Entrevista

Sérgio Soares, Presidente de Junta de Couto de Esteves

Sérgio Soares é o mais jovem Presidente de Junta do concelho de Sever do Vouga, algo que não o assusta, já que, como defende, “a responsabilidade não tem idade”. Com apenas 33 anos sabe muito bem aquilo que quer para a sua freguesia: Couto de Esteves. O turismo rural, a Barragem Ermida-Ribeiradio, os desafios de uma freguesia do Interior são alguns dos temas em destaque. O futuro de Couto de Esteves em análise, Sérgio Soares em entrevista exclusiva à Gazeta da Beira.

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Gazeta da Beira (GB) – É ainda muito jovem e é já presidente de Junta de freguesia de Couto de Esteves. O que o levou a aceitar este desafio? Sendo o autarca mais jovem do concelho sente mais a responsabilidade?

Sérgio Soares (SS) – Sempre estive muito ligado à freguesia, quer por raízes familiares, quer pela envolvência com as pessoas. Sempre acompanhei de perto e intervi ativamente em causas e preocupações da nossa freguesia. De muitas conversas surgiu um grupo de pessoas que me incentivou e criou-se um movimento, ao qual não podia deixar de corresponder. Como há algum desgaste nos partidos políticos e como o que eu sempre quis foi intervir de forma independente surgiu a oportunidade de poder ser um contributo para a freguesia.

Quanto ao facto de ser o mais jovem, isso é relativo pois a responsabilidade não tem idade.

GB-Hoje em dia o que é ser autarca, nomeadamente presidente de junta? Qual é a importância de uma política de proximidade?

SS- Ser autarca, nomeadamente presidente de junta, é estar atento e intervir de forma pro ativa na construção de sociedades desenvolvidas e sustentáveis. Apesar das Juntas de Freguesia estarem no fundo da pirâmide das instituições que nos governam, é na Junta de Freguesia que começa toda a base da nossa estrutura socioeconómica e cultural. A Junta de Freguesia está diretamente ligada às pessoas e intervém a todos os níveis, podendo contribuir para o bem-estar das pessoas. A proximidade é importante, pois se conhecermos as pessoas e o meio onde elas vivem, mais facilmente se consegue corresponder às suas necessidades e preocupações.

GB-Olhando, agora, para este quase ano e meio, que balanço pode fazer deste mandato autárquico?

SS- Faço um balanço positivo porque permitiu conhecer ainda melhor a população e as suas potencialidades. Mas sei também que existe ainda muito trabalho a fazer pois as necessidades aparecem de forma sistemática. O facto de ter reunido uma equipa de pessoas muito válidas foi uma vantagem que facilitou todo o processo e que me leva mesmo a afirmar que fui surpreendido pela positiva pois as pessoas que trabalham comigo são muito empenhadas e profissionais.

GB-E para o futuro, quais são as prioridades e desafios para a freguesia de Couto de Esteves?

SS- Para o futuro a prioridade será continuar a estar ao lado da população. A política de proximidade é muito importante, principalmente nas freguesias descentralizadas e mais envelhecidas, com é o caso de Couto de Esteves. A Junta de Freguesia pretende estar atenta aquilo que são as necessidades da população e ouvir todas as sugestões

Aproximam-se grandes desafios e é importante contextualizar Couto de Esteves numa interação coletiva e integrada, permitindo o desenvolvimento da nossa freguesia e que esta acompanhe os objetivos a que as sociedades atuais estão obrigadas a atingir.

Internamente, a recente transformação da freguesia, devido ao enchimento da barragem de Couto de Esteves/Ribeiradio obrigar-nos-á a adaptarmo-nos à nova configuração do território. Existe alguma expectativa à volta do que se poderá fazer na albufeira e nas suas margens. Aguarda-se um documento que ainda não está definido: O Plano de Ordenamento da Albufeira e o qual irá definir as áreas e as medidas para a sua utilização.

GB-Couto de Esteves foi a freguesia do concelho mais prejudicada com a Barragem. Integrou a Comissão de Acompanhamento dos trabalhos da Barragem de Ribeiradio/Ermida. Relativamente às medidas compensatórias qual é o ponto de situação?

SS- É verdade, integrei uma comissão que acompanhou a parte final dos trabalhos da construção do Aproveitamento Hidroelétrico de Ribeiradio-Ermida, a qual elaborou um relatório com o levantamento dos impactos que esta obra provocou no concelho de Sever do Vouga e o qual se fez chegar ao promotor da obra. Não tenho conhecimento de nenhuma medida compensatória. Continua-se é a aguardar que as medidas definidas, antes do início da construção, no Estudo de Impacte Ambiental, sejam cumpridas pelo promotor. O empreendimento está na fase terminal e muitas dessas medidas estão por cumprir.

GB-O turismo rural pode ser uma fuga à “desertificação do Interior”. De que forma está a ser potenciado na freguesia? Que outras medidas defende para minimizar estas assimetrias?

SS-Há mais de 15 anos que o turismo rural é potenciado na nossa freguesia e que existem preocupações com o ambiente e preservação da natureza. Na freguesia de Couto de Esteves existe uma enorme dinâmica no que respeita ao turismo rural que tem vindo a progredir também devido ao aumento do número de espaços de alojamento local.

As várias associações locais e os proprietários de espaços de alojamento local promovem uma extensa lista de iniciativas ao longo do ano, proporcionando a turistas e visitantes uma variedade de oferta de atividades culturais, desportivas e sociais, como por exemplo o Festival das Sopas, as caminhadas e passeios de bicicleta, a Desfolhada Tradicional, a Serenata ao Luar, observações astronómicas, convívios de pesca e de são Martinho, concertos, peças de teatro, jogos tradicionais, palestras didáticas e workshops. É também neste sentido a Junta de Freguesia apoia o turismo rural que cada vez mais leva o nome de Couto de Esteves além-fronteiras e que faz com que turistas nacionais e estrangeiros visitem a freguesia e desfrutem das suas potencialidades com características muito selvagens.

Para minimizar as assimetrias que existem entre o litoral e o interior defendo que todas as entidades se esforcem para melhorar as vias de comunicação que ligam o interior ao litoral, haver maior preocupação com os serviços de saúde, de educação e de criação de postos de trabalho no interior.

GB- No final do ano, soube-se que no lugar de Lourizela, no Rio Lordelo, poderá ser construída uma mini-hídrica. Há já mais alguma informação? Na altura, em declarações à Gazeta da Beira, mostrou-se contra a construção desta infraestrutura. De que forma esta obra pode prejudicar a freguesia?

SS- Neste momento não existe mais nenhuma informação. Se o mesmo se vier a concretizar os impactos são negativos para a freguesia. Depois do enchimento da Barragem de Couto de Esteves/Ribeiradio a freguesia de Couto de Esteves perdeu grande parte do seu património natural. O troço do rio Lordelo onde se pretende construir a mini hídrica é um dos que se salvou. A construção daquela mini hídrica não só irá submergir um dos mais belos troços do rio Lordelo como irá desviar através de uma conduta de diâmetro 2,5metros o caudal natural do rio Lordelo. Todas as espécies autóctones ficarão em risco. Algumas levadas de regadio tradicional que ainda abastecem alguns campos agrícolas de subsistência podem ficar condicionadas. Aquele troço do rio tem ainda um elevado potencial turístico sendo considerado um dos melhores locais em Portugal para a prática do canyoning. A criação de mais um lago artificial potenciará a formação de nevoeiros e aumento de humidade, principalmente junto da aldeia de Parada. O facto de a albufeira estar prevista para um local onde o solo é de máxima infiltração coloca em causa a manutenção do nível máximo de enchimento nos meses de verão, pois o caudal é muito reduzido e potenciando assim uma mancha de lamas com aspeto desagradável nestes meses. A abertura de um túnel no subsolo com 2,5metros de diâmetro e cerca de 2 quilómetros de comprimento a dezenas de metros de profundidade colocará em causa as nascentes de água particulares que abastecem a aldeia de Lourizela, onde não há abastecimento de água pública.

GB-É também uma das vozes mais ativas na Assembleia Municipal. O facto de ter sido eleito numa candidatura independente é uma vantagem?

SS- Não se pode dizer que é vantagem, é uma forma de estar. Nos meios pequenos o mais importante é estar ao lado da comunidade, independente dos partidos políticos.

GB-Sempre se envolveu muito com as associações da freguesia. Qual a importância do associativismo nos dias de hoje tendo em conta o caso específico de Couto de Esteves?

SS- O associativismo é um caso de sucesso em Couto de Esteves com várias associações e todas muito dinâmicas. As várias associações promovem atividades lúdicas, desportivas, culturais, sociais e ambientais de uma forma muito complementar. Estas associações estão muito ligadas às pessoas e aos vários lugares da freguesia havendo mesmo uma componente muito social que promove o bem-estar das pessoas. É também através do associativismo que se faz muitas vezes a ligação com os filhos da terra e com os emigrantes. Mais recentemente é também através do associativismo que se tem promovido a freguesia no exterior.

GB-Para finalizar, para quem não conhece quais são as principais potencialidades de Couto de Esteves?

SS-A principal potencialidade de Couto de Esteves é o valor humano! As pessoas são acolhedoras, sabem receber e fazem com que quem nos vem visitar se sinta bem em Couto de Esteves. Também para quem vem visitar Couto de Esteves a gastronomia é um dos cartões-de-visita, onde se podem saborear os vários pratos locais como por exemplo a vitela assada com arroz no forno.

Couto de Esteves é um território riquíssimo do ponto de vista patrimonial. No que respeita ao património natural tem características particulares, sendo atravessado por quatro rios de extrema beleza natural e onde se podem encontrar belíssimas cascatas e praticar desportos radicais e de natureza. Do ponto de vista arquitetónico tem uma variedade de monumentos para visitar como por exemplo a Anta da Cerqueira, a Casa da Câmara e Cruzeiro Triunfal, a Casa da Fonte, o Pelourinho, a aldeia típica dos Amiais com eira comunitária e um extenso património religioso destacado pela valiosíssima talha dourada da Igreja Matriz, as Capelas, Cruzeiros e extraordinários exemplares de Alminhas.

Biografia: Sérgio Soares da Silva

  • Engenheiro Civil e Consultor em Desenvolvimento Local.
  • Desempenhou vários cargos em associações locais de âmbito cultural, social e para o desenvolvimento comunitário, entre 2001 e 2015, tendo recebido vários prémios de mérito de dedicação ao associativismo local e ao desenvolvimento de projetos inovadores.
  • Desde 2006 desempenha funções de direção técnica em várias empresas da área da construção civil, dirigindo obras em Portugal, Espanha e França.
  • Jovem agricultor tendo instalado, entre 2012 e 2013 um projeto de plantação de 1,00ha de groselhas, mirtilos, framboesas, morangos e ervas aromáticas.
  • Presidente da Junta de Freguesia de Couto de Esteves desde 2013.

Redação Gazeta da Beira