EDITORIAL 837
O irrealismo que conduz a más soluções
O irrealismo que conduz a más soluções
A proposta de Orçamento do Estado (OE) para 2023 apresenta uma previsão de quadro macroeconómico que se afigura desfasada da realidade e que acaba por determinar uma escolha do Governo quanto à forma de enfrentar a crise.
O Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou há dias que a taxa de crescimento homólogo da inflação (IPC) foi de 10,2% em outubro. Havia quem dissesse que a inflação tinha atingido o pico em setembro e que agora a tendência era para decrescer. O relatório do INE desmentiu essas afirmações.
Porém, mais grave do que isso é que o quadro macroeconómico do OE, que vai ser seguramente aprovado no próximo dia 25, insiste em prever uma inflação para 2022 de 7,4%. Com a evolução a que estamos a assistir, quem é que pode acreditar nesse valor?

Ora, as respostas do OE, nomeadamente nos salários, pensões e apoios sociais, vai ter esse número de 7,4% como referência e se essa referência se comprovar estar errada, como tudo indica, as respostas também estarão erradas, necessariamente.
Mas não ficamos por aqui. A previsão da inflação para o ano que vem, constante no quadro macroeconómico da proposta de OE, é de 4%. Para que assim fosse, seria preciso que a taxa de inflação baixasse abruptamente nos próximos meses de 2023. Nada indica que isso vai acontecer. A instabilidade provocada pela prolongada guerra na Ucrânia, a falta de controlo dos preços dos produtos essenciais, nomeadamente na energia, e a vertigem especulativa que está a animar as fileiras da energia, da distribuição alimentar e da finança, só fazem prever o pior.
Se a referência de 4% para a inflação estiver errada, de novo a resposta para 2023 vai estar errada. Na realidade, aumentos nominais nos salários, pensões e prestações sociais significativamente abaixo da inflação, a par do aumento das taxas de juro imposta pelo Banco Central Europeu, estão a originar a quebra no poder de compra da maioria da população e podem atirar a economia para uma recessão que dificilmente será evitável.
Lamentavelmente, esta situação vai conduzir a uma perda de rendimentos do lado do trabalho de forma agregada, ou seja, da maioria da população, transferência já calculada em 7,1% em 2022, aumentando as desigualdades, o empobrecimento e a crise social, conforme a organização católica Cáritas vem denunciar. Há quem rejubile com tudo isto, sobretudo quem aposta no “quanto pior melhor” e nesta espécie de cortejo fúnebre da economia portuguesa.
Comentários recentes