EDITORIAL 853

Um sobressalto em defesa da Liberdade

Um sobressalto em defesa da Liberdade

Surgiram esta semana situações contraditórias que tiveram grande expressão mediática nacional e até internacional e que espelham como, passados quase 50 anos sobre o restabelecimento da liberdade de pensamento, de expressão, de crítica e de criação no nosso país, o tema continua atualíssimo.

O ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, criticou o que se passou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à TAP, considerando que “estamos a abrir aqui as portas para uma lógica de ‘reality show’ que degrada todas as instituições” e comparou alguns deputados da CPI a “uma espécie de procuradores do cinema americano de série B da década de 80”. As suas declarações mereceram condenação da direita à esquerda, inclusive de deputados do seu próprio partido.

Um “cartoon” passado na RTP que se referia, segundo os autores, ao assassinato em França do jovem Nahel pela polícia, que motivou dias de motins em várias cidades, levou o ministro da Administração Interna, José Luís Carneiro, a pedir num tom de censura explicações à direção da estação televisiva. Mas não foi só o ministro, também o Chega, o CDS e até o PSD reagiram à passagem do “cartoon” na televisão.

Assistimos em Espanha a uma onda censória em municípios e comunidades autonómicas onde o Vox, partido da extrema-direita, recentemente entrou nos respetivos governos em coligação com o PP. A censura recai sobre peças de teatro e até filmes de animação da Disney sob o argumento que temas como a transsexualidade e um simples beijo entre duas mulheres não são adequados. A peça de teatro “Orlando”, de Virgínia Woolf, ou “La villana de Getafe” do dramaturgo do séc. XVII Lope de Vega estão entre as obras censuradas.

A gravidade das situações é obviamente diversa. Contudo, alerta-nos para uma certa tendência para que de forma implícita ou até explícita, como no caso espanhol, o espírito censório regresse, colocando em causa a liberdade de expressão e criativa, como muito bem defendemos quando foi o caso, em 2015, do ataque ao jornal satírico francês Charlie Hebdo. Era importante que o sobressalto em defesa da liberdade, que foi amplamente expresso na frase “Somos todos Charlie”, não esmorecesse.

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