Entrevista a Adelino Ricardo Correia Lopes Pires

Sacerdote

“Nos dias de hoje as pessoas veem-se, mas não se encontram, então as atividades das paróquias devem fomentar o encontro, o diálogo, a oração”

Olá! Estarei convosco para responder a mais um desafio. Espero não vos desiludir. A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!

 

 

Ficha Biográfica

Nome: Adelino Ricardo Correia Lopes Pires

Idade: 36 anos

Onde vive: Reriz

Profissão: Sacerdote

Livro: Biografia de Winston Churchill e Jesus de Nazaré de Bento XVI

sica: toda a música eu ouço de tudo

Personalidade que admira: Bento XVI

 

Muito obrigada Sr. Padre Ricardo Correia, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica Gente Que Ousa Fazer. Comecemos pelo princípio.

Paula Jorge (PJ) – Pode descrever o seu percurso académico e o profissional enquanto pároco da Igreja Católica.

Adelino Pires (AP) – Entrei para o Seminário Menor de Fornos de Algodres em 1997 com 11 anos de idade, frequentei o secundário na escola local, quando terminei o secundário fui para o Seminário Maior de Viseu, onde me formei. A duração do Curso de Teologia é de 6 anos, depois de terminado o Seminário Maior fui estagiar para a Paróquia de Santa Maria de Viseu (Paróquia da Sé) onde estive 9 meses onde estive a aprender a ser pároco e viver em comunidade. No dia 30 de junho fui Ordenado Padre mantive-me na Paróquia de estágio até setembro. No dia 21 de setembro sou enviado para ser Pároco das Paroquias de São Macário (S. Martinho das Moitas, Covas do Rio, Gafanhão, Covêlo de Paivó e mais tarde Figueiredo de Alva). Nas primeiras comunidades estive 3 anos em Figueiredo de Alva 8 meses. Em 2016 o Sr. Bispo D. Ilídio Leandro pediu-me que assumisse novas comunidades Reriz, Alva e Pepim comunidades que ainda hoje continuo a paroquiar. No último ano estou também a acompanhar um grupo de Casos de Nossa Senhora.

PJ – Trabalha certamente com muitos jovens. Que grupos de jovens dinamiza e que objetivos se pretende alcançar?

AP – Infelizmente não trabalho assim com tantos jovens como gostaria. Eu trabalho com alguns jovens não em grupo, mas sim individualmente, porque hoje em dia é complicado com as questões de tempo dos nossos jovens, pois muitos deles estão na faculdade e não conseguem estar presentes em reuniões. O objetivo deste trabalho é mais fácil de trabalhar, porque o trabalho com eles é personalizado, pois os problemas deles não são todos os mesmos. Nos dias de hoje não há uma solução chapa 5, cada jovem é um ser único. O objetivo é o descobrir e clarificar a fé de cada um deles e há tantas formas de a descobrir. Aquelas que eu mais gosto é a do encontro individual, porque não há vergonha, nem todos caminham ao mesmo ritmo e o encontro com Cristo é pessoal e esse encontro passa por se aceitarem com as virtudes e os defeitos e saberem o quão amados são. Obviamente que essa noção de Amor passa pela Oração pessoal e comunitária (Eucaristia), é na Oração que todos nós nos sentimos próximos e amados. Além da descoberta da Fé, há também a descoberta de si mesmos. Nós só podemos Amar o que conhecemos e acolhemos dentro de cada um de nós.

 

PJ – Por outro, que desafios encontra nos escalões de idade mais maduros?

AP – Nos escalões de maior idade é mais difícil de introduzir novos desafios, porque nem sempre o diferente é bem aceite, a novidade estranha-se, mas conseguimos desenvolver com eles atividades de encontro. Nos dias de hoje as pessoas veem-se, mas não se encontram, então as atividades das paróquias devem fomentar o encontro, o diálogo, a oração, por isso é que a Oração do Terço lhes diz muito, porque o Amor a Nossa Senhora é algo que a todos nos diz muito e nos liga. Mas por incrível que pareça é possível fazer muitas coisas com as pessoas de melhor idade, porque neles não há a dificuldade de encontro, porque eles organizam bem o seu tempo para poder estar nas atividades. O que fazemos com eles são o que eles sempre fizeram com algumas alterações para não ser sempre as mesmas coisas. Com eles fazemos excursões, convívios, porque ao contrário de muitos dos jovens que preferem o seu canto, a sua privacidade os da melhor idade sabem divertir-se, sabem e querem dialogar uns com os outros, porque os dias são sempre tão atribulados que quando têm oportunidade aproveitam ao máximo o tempo que têm juntos.

 

PJ – Ser Padre é uma carreira em vias de extinção? O que tem a dizer sobre a falta generalizada de párocos na Igreja Católica?

AP – Ser Padre não é uma Carreira, ser Padre é Vocação, eu não acho que esteja em vias de extinção, temos os pastores necessários para os tempos de hoje, não somos muitos, a Diocese de Viseu tem uns 90 sacerdotes para 208 Paróquias. A dificuldade de novas vocações deve-se ao fato de hoje em dia há uma diminuição dos nascimentos, muitos dos jovens emigram muito cedo e houve um desencantamento da vida sacerdotal como se a vocação não atraísse, porque se perdeu a chamada catequese doméstica, não houve a passagem da Fé. Hoje em dia as crianças criam-se a si mesmas através de vídeos no youtube e Deus não se manifesta no youtube, as pessoas já não rezam em casa e nós padres não podemos fazer nada em 45 minutos de celebração. A Fé vem de casa e cresce em casa quando não há a passagem de testemunho não podemos pedir que as crianças e jovens tenham o desejo de seguir a vida sacerdotal. Nos dias que correm, a vida sacerdotal está, aos olhos de quem vê por fora; vêm-nos desgastados sempre a olhar para o relógio para cumprir agenda, porque quantas mais Paróquias temos mais trabalho temos e por trabalho não me refiro às celebrações da Eucaristia, mas sim de tantas reuniões, cuidar de centros sociais, catequeses, organizar a comunidade… Não é fácil e ainda nós temos a ajuda das Comissões da Igreja que nos ajudam na economia e organização da Paróquia.

 

PJ – Que recetividade tem ou sente ter ao chegar a uma nova paróquia?

AP – É sempre estranho a mudança de Comunidades. Todos nós somos pessoas de hábitos e é normal que nos habituemos às pessoas, às tradições e aos costumes. Sempre que mudamos de Paróquia somos estrangeiros para onde quer que vamos. Há por um lado também as saudades que as pessoas têm do Pároco que saiu que é normal e aquele que vem há sempre a desconfiança, será que é bom? será que é mau? e até conquistarmos a confiança das pessoas demora no mínimo um ano até conhecer pessoas, costumes, famílias. Eu gosto de mudar de comunidades, porque gosto de conhecer pessoas novas, realidades, mas para mim também não é fácil, porque eu demoro bastante tempo a dar-me e a deixar que me conheçam.

PJ – Que tipo de iniciativas gosta de promover em prol das suas populações?

AP – Gosto de promover atividades onde as pessoas possam dialogar, ter espaço para si, para com Deus e para com os outros. Gosto de promover atividades onde as pessoas possam ver coisas diferentes, que há pessoas diferentes, porque todos nós crescemos dialogando, é no encontro uns com s outros que todos nós crescemos como Pessoa.

 

PJ – Muitas histórias terá guardadas durante todo o seu percurso de vida. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais o marcou?

AP – A história que mais me marcou foi quando uma Instituição foi multada por dar de comer a gente a mais. Nunca mais me irei esquecer dessa injustiça. O lado positivo foi saber que estamos a fazer o certo e que estávamos “com o coração no sítio certo”.

 

PJ – Para além de tudo o que já foi referido, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?

AP – A mim, o que me apaixona são as pessoas e a sua bondade, a capacidade que as pessoas têm em se comover com os problemas dos outros. Gosto muito de caminhadas, de passear com o cão, de viajar com amigos, de rezar em comunidade. Eu acredito que uma comunidade que reza junto permanecem juntos, daí sempre que me é possível promovo encontros de pessoas onde rezamos e convivemos, bem a Eucaristia é isso mesmo, encontro com Deus e com os outros, onde somos chamados a rezar e a estar com o Outro e com os outros.

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?

AP – Acho que a melhor palavra que me define é afeto, porque gosto muito de dar e de receber.

 

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?

AP – O meu coração diz que estou muito Grato a Deus pelo Dom do Sacerdócio e por todas as pessoas que Deus coloca todos os dias na minha vida. Eu faço todos dias a Oração de São Francisco, onde peço que seja Paz, Amor, Perdão, União, Fé, Verdade, Esperança, Alegria, e Luz, ou seja, que seja instrumento nas Mãos do Oleiro.

 

PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma

enorme honra, Sr. Padre Ricardo Correia! Desejo-lhe a continuação de um excelente

trabalho e MUITO OBRIGADA!

AP – Sou eu quem agradece a vossa consideração por mim.

25/02/2023


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