Entrevista a Andreia Freitas
Técnica Superior de Animação Sociocultural

“Trabalhar com pessoas idosas implica gerir diferentes personalidades e contextos. É um desafio diário para mim e para eles. Tento, a cada dia, que experienciem coisas novas por forma a superarem as suas limitações e dificuldades.”
Ficha Biográfica
Nome: Andreia Freitas
Idade: 38 anos
Onde vive: Negrelos, São Pedro do Sul
Profissão: Técnica Superior de Animação Sociocultural
Livro preferido: O Monge que vendeu o seu Ferrari de Robin Sharma
Destino de sonho: Muitos! Adoro viajar, conhecer e desfrutar do que cada lugar tem para oferecer!
Personalidade que admira: A minha Mãe! Foi uma lutadora, resiliente, altruísta e autêntica, dando os melhores exemplos. À minha mãe devo o que sou hoje!
Muito obrigada, Andreia Freitas, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.
Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio. Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?
Andreia Freitas (AF) – O meu percurso académico até ao 9º ano foi na escola oficial. No 10º ano não me identifiquei com o ensino regular e decidi, no ano seguinte, matriculei-me numa Escola Profissional. Em 2001 ingressei na Escola Profissional de Carvalhais, no Curso Técnico Profissional Animador Sociocultural/Desporto. Em 2004, entrei na Escola Superior de Educação em Coimbra, no Curso Animação Socioeducativa – licenciatura bietápica com a especialização de Educação e Formação ao Longo da Vida. Terminei este percurso em 2008.
– Profissionalmente, já trabalhei como monitora/animadora em Campos de Férias Residenciais e não Residenciais de crianças e jovens; acompanhei grupos de séniores de turnos de Termalismo Sénior; fui formadora na área de Apoio a Crianças e Jovens e Agente em Geriatria e como Técnica de Formação Profissional. Atualmente, exerço funções de Técnica Superior de Animação Sociocultural no Centro de Dia no Centro de Promoção Social em Carvalhais.
PJ – Fale-nos da sua missão enquanto Animadora Social no Centro de Dia do Centro de Promoção Social em Carvalhais.
AF – A minha missão enquanto Animadora no Centro de Dia é muito especial. Posso mesmo dizer, que comparativamente às outras experiências, esta é a missão mais desafiante e gratificante que desempenho profissionalmente. Eu diria que é a minha verdadeira missão. Dedico-me de coração e alma aos meus 30 utentes. É um trabalho que envolve muito respeito e admiração por todas as pessoas envolvidas. O meu trabalho vai muito além do planear, dinamizar e avaliar atividades de animação. Trabalhar com pessoas idosas implica gerir diferentes personalidades e contextos. É um desafio diário para mim e para eles. Tento, a cada dia, que experienciem coisas novas por forma a superarem as suas limitações e dificuldades. É tirá-los na medida certa da sua zona de conforto e a mim também. Faço por proporcionar-lhes novas vivências e momentos desafiadores, sempre em prol do seu bem-estar. É obvio que isto me obriga a reinventar todos os dias. Estou em constante crescimento e a trabalhar a cada minuto a minha criatividade.
Mas isto só é possível porque efetivamente somos companheiros, motivadores, amigos e confidentes, e comigo trabalha uma equipa fantástica que colabora em todos os desafios. Dizemos muitas vezes que no Centro de Dia, somos uma família, e somos. Não se trata de uma família de sangue, mas de coração. Partilhamos lágrimas, perdas, dores, vitórias e muitos sorrisos.
Quem me conhece, sabe que não era esta a área de intervenção que ambicionava. No entanto, e como diz a Lisa Joanes, não devemos fazer planos para a vida, para não estragarmos os planos que a vida tem para nós, e a verdade é que a vida me permitiu experienciar trabalhar com este público e neste momento não me imagino a fazer outra coisa profissionalmente. É sentir todos os dias que estou em missão e que a minha presença e trabalho marcam a vida de cada uma desta pessoas. É com orgulho e sentimento de missão cumprida que termino os meus dias. Os meus utentes são a minha inspiração diária.
Como diz Jacinto Jardim, no 10º Bem-aventuranças da Animação, in O Método da Animação: “Feliz de ti que animas os outros, porque deixarás uma marca perene na vida daqueles que contigo caminham.”

PJ – Como define a relação que estabelece com os utentes com quem trabalha diariamente?
AF – Trabalho com o coração todos os dias. Estabeleço uma relação de respeito pela identidade de cada um, escuta ativa, disponibilidade, confiança e de muita proximidade. É também uma relação baseada de afetos e de sorrisos, pois acredito que quando amamos o que fazemos, estamos mais perto de fazer felizes as pessoas com quem trabalhamos e de receber esse amor também deles. Acredito que o positivismo e as emoções positivas são benéficos. Respeito o estado emocional de cada utente, mas acredito plenamente que ao sermos positivos contagiamos o outro com uma felicidade autêntica.
PJ – De uma forma geral, que atividades proporcionam aos utentes para que estes mantenham alguma qualidade de vida?
AF – O Centro de Dia contém um plano anual de atividades que é elaborado tendo em conta os interesses e necessidades dos utentes. Este plano tem como finalidade descrever as ações que se propõe a desenvolver durante o ano, como missão de ocupação do utente, o seu envolvimento nas atividades, para que este possa sentir prazer na sua realização, entusiasmando-se pela participação e consciencialização que pode dar o seu contributo no desenvolvimento das atividades propostas. Atuando em todos os campos do desenvolvimento da qualidade de vida dos seus utentes, sendo um estímulo permanente da vida mental, física e emocional de cada um. As atividades são delineadas por forma a garantir o máximo de autonomia, contribuindo para um envelhecimento ativo, tendo sempre em atenção o grau de dependência de cada um. Possibilitando aos utentes uma vida digna para que continuem a aproveitar as oportunidades para o desenvolvimento pessoal e que, no ambiente institucional de centro de dia, se crie uma melhor qualidade de vida. Por exemplo: proporcionamos atividades sazonais que se referem a atividades com a finalidade de comemorar/ assinalar datas importantes, bem como participar em projetos externos que somos convidados/ desafiados. Simultaneamente, proporcionamos atividades semanais, que têm como objetivo a estimulação física, cognitiva, sensorial e emocional. Proporcionámos uma panóplia de atividades diferenciadas, por exemplo: oficinas de animação físicas; animação cognitiva; expressão plástica; oficinas de fotografia e vídeo; workshops práticos; sessões de informação/ sensibilização; oficinas de animação musical; oficinas de animação lúdica e cultural; oficinas de desenvolvimento pessoal e religiosa.
Todas as atividades são propostas aos utentes como um “convite” a participar evidenciando os seus objetivos e não como obrigatórias.
Aproveito para realçar as atividades intergeracionais e interinstitucionais que damos grande importância, uma vez que acredito que são uma mais-valia para o envelhecimento ativo, feliz e saudável. Este tipo de intervenção é constante e tem demonstrado grandes resultados positivos e de ótimas relações entre gerações e instituições.
PJ – Na sua perspetiva, até que ponto é importante o envolvimento das famílias na vida dos mais idosos?
AF – Sem dúvida é muito importante o envolvimento das famílias na vida dos mais idosos. O apoio e o suporte familiar são essenciais para que o idoso se sinta bem a nível físico, psicológico e social, mantendo a sua saúde metal e qualidade de vida. Como também é muito importante o envolvimento da família na integração no Centro de Dia. Ainda esta semana tivemos uma atividade que envolvia a família e foi notório a grande adesão e felicidade no rosto dos idosos.
Eles são o nosso legado e como se sentem felizes ao serem valorizados e incluídos nas suas vidas.
PJ – Acha que a nossa sociedade valoriza os mais idosos e os seus saberes? Qual é a sua opinião?
AF – Penso que ainda existe um longo caminho a percorrer. Nota-se uma maior preocupação da sociedade, mas ainda existe um grande afastamento das pessoas mais velhas e o sentimento de “coitadinhos”. Ainda existem muitos pré-conceitos errados e muito presente o Idadismo (preconceito em relação à idade). É um conceito que tenho trabalhado bastante, também com o grupo, porque eles próprios praticam o Idadismo sem se aperceberem. Estão ainda enraizadas ideias como: “já não tenho idade para isso”; “não é com esta idade que vou aprender”, “já não somos úteis para a sociedade”, entre outras. São frases e sentimentos de vitimização muito presentes, que devemos tentar quebrar. Crenças limitadoras que acabam por se enraizar e na cabeça dos nossos idosos e famílias tornam-se verdades absolutas.
Por exemplo: no Centro de Dia apostamos num modelo de atuação centrado na pessoa, utilizando a fotografia e o vídeo como forma de expressão. Este tipo de atuação tem tido um bom impacto na sociedade e nas pessoas envolvidas. Existe um reconhecimento e reações positivas por parte da comunidade e famílias que geram a valorização dos idosos.
Ainda assim, de uma forma ainda que de forma lenta, acredito que a valorização e respeito pela pessoa idosa está a aumentar, uma vez que, já existe um crescente conjunto de boas práticas em Portugal.

PJ – Na sua área, a aposta na formação é importante? Porquê?
AF – Sim, muito importante. A minha área está em constante evolução e nós como profissionais devemos estar sempre atualizados com técnicas e ferramentas mais atuais. O nosso trabalho desenvolve-se centrado na pessoa, ir ao encontro das necessidades e interesses da pessoa individualmente. E o que faz sentido hoje e para aquele utente, amanhã poderá já não o fazer. E a formação na área de desenvolvimento pessoal como por exemplo: gestão de conflitos, gestão de equipa, gestão de tempo, gestão de emoções, entre outras, é primordial. Estamos expostos todos os dias a estas temáticas e é importante estarmos preparados e sensibilizados para abordagem das mesmas.
PJ – Algumas histórias terá guardadas durante o seu percurso profissional. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais a marcou?
AF – Guardo tantas histórias! Às vezes digo que já posso escrever um livro com todas as memórias que guardo destes anos de trabalho. Cada uma com a sua marca especial e por isso não é muito fácil selecionar uma só.
Contudo, vou escolher uma história que foi um dos meus maiores desafios no meu percurso profissional durante a pandemia.
Devido ao covid-19, as respostas sociais Centro de Dia foram encerrados, porque os idosos eram considerados uma das populações mais vulneráveis e era necessário protegê-los. Até aqui, tudo certo. Mas não equacionarem devidamente as consequências que daí adivinham. Embora parte dos nossos utentes estivessem a beneficiar da domiciliação dos serviços, sentíamos que foi muito difícil de gerir e gerou sentimentos de angústia, tristeza, abandono, apatia, diminuição de autoestima, isolamento social e regressão das competências físicas e cognitivas. Por isso era urgente proporcionar serviços de animação e acompanhamento. Neste sentido, decidimos recorrer a financiamentos através de várias candidaturas na esperança de criarmos alternativas que beneficiassem os nossos utentes e as suas famílias. E a verdade é foi com grande felicidade recebemos a notícia, em outubro de 2020, que fomos premiados com o prémio BPI “La Caixa” Séniores 2020 com o projeto pioneiro “CPS Séniores Ativ@s”. Este projeto visava atuar em duas frentes: criar uma resposta do Centro de Dia ao domicílio para apoiar os utentes que, por confinamento ou por outra situação, não pudessem beneficiar dos serviços prestados nas instalações. Esta resposta, visava o acompanhamento e a realização de atividades de animação à distância, assim como o apoio social que tradicionalmente realizávamos presencialmente; e melhorar as condições para o exercício e desenvolvimento do bem-estar dos utentes do Centro de Dia, através da criação de um Centro Sénior Fitness&SPA com equipamentos especializados no desenvolvimento físico e motor, assim como para o relaxamento e bem-estar. Para operacionalizar a iniciativa do Centro Dia ao Domicilio, adquiriram-se tablets, com um software intuitivo, simples, interativo e adaptado a iletrados. Assim, no segundo confinamento, permitiu colocar em prática este projeto. Este projeto foi um grande desafio tanto para mim, como para os utentes. Para mim enquanto profissional, porque tive que adaptar a minha intervenção à distância e para os utentes, porque tiverem que trabalhar com um “objeto” que não estavam familiarizados, mas que rapidamente tornaram-se autónomos na sua utilização. O impacto social deste projeto pioneiro foi evidente, deixando rasto de cumplicidade e uma aproximação entre utentes e equipa, utentes e familiares, familiares e equipa. Tornou-se próximo o distante, e verificou-se que os utentes mantiveram as suas rotinas e o regresso o Centro de dia foi sentido de forma muito mais natural. Acreditamos, que a partir da experiência tida com os nossos utentes poderemos testar uma metodologia de trabalho aplicável noutros contextos de apoio domiciliário e mesmo noutro tipo de suporte a pessoas em situação de isolamento, que nos parece vir a passar a ser mais costumeiro.
PJ – Para além da sua atividade profissional, que outras paixões nutre, que a completam enquanto pessoa?
AF – Em primeiro lugar, sem qualquer dúvida, estar com a minha família que são o meu pilar e porto de abrigo. O cuidar de mim própria através de desenvolvimento pessoal, leitura, passeios pela natureza, mar, viajar e a prática exercício físico. Gosto muito de jardinagem e também tenho um enorme gosto pela fotografia e vídeo. Tenho uma enorme paixão em aprender coisas novas para depois colocar em prática na minha vida pessoal e profissional.

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
AF – Alegre. Muitas pessoas identificam-me pela minha gargalhada. Até os utentes dizem que é única. Considero-me uma pessoa alegre, e gosto de contagiar quem me rodeia com a minha alegria.
PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?
AF – Gratidão! Gratidão pela minha caminhada, gratidão por todas as pessoas que comigo caminham e me apoiam incondicionalmente e gratidão por este desafio que me permitiu parar e fazer uma introspeção a nível pessoal e profissional! Um muito obrigado!
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Andreia Freitas! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.
AF – Que respeitem, cuidem e valorizem a pessoa idosa! E que não deixem para amanhã nenhum carinho, nenhuma palavra, nenhum abraço, pois o amanhã poderá não existir! Onde quer que vás, leva luz, amor e paz!
29/06/2023

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