Entrevista a Aníbal Santos
Gestor
A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!

“De facto, por mais humilde que seja, o sentido de partilha e de mostrar ao mundo as belezas de Lafões, leva-me a concluir que aquilo que começou como um hobbie, está a tornar-se em algo grandioso”
• Paula Jorge
Ficha Biográfica
Nome: Aníbal Santos
Idade: 57 anos
Onde vive: Vila Nova de Gaia
Profissão: Gestor
Livro: “Ilusões” de Richard Bach e “Manual do Guerreiro da Luz” de Paulo Coelho
Música: Coletâneas de Blues (ao computador), Rock Progressivo e instrumental de guitarra (a conduzir), Celta e de meditação (para relaxar) Prince – Purple Rain (a que mexe comigo)
Destino de sonho: Butão (o tal país da felicidade), Índia, Madagáscar e Ilha de Páscoa
Personalidade que admira: Julião Santos (avô paterno, condecorado por ter salvado a vida a crianças), J. F. Kennedy, Olof Palme e Aldo Moro.
Muito obrigada, Aníbal Santos, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.
Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio. Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?
Aníbal Santos (AS) – É uma gratidão recíproca, pois é um prazer enorme poder dar-me a conhecer através desta rubrica que vou seguindo atentamente. Esses percursos acabam por se fundir um no outro, porque ainda com 13 anos de idade comecei a trabalhar em part-time numa Agência de Contribuintes e contabilidade, no Porto, onde nasci e residia, começando a trabalhar a tempo inteiro quando fiz os 14 anos. Até essa idade, e ter feito a escola primária e preparatória no Porto, aos 14 anos ingressei no ensino noturno até concluir os estudos liceais. Aos 15 anos fui viver para Vila Nova de Gaia, mudando também de emprego para a mesma localidade, onde ainda exerço funções, até chegar a gestor da empresa. Trata-se de uma empresa metalúrgica. Estudei até ao 12º ano, mas a vida laboral não permitiu avançar mais nos estudos devido ao número de horas de dedicação às várias áreas da empresa, que no seu auge teve perto de 40 trabalhadores. Pelo meio, colaborei numa empresa de arquitetura e design, fiz vários cursos de programação informática, desenho animado e desenho mecânico a 3D, o que permitiu algumas colaborações em vários projetos.

PJ – Como nasceu a sua paixão pela região de Lafões?
AS – Apesar de apenas ter começado a ser um frequentador assíduo de Lafões a partir de 2017, o mais curioso é que nos anos 90 tracei imensos itinerários de norte a sul do país, em que o motivo que me levava a ir a determinado lugar foram as feiras de gastronomia, enologia e artesanato. Foi uma excelente forma de conhecer patrimónios culturais e religiosos e as realidades diferentes de região para região.
Nesse contexto fiz muitas amizades a nível local, quer da sociedade civil quer autárquico. Lafões foi sempre para mim um enigma, pois no mesmo contexto de querer conhecer o país, queria saber mais sobre a história em si, da subdivisão do território em três concelhos. Era algo que não queria apenas saber pelas pesquisas de internet. Queria conhecer através do contacto com as suas gentes. Mas durante anos só conhecia de passagem Vouzela e as Termas de S. Pedro do Sul, sem nunca ter tido a oportunidade de conhecer aprofundadamente, como conheci outros locais. Mas eis que em 2017 se dá uma enorme reviravolta, e essa reviravolta chama-se “Descobrir SÃO PEDRO DO SUL”. O projeto de fotografia de Miguel Regada chegou-me às mãos por intermédio de uma amiga comum, a Isabel Fernandes, de Coimbra, que me contactou no sentido de aderir a esse concurso, que teria a duração de quatro dias a fotografar S. Pedro do Sul. Ou foi o destino, ou foi o acaso. Certo é que vi nesse projeto a oportunidade de finalmente conhecer Lafões. A vontade foi tanta que Miguel Regada, que ainda não conhecia por essa altura, pediu voluntários para a véspera do 1º dia do concurso. Voluntariei-me e foi dessa forma que fui fotografar a recriação oitocentista que decorria no Palácio de Reriz. Foi curioso que nesse local tive várias sensações de “Déjà Vu” e mais curioso ainda é que a maioria das pessoas que fotografei são pessoas que de uma forma ou de outra tenho laços de amizade. Ainda hoje é um sentimento agradavelmente estranho ao rever essas fotos e descobrir que, mesmo atualmente quando travo conhecimento com algumas pessoas, estarem nessas imagens de 2017.
PJ – Da paixão por Lafões, seguiram-se muitos projetos. Fale-nos dos mesmos.
AS – Como em tudo na vida, devemos honrar a gratidão, e não poderia responder a essa questão sem agradecer à saudosa Engª Carmo Bica, do qual não a posso esquecer, e muito do que faço por Lafões, a ela também se deve. O primeiro projeto surgiu em maio de 2018, após ter sido o duplo vencedor da 2ª edição do Descobrir SÃO PEDRO DO SUL, e ao dar uma entrevista à imprensa, fui contactado pela Carmo Bica para colaborar com a Gazeta da Beira, dado que segundo me disse gostou da forma como respondi à entrevista. O convite foi direcionado para divulgar eventos culturais de Lafões, que mais tarde estendi a Sever do Vouga e Castro Daire. Aceitei o desafio e entendi que fazer a divulgação cultural de Lafões seria não só um desafio a mim próprio, mas uma forma de retribuir como fui acolhido na região. Digamos que “acusei a responsabilidade” por ter sido o duplo vencedor nas duas categorias a concurso. Que foi um sinal para fazer algo, para não estagnar e ficar à sombra, e o convite para fazer reportagens veio despoletar aquilo que gosto de fazer: Sair da zona de conforto e assim poder deixar um legado para a posteridade! Do qual me é possível estender e partilhar muita da solidariedade que é vivida em Lafões e que procuro também divulgar. Dessa saída da zona de conforto, seguiram-se vários projetos, do qual fiz um interregno nas reportagens e colaborei mais ativamente no projeto de Miguel Regada com a inclusão de outras artes na 3ª edição do “Descobrir”, colaborações com revistas de gastronomia e enologia, também em sites de divulgação da região, e até institucionais, até que surgiu o livro do Descobrir SÃO PEDRO DO SUL, em 2019, e andei em digressão nacional a promover o livro. Ainda na escrita, colaborei com um texto em prosa num livro do município de Oliveira de Frades, o “Palavras Focadas”.

PJ – O gosto pela fotografia tem-lhe permitido grandes voos. Pode partilhar esses voos connosco?
AS – De facto, por mais humilde que seja, o sentido de partilha e de mostrar ao mundo as belezas de Lafões, leva-me a concluir que aquilo que começou como um hobbie, está a tornar-se em algo grandioso. O resultado está nos convites para uso das minhas imagens em livros e revistas e nos convites para realizar exposições. E que dizer de ter sido convidado para ser presidente do júri no concurso de fotografia de “A Previdência Portuguesa”? Bem, já fico em dúvida se é mesmo só um hobbie…
No entanto, e novamente não esquecendo a gratidão, se estou grato à Isabel e ao Miguel Regada, e consequentemente à Carmo Bica, não posso esquecer a equipa do município de Oliveira de Frades vigente em 2020, pelo convite para fazer a 1ª exposição a título individual e o convite para participar no CriativArte. Ou seja, todo um mundo de novas experiências se foi abrindo, como por exemplo ter participado numa residência artística em Vouzela, pela Binaural.
AS – Acredita que a sociedade e as instituições que nos representam dão a devida importância à cultura?
AS – É uma pergunta da qual a resposta diverge de local para local e de situação em situação. Pessoalmente, e dos projetos que estive envolvido, recordo com gratidão ter tido presente o executivo de Oliveira de Frades, quer o anterior executivo quer o atual, nas exposições que realizei na Biblioteca e no Museu, tal como sucedeu no Museu de Vouzela, em que não esqueço as palavras de gratidão desses autarcas que reconhecem o trabalho de divulgação que tenho realizado da região de Lafões. Noutros projetos, não foi visível esse apoio, mas lá está, eram iniciativas da sociedade civil e o foco da divulgação cultural preferencial poderá estar mais direcionado nas ações promovidas pelas próprias autarquias. Algo que recordo com gratidão, foi o convite ao organizador do “Descobrir” para ir ao programa da RTP “Férias Cá Dentro”, para promover o livro que mostra o património e paisagens de S. Pedro do Sul, além da história dos locais, tendo o Miguel me convidado a ir ao programa, premiando assim o meu esforço de ter percorrido o país na sua divulgação. E um ato destes da estação pública de televisão é de enaltecer.
PJ – Muitas histórias terá guardadas durante todo no seu percurso por Lafões. Quer partilhar uma das histórias que mais o marcou?
AS – Poderia contar a história de quando andei a fazer várias reportagens seguidas, e com poucas horas dormidas enfiei o carro numa valeta, mas acho melhor contar outra mais feliz. Há duas histórias curiosas que envolvem a Isabel Silvestre, uma delas foi quando falei com ela pela primeira vez e me apresentaram como Aníbal, ao que olhou para mim e disse: “é o Seraphim? Ai que finalmente o conheço pessoalmente! Já andava há muito tempo a tentar saber quem é. Adorei a sua reportagem na Gazeta da Beira sobre a Festa da Vitela de Manhouce”. Fiquei sem palavras… Além disso, tratou-se da minha 1ª reportagem, e já tinha passado quase um ano! A outra história foi igualmente em casa da Isabel Silvestre. Em plena pandemia fui acompanhar uma jornalista para uma entrevista, da qual eu ia apenas fotografar e filmar. Como estava de máscara e queria fazer-lhe surpresa apenas no final, após o início da entrevista eu apenas disse uma frase, a respeito das fotografias e a Isabel disse: “ora tire lá a máscara se faz favor”. Tirei a máscara e ela disse: “olha quem ele é, o Aníbal Seraphim, não faça cerimónia, você é da casa, é mais da nossa terra do que sei lá o quê”. São histórias como estas, que as há mais, que me fazem sentir em casa estando em Lafões.

PJ – Quer falar-nos de alguns projetos em que esteja envolvido e que ainda não tenhamos falado?
AS – Envolvido neste momento, tenho exposições de fotografia ainda a decorrer e já há duas exposições confirmadas para 2023, em Vouzela e novamente em Avintes. Existem ainda outras exposições em cima da mesa, a nível nacional, mas por questões laborais estou a retardar o envio do email a manifestar a disponibilidade e noutros casos não aceitei ainda o convite, também pelo mesmo motivo. Uma das possibilidades que estou a ponderar, já que depende de mim, será expor as imagens de Lafões num Centro Cultural fora do país.
Tenho em mãos neste momento a edição de um livro de contos, promovido pela ATEF, que deverá sair em março, e já tenho na agenda a paginação e edição de um outro livro de uma escritora da região. Este mês sairá mais um livro, da Associação Cultural iNstantes, que conterá mais uma fotografia de Lafões, de minha autoria.
Noutras artes, gostei da experiência de fazer o papel de Salva Almas, numa peça teatralizada, e em breve vão começar os ensaios para uma outra peça do qual estarei no elenco.
Pelo meio destes trabalhos já confirmados, não me posso esquecer que como Confrade da Região de Lafões, há o trabalho inerente a realizar.
PJ – Para além de tudo o que já foi referido, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?
AS – A paixão pela música está sempre presente em mim e tive uma fase da minha vida em que trabalhei com bandas internacionais, em tournée pelo estrangeiro, e foi uma experiência muito interessante. O espírito de entreajuda é enorme quando se anda de terra em terra, longe de casa, monta palco, desmonta palco, dorme-se pouco, conduz-se muito, trabalha-se imenso, mas, é uma diversão descomunal. E quando se tem o nome nos agradecimentos num CD ou DVD ou numa ficha técnica, é uma enorme satisfação. Ou então, quando se oferece a um músico como o Al Di Meola o livro do “Descobrir” e ele pede para o autografar, aí já não sei se será paixão nutrida ou uma pontinha de ego a rejubilar.
PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
AS – Equilibrado.

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?
AS – Diz que apesar de ser extremamente sociável, a maioria do trabalho, que não é visível, é feito em solidão. Mas essa solidão faz parte do processo evolutivo, pelo menos nas artes. Diz também que pelo facto de tudo o que faço pela região ser a título gratuito, posso acabar por ser incompreendido, algo que já senti na pele, diga-se, mas como tudo o que faço é de coração, as poucas horas que durmo, adormeço sempre de consciência tranquila.
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Aníbal Santos! Desejo-lhe um excelente ano de 2023 e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve de início de ano a todos os nossos leitores.
AS – Desejo um bom ano a todas e todos os leitores e que os valores da solidariedade e espírito de entreajuda prevaleçam sempre nos nossos corações.
09/02/2023

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