EDITORIAL 849
A NÃO POLÍTICA

Anda meio mundo com as atenções viradas para o caso Galamba e para o aparente desaguisado entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa. Discute-se quem terá a culpa pelo alegado fim do idílio e aposta-se na data em que o presidente da República mande dissolver o Parlamento.
Este é o maior favor que se pode fazer a quem não quer discutir as políticas, talvez porque não tenha soluções diferentes das atuais, e apenas quer debater os lugares do poder. Aquilo a que se chamou a “crise política e institucional” que se desenrola entre Belém e S. Bento, entre a Lapa e o Rato, está a obscurecer o problema principal: uma população que continua a perder rendimentos e qualidade de vida e que se sente cada vez mais marginalizada.
A uns parece que tudo é permitido, desde indemnizações a vencimentos e prémios milionários, a outros, à maioria, que se resignem com baixos salários, precariedade galopante, serviços públicos em degradação, carência habitacional, preços dos bens essenciais que não param de subir.
As grandes empresas da energia, da grande distribuição ou do setor financeiro continuam, em plena crise, a acumular lucros fabulosos que, apesar da pandemia, da crise inflacionista, da guerra, não param de crescer ano após ano. Soubemos há dias que os gestores da banca tiveram aumentos na ordem dos 20%, mas estão a propor para os seus funcionários atualizações salariais de 2,5%, muito abaixo da inflação, o que significa perda real de salário. Veja-se o que se está a passar com a TAP, salva da falência e do encerramento por uma forte injeção de capital público, mas, agora que até começou a dar lucro, vai ser de novo privatizada.
Pois estes são os debates a que estão a querer fugir com os “casos e casinhos”, quando o problema é mesmo esse: os contribuintes pagam, resgatam bancos, salvam empresas, injetam dinheiro onde for preciso, mas para acudir aos reformados, à generalidade das pessoas que trabalha e tem salários de miséria, aos pequenos comerciantes com a corda na garganta, para as vilas e cidades do interior que continuam a perder população e capacidade económica, para os professores que querem paz nas escolas, para os serviços de saúde que não respondem às necessidades, nunca há capacidade de investimento.
A dívida, o défice, a Europa, a crise que nunca acaba, a guerra sem fim à vista, tudo é um problema inultrapassável para tratar do que é preciso. Contudo, a política no campo mediático continua às voltas, sai ministro ou não sai, o portátil do assessor tem ou não informação classificada, o PR fala com o PM ou não fala, há mais um escândalo ou ainda não rebentou o próximo?
Isto é mesmo a não-política, é o que não interessa mesmo nada “aos de baixo”, à maioria de nós, mas que nos traz iludidos, telejornal a telejornal amarrados a uma telenovela que degrada a democracia e tira confiança à política que devia ser a da exigência de melhorar a vida das pessoas comuns, da construção de mais justiça social. Precisamos de regressar urgentemente à política a sério.
11/05/2023

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