito complicado combater o estigma que estava associado ao nome TEIP, até começarmos a ver os frutos de tal diferenciação. Com a assinatura do contrato TEIP, foram-nos dados muitos recursos, inexistentes nas escolas da nossa região. Recursos que foram desde horas de professores assessores nas disciplinas de matemática, português, inglês e 1.º CEB, até uma psicóloga, uma terapeuta da fala e uma animadora sociocultural. Mas, como ninguém dá nada sem retorno, no contrato assinado com o ministério da educação assumimos muitos compromissos, muitos objetivos, em troco dos recursos, sob pena de os perdermos. É assim que ao longo destes 12 anos, aumentando os níveis de exigência, ano após ano, temos alcançado os objetivos propostos, sempre reconhecendo que isso só se tem conseguido com o trabalho de todos.
PJ – Sendo o seu Agrupamento uma Escola sempre em movimento, qual a interação que estabelece com a comunidade local?
AM – Olha, a “escola em movimento” surgiu nas minhas partilhas no Facebook e reflete, de facto, o que se passa na nossa escola. É uma escola sempre a mexer. Costumo dizer que ainda os projetos vêm no ar e já nós os estamos a apanhar. Não nos passa um ao largo. Sempre para benefício dos alunos, da escola e da comunidade, ainda que com muito acréscimo de trabalho para todos. Com muito trabalho. A comunidade tem estado sempre envolvida, numa colaboração que vai muito além da mera participação institucional nos órgãos em que tem assento. Temos as melhores relações com a autarquia, quer com o município, ou com as Juntas de Freguesia, principalmente a de Santa Cruz da Trapa, com a qual, naturalmente, mais contactamos. É aquela a quem mais pedinchamos… (risos). E somos atendidos. Por outro lado, a porta do meu gabinete está sempre aberta. Os pais sabem a nossa disponibilidade para ouvir os seus anseios, as suas sugestões… as suas críticas também… O AESCT sempre acolheu propostas de atividades da comunidade, vindas da autarquia, de coletividades ou instituições locais, como propor e realizar atividades em parceria com essas mesmas organizações e com as famílias. É com frequência que os nossos técnicos propõem à comunidade ações de sensibilização sobre as mais diversas temáticas. Lembro-me, recentemente, de uma atividade realizada em estreita colaboração com o nosso Educador Social (colocado através de mais um projeto ao qual concorremos em plenas férias no mês de agosto) em que foi dada formação informática a cerca de 40 pais que constituíram três turmas com aulas dadas por alunos, aos sábados de manhã. Sim, alunos a ensinar outros pais, que não os seus, a lidar com os meios informáticos. Iniciámos, este ano letivo, um projeto que visa trazer para dentro das aulas elementos da comunidade para que, de forma organizada, e, seguindo algumas regras, possam colaborar. Por causa de todas as limitações, através de sessões de videoconferência, tivemos situações de partilha e discussão, através de tertúlias entre alunos, familiares e outros elementos da comunidade que se constituíram como momentos extremamente enriquecedores, através dos quais os alunos tantas vezes nos surpreendem.
Ciclicamente, no âmbito do trabalho do nosso observatório da qualidade, são passados questionários anónimos aos nossos parceiros, no fundo, a quem de fora da escola, de alguma forma, se relaciona connosco. Foi extremamente gratificante constatar os resultados globais revelados, mas, acima de tudo, as frases elogiosas que foram escritas para caracterizar o AESCT e que, naturalmente, constarão no nosso relatório anual de auto-avaliação e melhoria. Ficamos de coração cheio.
Se fossemos a falar do nosso trabalho e da nossa abertura à comunidade, teríamos aqui pano para mangas… afinal, somos um território educativo. Um verdadeiro território educativo constituído por todos!
PJ – Como é que o Agrupamento de Escolas de Santa Cruz da Trapa lidou e continua a lidar com a epidemia mundial corona vírus/covid-19?
AM – Tivemos que nos organizar, levando tudo muito a sério, procurando, com o forte envolvimento da saúde e com a proximidade da Associação de Pais criar as condições para que todos estivessem e se sentissem com a máxima segurança. Procurámos sempre manter os pais informados de tudo. Lembro que iniciámos, este ano letivo, comigo em diálogo com todos os encarregados de educação do agrupamento, tentando esclarecer, acima de tudo, partilhando a nossa estratégia organizativa para enfrentar o ano com a máxima segurança. Senti que, com esta semana de reuniões com os pais de todas as turmas e os respetivos professores, todos ficaram muito mais confiantes, reconhecendo a escola como um local dos mais seguros. Com um esforço de todos que foi desde alterações de horários das aulas e a consequente alteração dos horários dos transportes, até à criação de zonas próprias para cada grupo de alunos a que chamámos “bolhas”, passando por corredores diferenciados de circulação… enfim…
Depois foi o ensino à distância e essa reinvenção de ensinar e aprender de tão difícil compreensão por todos. Numa primeira fase, muita falta de computadores, falta de ligações à internet, alunos sem autonomia para ter aulas à distância… foi com um esforço colossal de todos que se conseguiu, neste ano letivo, que todos os alunos do AESCT, desde a educação pré-escolar até ao nono ano, tivessem um efetivo ensino a distância. Com empréstimo, aos alunos, de computadores da escola e outros do município, todos conseguiram participar. Note-se que houve, porém, 18 alunos que, ou porque não tinham condições de autonomia, ou por falta de sinal de internet nas suas aldeias, se deslocaram diariamente para a escola, em transportes do município, para aí participarem em aulas à distância, dadas por professores que estavam em casa, mas com acompanhamento presencial de docentes, técnicos e assistentes. Enfim… através das várias auscultações efetuadas a alunos e a professores e de algumas reuniões da direção com encarregados de educação fomos conseguindo fazer os ajustes necessários para que todos sentissem que, apesar de tudo e sabendo que este tipo de ensino nunca pode substituir o presencial, conseguimos dar continuidade ao processo de ensino/aprendizagem, garantindo que todos os alunos continuassem a ter acesso à educação. Sublinho “Todos os alunos”.
PJ – Qual a sua perspetiva sobre o estado do ensino em Portugal?
AM – A escola, ao longo dos tempos, tem vindo a sofrer alterações através de reformas ou pseudo reformas implementadas quase sempre ao sabor das tendências governantes vigentes. Contudo, eu diria que ao longo dos últimos seis anos se têm vivido fortes alterações, tantas vezes pouco consensuais no seio da comunidade de docentes. Tivemos uma mudança de paradigma com a introdução de conceitos como “perfil do aluno à saída da Escolaridade Obrigatória” e “aprendizagens essenciais”, com a valorização de áreas de estudo até então consideradas como “menores”, às quais não era dada tanta relevância, como as artes ou a educação física, culminando num diploma saído recentemente em que são abolidos os programas das disciplinas. Agora já nenhum professor diz que não conseguiu dar o programa todo. (risos). Assiste-se a uma vontade clara de alterar a estrutura da escola, que se mantém, em muitos casos, estruturalmente organizada como há 100 anos atrás, com o professor a debitar informação para os alunos que estão numa sala todos alinhados de forma passiva a escutar em silêncio. Também ao nível da avaliação estas alterações têm reflexos, com a necessária valorização de instrumentos que não só os clássicos testes escritos, reconhecendo, neste aspeto, que ainda há um percurso muito grande a percorrer com muitas dúvidas por clarificar quando pensamos no atual sistema de ingresso no ensino superior e a sobrevalorização de um exame, descurando tantas aprendizagens que não conseguem ser avaliadas num simples exame e que, efetivamente, constituíram aprendizagens para os alunos.
Apesar de nem sempre com sucesso, fica-nos a ideia de que estas alterações estão bem pensadas no sentido da inclusão de todos os alunos, valorizando aprendizagens que não só as meramente académicas. São paradigmas que se vão trabalhando e aos poucos vamos pensando a escola de uma forma diferente, uma escola que facilite a adaptação dos alunos a uma sociedade em mudança tão acelerada como nunca se viu.

PJ – O António Martins é um praticante de desporto, mais concretamente no atletismo. Como começou este gosto, qual a regularidade dos seus treinos e que tipo de provas disputa?
AM – Ah ah ah Atleta… quem ouvir até diz que é verdade… como disse, a minha formação inicial é de Educação Física. Logo por aí… mas, ainda antes de ir para o ensino superior fazia umas corriditas… joguei futebol, mas rapidamente cheguei à conclusão de que a bola me atrapalhava imenso…(risos) há cerca de 6 anos começou a estar na moda a corrida de rua, com o aparecimento de muitos grupos informais de corrida. Foi nesse contexto que iniciei a correr mais assiduamente integrado no grupo “correr Viseu”. Até ao aparecimento da pandemia era quase matemático, às quartas e sextas fazer os 10Km da praxe com o grupo, pelas ruas de Viseu. Participei em muitas provas, o que é diferente de disputar muitas provas, com o objetivo único de terminar. Terminei sempre! Provas de 10 kms, muitas meias maratonas, uma maratona, alguns trails, enfim… bons momentos… agora quase não corro. Então nesta fase do ano com trabalho todos os dias até fora de horas… mas, é engraçado reconhecer-me como praticante de desporto. É minha amiga no Facebook, mas um pouco desatualizada ultimamente. (risos)
PJ – Quer deixar alguns conselhos saudáveis que cumpre no seu dia a dia e que poderão ser úteis a quem nos lê?
AM – Não me reconheço capacidades de conselheiro, contudo sempre posso dizer que acordar, abrir o estore e ver o Sol mesmo que o céu esteja nublado, é um bom fármaco para que o dia corra bem. Depois, ao longo do dia, saber ouvir faz-nos crescer. Manter uma boa relação com quem nos rodeia faz-nos bem. Depois, sentirmos que mesmo à distância a família está próxima, faz-nos muito bem.
PJ – Para além da sua ocupação profissional e do desporto, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?
AM– Gosto de estar com a família próxima. Gosto de estar na aldeia que me viu nascer e estar com as pessoas que me viram crescer. É para aonde fujo quase todos os fins de semana. Pode parecer estranho, mas também gosto de momentos em que estou só comigo. Podem acontecer no sofá, na praia deserta, numa caminhada pela natureza… sabe muito bem.

PJ – Imagine a sua vida sem a sua ocupação profissional, como seria?
AM – (risos) Lugar comum: passear… costumo dizer meio em jeito de brincadeira, que se deixasse a escola arranjava um rebanho de ovelhas e ia apascentá-las. Já me estou a imaginar, sentadinho numa pedra, boné na cabeça, a ler um livro com o gado à frente e a ouvir o chilrear dos pássaros. Idílico. Não lhe parece bem? Terrenos não me faltariam para guardar o rebanho (risos)…
PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
AM– Focado.
PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?
AM – Lourenço.
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, António Martins. Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem a todos os nossos leitores.
AM – Valorizem sempre o papel da escola e dos professores, pois sem eles não conseguiriam ler esta entrevista que a, também, professora Paula Jorge tratará de escrever, numa brilhante “arrumação” das palavras a que já nos habituou. Venham visitar Santa Cruz da Trapa, venham visitar a nossa escola. As portas estão sempre abertas…
29/07/2021
29/07/2021

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