Entrevista a Abel Dias
Professor e Deputado da Assembleia Municipal de Oliveira de Frades

“Precisa-se de uma educação que vá ao encontro das profundas inquietações do ser humano, que seja aberta à dimensão da transcendência e da fraternidade, ao mesmo tempo que lança amplos desafios, pessoais e comunitários. Precisamos de uma educação e de uma escola que eduque em, e para, valores.”
• Paula Jorge
Olá! Estarei convosco para responder a mais um desafio. Espero não vos desiludir.
A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!
Ficha Biográfica
Nome: Abel Joaquim Tavares Dias
Idade: 52 anos
Profissão: Professor
Livro preferido: “O Samurai” de Suzano Endo
Destino de sonho: Israel – Belém e Jerusalém
Personalidade que admira: Papa Francisco
Muito obrigada, Abel Dias, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.
Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio. Pode descrever o seu percurso profissional enquanto professor?
Abel Dias (AD) – – É com todo o gosto que aceito esta entrevista e desde já agradeço o convite e desejo à Gazeta da Beira e aos seus leitores um Próspero e Feliz Ano de 2022. Falar de mim é sempre um pouco difícil, mas vou tentar. Nasci há 52 anos na bonita freguesia de Arcozelo das Maias, concelho de Oliveira de Frades. Sou professor de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) há cerca de 20 anos, dos quais a maior parte passados na Escola Secundária de Viriato, em Viseu, com funções de responsabilidade na direção da Escola. Nos últimos quatro anos, encontro-me a lecionar no Agrupamento de Escolas de Oliveira de Frades, o que me deixa muito feliz, visto ser a minha terra natal.
PJ – Muitos projetos tem abraçado na missão de professor de Educação Moral e Religiosa Católica. Quer falar-nos de alguns que têm estado na base estrutural da formação de muitos jovens?
AD – É verdade, ao longo destes 20 anos foram muitos os projetos em que me empenhei sempre com uma preocupação em mente: proporcionar experiências significativas aos alunos, que os ajudem a construírem a sua própria felicidade e a colaborarem na felicidade dos outros. E graças a Deus tenho tido sempre uma resposta muito generosa da parte dos alunos, que não só aderem, mas continuamente me desafiam a ir ainda mais além com novos projetos com a marca de EMRC e com o objetivo de serem uma mais valia na formação integral, humana e religiosa. Permitam-me que saliente um daqueles que mais me orgulho: as visitas à comunidade ecuménica de Taizé. Estas visitas têm proporcionado aos alunos o que eles muito anseiam: uma experiência de oração, de comunhão fraterna e de simplicidade, que os torna a todos irmãos comprometidos com a construção de um mundo a saber a evangelho. Taizé, para muitos jovens, questiona uma vida solitária e frenética, vivida a um ritmo alucinante e rotineiro, e muitas vezes, vazia de sentido para os fazer sonhar e construir, na tranquilidade do silêncio, da oração, do trabalho e do convívio, uma vida com sentido e cheia de objetivos. Estou convicto que a disciplina de EMRC deve tornar presente a mensagem cristã no processo pessoal de ensino/aprendizagem dos nossos alunos e oferece-lhes uma chave de interpretação cristã da vida e do mundo que os ajude a ler e discernir a realidade e a construir um mundo mais fraterno e humano. Para isso, é fundamental que a disciplina valorize a fé, a espiritualidade, a alteridade e a interioridade, uma vez que nos dias de hoje e em muitos casos, é a única ocasião de contacto com a mensagem cristã. A Disciplina de EMRC e os seus professores devem fazer isto não impondo a sua visão, mas dialogando com todos e com tudo o que conduz ao bem e à verdade.

PJ – Há uns anos a esta parte tem também estado ligado à vertente política no Município de Oliveira de Frades, como presidente da Assembleia Municipal. Fale-nos deste percurso até aos dias de hoje.
AD – Realmente é verdade. Um percurso que já leva cerca de 17 anos. Quatro dos quais como membro da Assembleia Municipal, oito anos como presidente da Assembleia Municipal, quatro anos como vereador sem pelouro e recentemente, nas últimas eleições autárquicas, fui eleito deputado da assembleia Municipal de Oliveira de Frades. Reconheço que é um longo percurso caracterizado por ser uma voz ativa e responsável pela defesa da minha terra e das minhas gentes. Apesar de terem sido funções não executivas e não remuneradas e com nenhum poder executivo, elas serviram e servem, no entanto, para de uma forma desinteressada, exercer uma cidadania ativa. Para mim, a minha participação política surge, e só tem sentido se for uma contribuição para a melhoria das condições de vida das pessoas e das suas comunidades, procurando consensos e compromissos com todas as outras forças democráticas do nosso concelho. Tento fugir do princípio maniqueísta que teima em dividir os partidos e as pessoas em boas e más. Acredito que todos podemos contribuir com as nossas ideias e propostas para o bem das nossas terras, independente dos rótulos partidários, se aquilo que nos mover for o desejo de colocarmos o bem comum acima dos nossos próprios e legítimos interesses.
PJ – Sei que continua a escrever mensalmente, desde há muito tempo, para a revista Audácia, um marco para muitos jovens e famílias, abordando temas fulcrais da sociedade. Quer falar-nos deste importante projeto?
AD – “Valores de (e para) sempre”, é um projeto no qual tenho muito gosto e do qual muito me orgulho e que já leva 25 anos e não tem fim à vista. Foram cerca de 300 artigos que escrevi mensalmente para a revista Audácia, uma revista missionária, que visa ajudar as crianças, os adolescentes e os jovens na sua formação humana, cristã e missionária. São artigos sobre valores humanos e cristãos das mais diversas áreas e domínios, mas todos eles visam tornar presente a mensagem cristã e humanista no processo de formação e construção da personalidade dessas faixas etárias. Os artigos pretendem oferecer uma chave de interpretação cristã da vida e do mundo que ajude os leitores a ler e discernir a realidade e a empenharem-se na construção de um mundo mais fraterno e humano. Preocupo-me por propor uma vida com sabor a Evangelho aos leitores, ao mesmo tempo que tenciono desafiá-los, como nos pede o Papa Francisco, a sermos todos irmãos (Fratelli Tutti), empenhados e comprometidos com a construção de um mundo melhor, mais justo e mais pacífico. Nos meus artigos preocupo-me bastante em escutar os jovens, dialogar com eles, construir com eles e, sobretudo, como nos diz o psicólogo Carl Rogers, “ver o mundo através dos seus olhos, e não ver o meu mundo refletido nos olhos deles”.

PJ – A inclusão, na sua vida, do apoio humanitário e social, como Campanhas do Banco Alimentar Contra a Fome, ajuda a Hospitais no Sudão, entre outras ações de solidariedade, marcam-no na sua essência enquanto pessoa. Pode dizer-nos como tudo isto acontece?
AD – Acredito realmente que a solidariedade entre pessoas, culturas e nações são a solução para muitos dos nossos problemas mundiais. Quando somos fiéis à mensagem cristã descobrimos que há mais alegria em dar do que em receber. E quando a doação é recíproca, gera comunhão, unidade e fraternidade e quando um grupo de pessoas (alunos) acredita e vive essa doação recíproca, cria uma nova mentalidade, uma nova cultura: a cultura do dar, a cultura da solidariedade. Por isso, sempre que posso tento motivar os meus alunos para esta dimensão, incentivando-os a envolverem-se. E porque estou plenamente convencido no valor e na utilidade da partilha, não só de bens, mas também de energias, ideias, soluções é que são inúmeros os projetos em que me envolvo com os alunos. Há dois anos atrás ajudámos Moçambique, particularmente os habitantes da Beira, que foram fortemente afetados pelo ciclone Idai, que trouxe muita destruição, morte e sofrimento. O ano passado e este, pois o projeto ainda está a decorrer, estamos a apoiar um Hospital no Sudão do Sul. Trata-se de ajudar uma médica portuguesa, a Dra. Joana Carneiro, que é a diretora de um hospital no Sudão do Sul e que se vê com dificuldades económicas para o manter em funcionamento. O Sudão do Sul é um país constantemente fustigado pela pobreza e pela guerra que deixa os seus habitantes muito frágeis e vulneráveis. Permitam-me partilhar convosco algumas reflexões sobre a solidariedade que explicam um pouco este envolvimento. Por natureza, vocação e formação, sou otimista e assim pretendo continuar, mas confesso que começa a tornar-se difícil. Um olhar rápido pelo mundo e para as relações que nele existem permite concluir que começam a escassear e, muitas vezes, a deteriorarem-se os verdadeiros gestos de solidariedade. Vivemos num mundo interdependente e globalizado, que favorece mais o domínio do mais forte do que a prática da solidariedade. Um mundo estruturalmente injusto, em que dez por cento da população mundial possui e usufrui de noventa por cento dos recursos; no qual a competição é o motor do sucesso e o cuidado pelo outro passa para segundo plano, quando não para último. Em primeiro lugar está a realização do eu, a satisfação dos interesses individuais, o bem-estar pessoal. Continuando assim, vão acentuar-se as desigualdades gritantes, as franjas de pobreza, a marginalização dos mais fracos, a indiferença perante o outro. Há que recuperar e afirmar o sentido e a prática da solidariedade. É por isso que tudo o que podermos fazer enquanto indivíduos, mas também enquanto organizações educativas para combater esta tendência, é de louvar. A solidariedade não é nada complicada e consiste em permitir que os outros entrem no nosso espaço pessoal, acolhendo-os com cordialidade e partilhando com eles o que temos e o que somos. Mais do que dar algo, a verdadeira solidariedade consiste em dar-se a si mesmo, para que os outros tenham vida e vida em abundância. A solidariedade leva-nos a abrir bem os olhos e a perceber o que se passa à nossa volta para entendermos a realidade. E além dos olhos, precisamos de abrir também o coração e deixar vir à superfície os sentimentos que nos podem levar a partilhar a paixão (compaixão) com os nossos semelhantes mais carenciados. Um coração solidário vê onde há necessidade de amor e atua em consequência. A solidariedade é sobretudo um estilo de vida que nasce do encontro com o mundo da dor, não através da realidade virtual mediática, mas da realidade concreta à nossa volta, e não tolera a indiferença. A ausência da solidariedade mata e reduz a convivência a uma coabitação forçada. Neste tipo de relacionamento, a solidão, a indiferença, as tensões e as transgressões prevalecem sobre a sociabilidade e a fraternidade. O mundo precisa de uma solidariedade forte que reintegre completamente na sociedade aqueles que dela são expulsos ou por ela são abandonados, marginalizados, esquecidos e ignorados, porque esta sociedade doente só se preocupa com o seu próprio bem-estar.
PJ – Recentemente foi nomeado, para os próximos quatro anos, Diretor do Secretariado Diocesano de Educação Cristã. Fale-nos desta sua missão.
AD – É verdade. Fui nomeado pelo Bispo de Viseu, D. António Luciano, Diretor do Secretariado Diocesano da Educação Cristã (SDEC). O Diretor e a sua equipa têm a responsabilidade de dinamizar e coordenar todo o sector da educação cristã da Diocese de Viseu, nos seus diversos espaços e âmbitos, embora a parte mais visível do Secretariado seja a dinamização e a coordenação da Catequese, nas paróquias, e da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC), nas escolas, publicas e privadas. Compete ainda a este Secretariado representar a Diocese de Viseu nas várias estruturas nacionais da Educação Cristã junto da Conferencia Episcopal. Neste ano pastoral, marcado pela pandemia e pelo sínodo dos bispos lançado pelo Papa Francisco, a nossa principal preocupação no SDEC é trilhar novos caminhos, através da sinodalidade, isto é, predispormo-nos a caminharmos juntos e a encontrarmos novas formas de afirmarmos e dinamizarmos a educação cristã das nossas crianças, adolescentes e jovens. Em termos concretos trata-se de juntos, em comunhão e em Igreja, nos deixarmos surpreender pelo Espírito Santo que constantemente nos desafia a encontrar e a percorrer novos caminhos que proporcionem, fundamentalmente, um encontro pessoal com Jesus Cristo, ao mesmo tempo que promovam a capacidade de viver em relação fraterna e em união com os outros. Em termos mais práticos o SDEC tem para os próximos tempos alguns desafios concretos. Na atividade catequética temos vários desafios: a construção de um novo itinerário de iniciação à vida cristã com as famílias, com as crianças e com os adolescentes e o curso de formação de catequistas, “Ser Catequista”, que queremos implementar em toda a Diocese de forma gradual. Já agora, e uma vez que estamos em Lafões, permitam-me dizer teremos já no próximo mês de fevereiro, dois dias de formação para os catequistas de Lafões a realizar-se na paróquia de Oliveira de Frades. No que diz respeito à disciplina de EMRC, temos os seguintes desafios: formação continua dos professores de Educação Moral e Religiosa Católica, apoio e acompanhamento à lecionação da disciplina, campanha de matrículas na disciplina e a revisão dos atuais manuais de EMRC.

PJ – Sendo professor, como olha para a escola e para os grandes desafios que se colocam à educação, em particular neste tempo de pandemia?
AD – De forma sintética, penso que a situação atual de pandemia veio reforçar a necessidade de uma educação integral que abranja todas as dimensões do ser humano. É necessário ser saudável não só do ponto de vista físico, mas também espiritual, moral e cultural. Assim, os alunos ficarão melhor preparados para um futuro, que será cada vez mais incerto, e com competências socioemocionais que lhes permitirão ser verdadeiramente felizes e construtores de uma felicidade comum. A educação, as escolas e os seus projetos educativos terão de combater a lógica dominante do mercado, do consumismo que valoriza unicamente o poder e o dinheiro, de tal maneira que a dignidade da pessoa humana é deixada de lado, ofuscada e até destruída. Precisa-se de uma educação que vá ao encontro das profundas inquietações do ser humano, que seja aberta à dimensão da transcendência e da fraternidade, ao mesmo tempo que lança amplos desafios, pessoais e comunitários. Precisamos de uma educação e de uma escola que eduque em, e para, valores.
PJ – Muita história terá guardadas no seu percurso enquanto professor. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais o marcou?
AD – Sim, são muitas as histórias que guardo ao longo destes 20 anos como professor. Felizmente a maior parte delas com um final feliz. Mas como o tempo e o espaço aqui é reduzido fico-me por uma que aconteceu há cerca de 5 anos atrás. Numa das minhas aulas, no contexto do Dia do Pai, falava da importância e nas qualidades de um bom Pai e de Deus, que é nosso Pai. Depois, e na continuidade do que falava, convidei os alunos a escreverem um postal para o seu pai, o que eles fizeram com muito empenho e entusiasmo. No final da aula, dei-lhes um envelope para colocarem lá dentro o postal e incentivei-os a oferecerem-no ao pai, nesse dia especial. Uma aluna, que se encontrava a viver numa instituição de solidariedade social, por ter sido retirada da sua família, e que não tinha qualquer contacto com o seu pai, entregou-me o seu envelope, como se eu fosse o seu pai. Aquele gesto e as palavras que proferiu marcaram-me muito… Hoje, passados anos, ainda me recordo, com emoção desta história e relembro o impacto que nós, professores, podemos ter na vida de os nossos alunos.

PJ- Para além das múltiplas funções que exerce, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?
AD – Para alem disto tudo, e acima disto tudo, está a minha família que muitas das vezes paga a fatura da minha ausência e do meu empenho e trabalho. Graças a Deus, que quer a minha esposa, quer a minha filha, compreendem e são o meu porto de abrigo. É lá que encontro inspiração, descanso e as forças necessárias para continuar a ser quem sou. São elas a minha paixão.
PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
AD – Educador
PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?
AD – O meu coração fala dos jovens e diz-me que eles sempre serão uma força positiva para o desenvolvimento, sobretudo quando são ouvidos e valorizados, mas também quando se empenham na construção de um mundo mais justo e fraterno. Acho que nós adultos devemos pedir perdão aos jovens, porque nem sempre os levamos a sério, isto é, nem sempre os ajudamos a ver o caminho e raramente nos predispusemos a caminhar com eles. Muitas vezes, não conseguimos fazê-los sonhar nem tão pouco tivemos a capacidade de os entusiasmar. Estamos a falhar em enraizá-los em valores humanos e civilizacionais que tínhamos obrigação de testemunhar, com o nosso exemplo. Como consequência, os nossos jovens estão a crescer num mundo digital e materialista e a respirar uma crise de valores e a viverem com valores em crise. O meu coração diz-me que é urgente recuperar a interioridade, a espiritualidade, o afeto, a proximidade e a relação. É urgente testemunhar e propor-lhes uma vida com sabor a Evangelho, uma vida com sentido.
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Abel Dias! Desejo-lhe um feliz ano novo, a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.
AD – Uma vez que estamos a iniciar um novo ano, a mensagem só pode ser de esperança e otimismo para sonharmos grandes coisas. Sonharmos que connosco o mundo pode ser diferente. Se nós dermos o melhor de nos mesmos estamos a ajudar o mundo a ser diferente e a ser melhor. Não deixemos para os outros o protagonismo da mudança! Temos que vencer a apatia e o desânimo e termos a coragem para dar respostas humanas e solidárias às inquietações humanas, sociais, económicas e políticas que estão a surgir e a emergir por todo o lado. Deixemo-nos habitar pela esperança cristã, que celebrámos no nascimento do Deus que se fez Menino e que nos dará a coragem e a força necessária para serem construtores de tempos e mundos novos, mais justos e fraternos.
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