“Em muitos casos somos nós a família dos idosos”

Entrevista a Cristina Diogo, diretora técnica da Misericórdia de Oliveira de Frades

81e41af4-c870-4e62-b65d-85bfd112cc65No âmbito do projeto “Em Rede pela Vida”,  promovido pela ADRL e apoiado pelo EDP Solidária Barragens,  estivemos à Conversa com Cristina Diogo, diretora técnica da Misericórdia Nossa Senhora dos Milagres, em Oliveira de Frades. O objetivo é pintar o retrato de como vivem os idosos na nossa região. O isolamento e a solidão, os seus saberes e tradições, a importância de um envelhecimento ativo e da promoção de encontros intergeracionais são alguns dos temas em destaque.

 

Gazeta da Beira (GB) – Tendo em conta que o trabalho da Misericórdia chega a 80% do concelho, em Oliveira de Frades verificam-se muitos casos de isolamento e solidão nos idosos?

Cristina Diogo (CD)- Comparando a vila de Oliveira de Frades, com os utentes de Ribeiradio, efetivamente existem diferenças. Em Oliveira de Frades, de forma geral, os utentes vivem em melhores condições e têm uma melhor retaguarda familiar. Em contrapartida, em Ribeiradio temos situações bastante mais complicadas e de facto, muitas vezes, as famílias deles somos nós, porque de facto não têm ninguém que os acompanhe, ou, quando têm, muitas vezes, também não são as pessoas com melhor formação para o fazer.

 

GB- Neste cenário o apoio domiciliário é uma importante ferramenta para combater essa realidade, uma vez que que permite chegar a outras pessoas, para além dos utentes do lar e do centro do dia que recebem um acompanhamento mais efetivo?

CD- Exatamente, As pessoas que estão no apoio domiciliário precisam de vários serviços. Efetivamente, não tendo quem os possa assumir, de facto, nós somos uma boa solução. Nós acompanhamos de forma muito próxima as pessoas. Mesmo com a questão da saúde, sempre que é necessário, nós acompanhamos às consultas. Connosco eles contam. As famílias, muitas pelo facto de também estarem a trabalhar, não têm possibilidade de os acompanhar. Muitas vezes, não têm mais ninguém para além de nós. Acabamos por ser a referência de família de muitos utentes, sem dúvida nenhuma.

GB- Qual é a importância de um envelhecimento ativo? Será capaz de manter os idosos jovens por mais tempo?

CD-Traz inúmeros benefícios não só a nível físico, mas, também, a nível cognitivo. Na generalidade, os nossos utentes têm um nível de escolaridade muito baixo, a cultura é uma cultura rural, de modo a que não estão muito recetivos a grandes desafios intelectuais. Mas, efetivamente, o facto de estarem em convívio, o facto de participarem nas atividades que lhe são propostas, obviamente que é benéfico para eles, quer nas relações sociais, quer na partilha de ideias e atividades. É uma forma de estimular a parte cognitiva e depois trabalhamos, também, para que tenham uma mobilidade constante. Tudo isto, contribui, claramente, para se manterem, ainda, uns jovens.

 

GB- Um dos objetivos do projeto “Em Rede pela Vida” é promover o contacto intergeracional. Esta é também uma prioridade da Misericórdia?

CD-É importante e nós temos essa preocupação. O nosso plano de atividade prevê iniciativas que promovam essa partilha de gerações. Temos também a vantagem, aqui, em Oliveira de Frades, de termos, aqui, mesmo ao lado, o Jardim de Infância, o que permite que se promova mais esse tipo de atividades. Também costumamos ter sempre a participação das escolas, especialmente a participação de escolas primárias que nos visitam frequentemente, quer aqui no lar de Oliveira de Frades, quer em Ribeiradio e que nos permite esse contacto intergeracional.

GB-Esse contacto é também fundamental, na medida em que, atualmente, há uma tendência da sociedade em desvalorizar os mais velhos. Concorda?

CD- As crianças convivem muito pouco com os idosos, nomeadamente com os próprios avós. E de facto, como vivemos numa sociedade que cultiva o culto pela beleza e pela juventude, olha-se para os idosos, por vezes, com alguma aversão. De modo que, considero que é desde pequenino que se pode aqui introduzir alguns valores e algum respeito relativamente aos mais velhos.

 

GB-Esse contacto intergeracional é essencial para que não se perca, entre gerações, as tradições, os costumes e os saberes ancestrais?

CD-Exatamente, e de facto o nosso plano de atividades deste ano é muito centrado nas tradições, sendo que, o objetivo principal é de facto os idosos manterem-se ligados e recordar as suas experiências e ao mesmo tempo, partilhar com os mais jovens as suas tradições. A esse respeito, recentemente, fizeram as vindimas em que os idosos e as crianças do jardim foram juntos para a vindima e foi interessante recordar esse processo. Tanto os idosos, como as crianças têm muito a ganhar com estas trocas.Redação Gazeta da Beira

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.