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Festas de Inverno: quando o profano e o sagrado se cruzam
Festas de Inverno: quando o profano e o sagrado se cruzam

No dia 26 de dezembro, quando a Igreja Católica celebra tradicionalmente Santo Estêvão, diácono e primeiro mártir, em Ousilhão as pessoas “sentem e vivem o verdadeiro espírito de Natal”, em termos “de fraternidade, de juntar, unir, as pessoas”. Ousilhão é uma aldeia transmontana do município de Vinhais, distrito de Bragança, a cerca de 8 km da sede do concelho.
O tradicional período de Natal coincide com a ‘Festa dos Máscaras’ ou a festa de Santo Estêvão, “em que dezenas de máscaras percorrem as casas da aldeia a dar as boas festas”, refere o professor e investigador Roberto Afonso, em entrevista à agência noticiosa católica.
“Estas visitas feitas pelos máscaras, acompanhados de gaiteiros e pelos moços que vão a encabeçar esse cortejo, permitem ver que as portas estão todas abertas, as pessoas são recebidas com uma dança ritual à volta da mesa, e depois de dar as boas festas comem e bebem e seguem para a casa do lado”, desenvolveu o investigador.
Roberto Afonso destaca que Vinhais é “riquíssimo em festas de inverno”, que também marcam o nordeste transmontano, sendo o solstício marcado pelos caretos que, “com os seus chocalhos com funções apotropaicas”, tentam “expurgar os males, expulsar a invernia, a escuridão e as trevas” presentes no dia-a-dia destas gentes.
A partir de 31 de outubro, “a primeira festa de inverno, com o primeiro mascarado a sair” é em Cidões, uma outra aldeia transmontana, e continua, a partir de 13 de dezembro, no dia de Santa Luzia, com a ‘Festa do Velho e da Galdrapa’, em Mirando do Douro.
“Depois, os máscaras assumem grande força no ciclo dos 12 dias entre o Natal e a Epifania, dedicado principalmente a Santo Estêvão, continua no Carnaval, que ainda faz parte deste ciclo de inverno, e culmina na Quarta-feira de Cinzas, primeiro dia da Quaresma”, acrescenta Roberto Afonso.
Depois da missa de imposição de cinzas, “centenas de diabos vagueiam pelas ruas acompanhados pela morte”, vão apanhando os transeuntes desprevenidos e, quando apanhados, o ritual prossegue com rezas de umas ladainhas semipagãs – “Salvé rainha, mata a rainha, mete-a no pote, unta o bigode; Credo, creio em Deus todo-poderoso, o folho do rei criou um raposo; Padre-nosso, rilha o osso, rilha-o tu que eu já não posso”.
Na exposição ‘Entre Deus e o Diabo’, com cerca de 170 peças, patente até ao próximo dia 31 de maio, no Centro Cultural Solar dos Condes, em Vinhais, “estão o sagrado e o profano representados, com cabras, com animais imaginados pelos artesãos, tirados da sua criatividade, e também alguns santos associados a estas festas – São João, São Pedro, Santo António e Santa Bárbara, a padroeira contra as trovoadas”, salientou Roberto Afonso, também responsável daquela mostra.
30/12/2021

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