Entrevista

José Sousa, Presidente da Junta de Cedrim e Paradela, em entrevista

Obras no cemitério de Cedrim e acessos são as grandes prioridades do mandato

José Sousa é o primeiro presidente de junta da recém-constituída União de Freguesias de Cedrim e Paradela, um processo nada fácil de implementar. Já com a casa arrumada, José Sousa, em entrevista à Gazeta da Beira, fala-nos do futuro. Há algumas obras previstas. Destaque para a criação de melhores acessos ao cemitério de Cedrim e o seu alargamento. Uma obra a rondar os 40 mil euros que pode arrancar já este ano. Sincero e sem rodeios, José Sousa responde a tudo.

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Gazeta da Beira (GB) -Já é autarca há cerca de dez anos. O que é que o motivou a aceitar o desafio?

José Sousa (JS) –Comecei por aceitar um desafio de um colega, para ser tesoureiro da sua lista e depois, em função do resultado eleitoral, acabei por ser, “empurrado” para o lugar de presidente de junta. Estou aqui com o objetivo essencial de ajudar as pessoas é esse o meu desafio. Às vezes, contudo, desanimámos, temos algumas situações desagradáveis. Na Junta de Freguesia fazemos um esforço terrível para levar o barco a bom porto. A maior parte das pessoas não entende isso, pensa que é tudo facilidades, mas não é.

 

GB- Como Presidente de Junta teve como grande desafio a União de freguesias de Cedrim Paradela. Um processo que não foi fácil. Foi um início bastante conturbado…

JS-Sim, foi… isto porque tive que levar a Assembleia de Freguesia o ponto da localização de sede de freguesia a votação. Mas eu tinha que o fazer. Eu perante os habitantes da freguesia de Paradela tinha todo o dever de a fazer. Foi um processo bastante complicado. Nós, na antiga junta de freguesia de Paradela, participamos em todas as manifestações que ocorreram contra a reorganização territorial, acompanhei todas como os meus colegas do executivo na altura. Todos os habitantes ficaram a saber que o artigo quinto dizia que a localização de sede ia ser discutida em Assembleia de Freguesia, até 90 dias depois da instalação da Assembleia. Ora, eu ficaria muito mal se não tivesse levado aquele ponto a discussão. Eu compreendo as pessoas de Cedrim, foi avançado que à partida seria as freguesias com mais eleitores que ficariam com sede, mas não foi isso que funcionou na maioria das freguesias do país.

Agora, essa situação passada, a mim não me faz diferença absolutamente nenhuma que a sede seja em Cedrim ou em Paradela.

GB- Mas depois desse período inicial, mais de meio ano depois, sente que as pessoas já estão acostumadas a esta nova realidade?

JS-Nem todas. Eu noto nas pessoas. Aqueles que na altura, em campanha eleitoral, se manifestaram contra o meu projeto, hoje, ainda são contra o meu projeto. Tanto em Paradela como em Cedrim. Não tenho dúvidas.

GB- Tendo em conta o caso concreto da Freguesia de Cedrim e Paradela, a União de freguesias é uma vantagem ou uma desvantagem?

JS-Eu penso que no futuro será benéfico, mas, de momento, não estou a ver onde é que estamos a lucrar. Tanto numa freguesia como na outra. Diziam que se iam reduzir custos, mas eu não vejo isso nesses moldes. Antes pelo contrário. Penso que as despesas aumentaram. Para podermos prestar o atendimento ao público tivermos que nos equipar com um sistema novo e remodelar todo o sistema informático. Isto para evitar que os habitantes de Cedrim venham a Paradela e os de Paradela a Cedrim, porque isso seria massacrar as pessoas. Assim, optamos por fazer atendimento em Paradela e Cedrim. Portanto, temos os dois edifícios na mesma a funcionar. Através de uma empresa especializada tivemos, ainda, de criar um novo brasão… Por isso, a redução de custo não existe.

GB- Que balanço pode ser feito neste ano e meio de mandato?

JS- Os primeiros tempos foram essencialmente para “arrumar a casa”. O processo de encerramento das freguesias não foi nada fácil. Foi tudo feito muito em cima do joelho e os autarcas de então não estavam preparados para tratar de todas essas burocracias. No nosso entender, não houve formação suficiente para se efetuar esse processo. Tudo isto foi, também, um processo de adaptação, às pessoas, ao dia-à-dia… Agora, passado esse período de adaptação, já estamos a realizar algumas empreitadas, aquilo que prometemos às pessoas queremos cumprir. O meu objetivo é cumprir o meu projeto. Não quer dizer que não vamos fazer uma ou outra obra que até estava no projeto de outras candidaturas, isto se considerarmos pertinentes. Preferencialmente, lutaremos pelo nosso, uma vez que foi o mais votado.

GB-Falou de algumas empreitadas… Concretamente, o que está a ser feito?

JS-Em Cedrim já remodelamos alguns lavadouros que estavam abandonados há uma série de anos. Em curso estão, também, uma série de pequenas obras: construção de valetas, estradas que tinham sido começadas nos mandatos anteriores e que não foram concluídas, muros em parcelas de terrenos que foram cedidas para o alargamento de estradas e caminhos, criamos também condições para que no cemitério em Cedrim se possam comprar terrenos, para criar sepulturas. Estamos agora a tratar de um projeto para o alargamento do cemitério que prevê a criação de mais 18 a 20 sepulturas.

GB- E em Paradela?

JS- Em Paradela estamos também a avançar com algumas empreitadas para pavimentação de alguns locais que ficam bastante distantes do centro: Dordelinho e Ribeiro. Infelizmente, ainda, têm caminho de terra batida. Essas duas obras vão ser totalmente comparticipadas pelos Baldios de Paradela e pela junta de freguesia. Com o apoio da Câmara vamos também avançar com um troço que vai de Penouços até ao alto da Teca, que vai ser alargado. A curto prazo vamos jardinar todos os espaços envolvente da Igreja de Paradela. Uma obra que também será executada com dinheiro da Junta de Freguesia e dos Baldios. Recentemente fizemos um pavimento na capela de Soutelo, também com a colaboração dos Baldios. Este ano, em princípio, as ruas do local de Soutelo ainda vão ser todas pavimentadas. Estamos aqui para dar a cara pelo povo naquilo que for necessário!

GB- E para o futuro quais são as prioridades para este mandato?

JS- A minha maior prioridade é o alargamento do Cemitério em Cedrim e a criação de acesso dignos para o cemitério. Isto porque, Cedrim não tem o mínimo de condições a nível de acessos ao cemitério. Queremos avançar com essa obra, ainda este ano, será uma obra que custará muito dinheiro, estamos a falar de cerca de 40 mil euros. Não sei se será possível, mas do próximo ano não pode passar, é mesmo para avançar. Depois, há aquela rua da capela mortuária à variante, nas Ínsuas, que gostava imenso de ver realizada ainda neste mandato. Também gostaria que em Paçô de Baixo, na Rua do Porto Carro, fosse efetuada uma remodelação, nas entradas e saídas do lugar e nos acessos.

GB- A lei indicava que no início deste ano as águas seriam obrigadas a passar para sistemas, municipais e intermunicipais. Qual a situação concreta da Freguesia?

JS- Neste momento estamos num compasso de espera. Não por nossa causa, não por nossa vontade, mas porque não sabemos aquilo que devemos fazer. A lei era clara, dizia que a água a partir do dia 1 de janeiro de 2015 passaria automaticamente pra o Município, mas, até agora, está tudo na mesma. Estamos disponíveis, à espera de uma resolução. Neste momento, não sabemos se podemos continuar com a água ou se a temos que entregar.

GB- Na sua opinião, qual seria a melhor decisão? Continuar a gerir a água ou entregá-la à ADRA (Águas da Região de Aveiro)?

JS- Eu reconheço que a Junta de Freguesia, por si só, não tem condições para fazer tratamentos necessários às águas, para termos um sistema de água a funcionar dentro da norma e da lei teríamos que entregar as águas à ADRA, isso seria o correto. As pessoas teriam melhor qualidade da água. Agora, ainda nada está decido. O povo não aceita de maneira nenhuma que a Junta entregue a água. Eu estou convencido de que se não entregarmos a água também não vamos ter saneamento. Nenhuma empresa fará uma rede de saneamento, se não estiver a explorar a água. A minha opinião é que devemos entregar a água. Eu também sou consumidor de água e também vou pagar mais, mas também terei mais qualidade e mais segurança. Esta é a oportunidade de nos livrarmos de algumas responsabilidade que poderão ser graves. Nas mãos de uma empresa que esteja vocacionada só para aquele sector, penso que estamos mais bem servido.

GB- Já é autarca há cerca de dez anos e, entretanto, veio a crise. Quais as diferenças entre gerir hoje uma Junta de Freguesia e há uma década atrás?

JS- Eu não noto nenhuma diferença. Aliás, eu considero que o País não está em crise, antes, está a arrumar a casa. É o que eu penso. A gestão da junta faço-a precisamente como fazia há 10 anos atrás. Exatamente o mesmo. A minha boca sempre soube dizer sim e não. Sempre que nos é solicitado certas empreitadas, se eu tiver que dizer que não, digo que não. Quando mandar fazer uma empreitada, tenho que ter a certeza que tenho dinheiro para a pagar no final. Senão, não a mando fazer. Creio, portanto que a nível de junta de freguesia de Paradela e de Cedrim a crise não afeta nada. O que temos verificado é que há pessoas que deixam atrasar os seus pagamentos na Junta de Freguesia, mas também já cheguei a uma conclusão: aqueles que são os mais cumpridores são aqueles que eu sinto que têm mais dificuldades.

GB- Com a ecopista que atravessa Cedrim e Paradela e a requalificação das Eiras em Cedrim, duas obras recentes, a freguesia ganhou um novo potencial turístico?

JS- Sim, sem dúvida. É de louvar a obra que foi feita na antiga linha do Vale-Vouga. A ecopista tem muita importância no nosso concelho, em especial para Paradela e Cedrim. Traz muitos turistas à nossa terra. Verificamos que há muitas pessoas, não só do concelho, mas também de fora, que utilizam o espaço. A ecopista ajuda muito o comércio local em geral. Nos fins-de-semana, quando está bom tempo, há muito movimento, foi uma obra bem-vinda à freguesia.

Relativamente, ao espaço das Eiras, é um espaço que admiro bastante. No ano passado foi a primeira vez que participei na Festa das Eiras. Eu não vou criar nenhum obstáculo para que se faça este evento anual, antes pelo contrário. Estou disposto a apoiar e a colaborar dentro das possibilidades. Agora, considero que este espaço devia ser mais rentabilizado. Depois da requalificação das Eiras, a Junta quase que se obrigou a fazer este evento anual. Contudo, realmente é pena que o espaço não seja aproveitado durante o ano, porque há possibilidade de aí criar várias atividades, o espaço é bastante atrativo.

GB- Cedrim tem uma Zona Industrial muito bem localizada, relativamente perto da A25, contudo, a maior parte dos pavilhões não está em funcionamento. A falta de emprego é um dos maiores problemas da freguesia?

JS- Nós temos muita falta de empresas que se instalem no nosso concelho. Quando frequentei a minha Escola Primária, tinha cerca de 10 colegas, todos do meu ano e da minha freguesia. Hoje posso-vos dizer que a viver, aqui, em Paradela, só sou eu e outro colega. Os outros estão todos a viver fora, saíram do concelho porque não encontravam postos de trabalho para eles. Eu conheço famílias que tinham sete e oito filhos e foram-se todos embora da freguesia. Eleições após eleições, nós consultamos os cadernos eleitorais e cada vez temos menos habitantes. Se fizermos uma Raio-X à freguesia vemos que somos uma freguesia muito envelhecida. Os jovens têm que fugir daqui para conseguir um posto de trabalho.

GB- Tendo em conta o envelhecimento da freguesia, qual é hoje a situação das extensões de saúde na freguesia?

JS- Em Paradela já fechou há já alguns anos, em Cedrim, atualmente funciona dois “meio dias” por semana. Vou ser muito sincero… eu não sou contra o encerramento das extensões de saúde. O que eu gostava era que no concelho de Sever do Vouga houvesse condições para que a qualquer hora da noite nós nos pudéssemos lá dirigir, para sermos socorridos, em vez de nos termos que deslocar para Aveiro. As extensões de saúde só serviam para o seguinte: consultas de rotina e passar umas receitas médicas. Sendo só para isso, no meu ponto de vista, se o País está em crise, há que anular esses serviços e concentrar os médicos em Sever do Vouga. Eu para ir a uma consulta, ir a Paradela ou a Pessegueiro é praticamente o mesmo. O que era importante era em Sever do Vouga haver um serviço permanente. Eu para ir à Aveiro, às urgências, vou ter que ter despesas de transportes, da taxa que é muito mais cara…

GB-Finalmente, para terminar… Para quem não conhece o que é que a União de freguesias de Cedrim e Paradela tem para oferecer?

JS-Tem muito para oferecer. Temos um excelente rio para apreciar, uma praia fluvial, uma ecopista, o trilho dos moinhos em Paradela, o Percurso do Castêlo, em Cedrim, vários parque naturais…No fundo temos uma natureza incrível e a calma do meio rural, aliado a isto, depois, conseguimos estar perto de tudo. Estamos muito bem localizados, o que é fundamental, estamos muito perto da A25.

Biografia

José Sousa

  • Data de Nascimento: 14 de julho de 1966
  • Construtor Civil
  • Tesoureiro da Junta de Freguesia de Cedrim de 2005 a 2009
  • Presidente da Junta da Freguesia de Paradela de 2009 a 2013
  • Presidente da União de Freguesias de Cedrim e Paradela de 2013 ao presente
  • Presidente da Mirtilusa de 2013 ao presente

Redação Gazeta da Beira