EDITORIAL 848
Cada vez mais se justifica

“Eight-hour day with no cut in pay!” (jornada de oito horas sem corte no salário!) foi a palavra de ordem que motivou centenas de milhares de manifestantes que foram às ruas em Nova York, Chicago, Detroit e tantas outras cidades dos EUA, exigindo redução do horário de trabalho quando à época se chegava a trabalhar 16 horas diariamente, 6 vezes por semana.
A repressão revelou-se brutal, principalmente em Chicago, uma das cidades norte-americanas mais industrializadas. Foi em 1886, morreram trabalhadores e houve condenações de sindicalistas à forca. É daqui que nasce dramaticamente o dia 1º de maio, Dia do Trabalhador, assinalado em todos os Estados do Mundo, talvez o único dia comemorado universalmente de modo consensual.
A caminho dos 50 anos do 25 de abril, é imperioso recordar que o chamado Estado Novo não permitia que a data fosse assinalada. Qualquer manifestação era reprimida e, frequentemente, a polícia política (PIDE), nas vésperas do 1º de maio, “engavetava” pessoas conotadas com os sindicatos e a oposição para desmobilizar qualquer movimentação antirregime. Nessa altura, muitos trabalhadores optavam por sair das cidades e ir para o campo fazer piqueniques com camaradas de trabalho e famílias, não deixando de assinalar o dia, mas procurando evitar a repressão.
Atualmente justifica-se comemorar o 1º de maio? Claramente que sim! Hoje como sempre, em particular num contexto político, económico e social de maioria absoluta, o movimento laboral não se pode abster de ter um papel combativo, sem ficar condicionado por eventuais lealdades alheias aos interesses próprios dos trabalhadores enquanto classe.
Lamentavelmente, nos últimos anos, a coberto da crise financeira e depois da pandémica, a distribuição assimétrica dos rendimentos existente agravou-se em desfavor da generalidade do fator trabalho (incluindo pensionistas). Agora é a inflação que favorece os mais poderosos, nomeadamente dos setores ligados à energia, à finança e à grande distribuição, aprofundando-se a depreciação do valor do trabalho, em franca perda real.
Se me permitem, dirigir neste dia 1º de maio uma saudação especial a todos que deram parte das suas vidas e aos muitos que se continuam a empenhar na defesa de direitos e de condições de vida de quem trabalha ou trabalhou. A sua valorização é imprescindível como elemento de progresso social.
Em Viseu, bem como noutras cidades do País, está marcada para a tarde do feriado de segunda-feira uma concentração no Rossio para assinalar o Dia do Trabalhador. Já vai a caminho de século e meio, mas sempre atual nas suas múltiplas formas e objetivo.
27/04/2023

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