EDITORIAL 833

Precisamos de mais justiça na economia

Precisamos de mais justiça na economia

A gestão dos recursos públicos volta agora a estar no centro das preocupações dos portugueses (e não só) a partir da verificação de uma inflação galopante que atinge bens e serviços de primeira necessidade, que está a provocar acelerada erosão nos salários e pensões.

Repare-se na realidade que estamos a viver. Segundo dados oficiais, a carne aumentou 16,7%, o pão 10,7%, as frutas 13,7%, o leite, queijo e ovos 10,3% e os óleos alimentares 36,2%. São apenas exemplos, porque se formos para outros setores, como os dos combustíveis, materiais para a construção civil ou para a produção agrícola, a realidade é assustadora.

A par da subida dos lucros extraordinários de grandes empresas, reconhecidamente de pendor especulativos, como as da energia, da distribuição alimentar, as tecnológicas e o sistema financeiro, também a receita fiscal cresceu (16% em relação a julho do ano passado), ficando o Governo com mais recursos disponíveis resultantes de mais impostos diretos e indiretos à conta do aumento da inflação que está a ser suportado pelos cidadãos.

Os ganhos fiscais em julho já contabilizavam mais cerca de 5,5 mil milhões de euros, prevendo-se um acréscimo de 10 mil milhões até final do ano. Ora, não pode deixar de ser surpreendente que o chamado “Pacote Famílias Primeiro”, anunciado para compensar os impactes da inflação, se fique apenas pelos 2,4 mil milhões.

Nas pensões, o que é dado em outubro será tirado aos pensionistas em janeiro. Em vez do aumento de aproximadamente 8% que a lei prevê, os pensionistas levarão apenas 4,5%, com prejuízo para o cálculo da pensão em 2024. O que vai contar não é o montante recebido entre outubro e dezembro, mas o valor estabelecido para cada uma das pensões em 2023. Na verdade, perspetiva-se um corte no valor real das pensões.

Alguns membros do Governo têm dito que se trata “do maior aumento de pensões dos últimos 20 anos”, mas não referem que os pensionistas estão a sofrer a maior inflação dos últimos 30 anos e a maior perda de rendimentos das últimas décadas.

Todos concordamos que as finanças públicas devem ter contas equilibradas. Porém, já ficou também demonstrado que não é com o empobrecimento das pessoas e do país que se conseguem tais objetivos, antes pelo contrário. Ainda para mais quando nem sequer há um problema de défice público, visto o Estado estar a arrecadar mais impostos, muito acima do que o Orçamento 2022 previa. De facto, esta situação agrava a injustiça na repartição dos recursos e aprofunda as dificuldades das famílias.

É caso para dizer que se exige mais justiça na economia porque, assim, o “custo de vida aumenta e o povo não aguenta”.

15/09/2022


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *