EDITORIAL 832
Marta e Maria na homilia dominical
Marta e Maria na homilia dominical
Acompanhei duas jovens da família em cerimónias religiosas distintas, uma de manhã na Igreja da freguesia e outra ao final da tarde ao ar livre, na sede do concelho, ambas com notório relevo social e para as próprias. Concluí que mesmo nas cerimónias profundamente ritualizadas também se pode extrair algum sumo para além do ritual. Nestes casos, para quem quis ouvir foi exposto o papel da mulher na comunidade que, afinal, não é uma “modernice”, já nos tempos bíblicos o assunto estava, como agora se diz, na agenda.
Nos dois eventos religiosos foram lidas as mesmas parábolas; a do Novo Testamento, de S. Lucas, relatava quando “Jesus entrou numa aldeia e uma mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa. Tinha ela uma irmã, chamada Maria, a qual, sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra”, enquanto Marta se atarefava na preparação da ceia e nos trabalhos da casa.
A dada altura, Marta, aproximando-se, disse: “Senhor, não te preocupa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar.” A resposta foi clara: “Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.”
Este mesmo texto que se prende com o estatuto da mulher foi, curiosamente, objeto de diferentes interpretações por parte dos sacerdotes que presidiram às duas missas dominicais. Mais tarde, li um artigo de Frei Bento Domingues, no jornal “Público”, precisamente sobre o mesmo texto e a mesma temática, mas com uma terceira interpretação.
O pároco da freguesia disse na homilia que tanto o papel de Maria, que ouvia atentamente as ideias que o hóspede trazia, como o de Marta, embrenhada nos trabalhos domésticos, eram importantes e desempenhavam funções próprias. Apesar de Jesus no texto bíblico ter saído em defesa de Maria.
Por sua vez, o prelado que proferiu a homilia da cerimónia ao final da tarde, resumiu a lição da narrativa ao bom exemplo de Maria, uma pessoa com o dom da paciência tão necessário para ouvir, ao contrário de uma Marta impaciente e sem espaço para ouvir.
Será que não há diferenças entre Marta e Maria nas suas funções e papéis? Trata-se apenas de uma questão de comportamento, mais ou menos paciente?
Frei Bento Domingues vai direito ao assunto e confere importância ao “contraste radical entre o antigo e o novo estatuto da mulher introduzido por Jesus”. Escreve Frei Bento Domingues que “Marta representa o estatuto subordinado da mulher que não tinha acesso ao conhecimento (…) reserva dos homens e, por isso, até no templo tinham um lugar à parte”. Quanto a Maria, “representa a Mulher do Novo Testamento, resultado da revolução operada por Jesus”.
Repare-se que isto foi há cerca de dois mil anos, mas o esquecimento destes contrastes subsiste até na Igreja, por vezes subtilmente contornados.
Pergunta Frei Bento Domingues: “Será o papel dos homens na Igreja o de mostrar a inferioridade das mulheres?” Referindo-se à recente nomeação pelo Papa Francisco de três mulheres para integrar o Dicastério para os Bispos, conclui: “É exagero dizer que este é um momento histórico. É quase nada para o que urge decidir.” Sim, há demasiado tempo, já desde Marta e Maria.
28/07/2022

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