EDITORIAL 829
Um problema da democracia e do desenvolvimento dos nossos territórios
O estudo “Deserto de Notícias”, um trabalho do investigador Giovanni Ramos, associado da Labcom/UBI – Universidade da Beira Interior, começou nos Estados Unidos com o objetivo de saber quais os territórios sem órgãos de imprensa local (jornais e rádios). Posteriormente, o estudo foi igualmente realizado no Brasil e agora em Portugal.
No caso do nosso país, o estudo concluiu que existem atualmente 61 concelhos sem jornais nem rádios de informação, ou seja, as populações de cerca de 20% dos nossos municípios não têm forma de acesso à informação com o devido tratamento segundo as normas do jornalismo que procuram assegurar objetividade, independência e pluralidade noticiosa e de opinião.
O presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, João Palmeiro, referiu a este propósito que o ‘deserto de notícias’ em Portugal “vai agravar-se e que o Governo “não pode deixar de olhar”, apontando o “aumento do preço do papel, aumento dos custos de impressão, falta de papel” como problemas imediatos e graves que já estão a condicionar a atividade dos órgãos de imprensa local.
De acordo com Giovanni Ramos, os concelhos que já não têm ou estão a perder órgãos de informação locais são comunidades “que acabam sendo, digamos assim, abandonadas, porque ficam sem essa informação local” de imprensa e rádio, tornando-se dependentes das televisões para informação do país e do mundo e utilizando meios informais, com a Internet, grupos de Facebook, WhatsApp, “mas aí não é jornalismo profissional”, tratando-se de “um terreno extremamente fértil para a desinformação”, considerou.
De facto, um concelho ou uma região que não consegue garantir a existência de meios locais de informação, segundo critérios jornalísticos e de pluralidade, passa a ter um problema de democracia e de desenvolvimento.
A Gazeta da Beira fará no próximo dia 26 de junho 40 anos de existência. Sempre se assumiu como um jornal da Região de Lafões e, na nossa modesta opinião, tornou-se um referencial regional, pautando-se pelo rigor informativo, qualidade e pluralidade. A sua subsistência está em causa pelas razões imediatas que o presidente da Associação Portuguesa de Imprensa refere. Mas os problemas são estruturais. Sem quaisquer apoios diretos, com um suporte comercial pontual e sem poder contar com uma política pública que contribua para a sua sustentabilidade, os próximos tempos afiguram-se muito complexos.
Queremos, na passagem do 40º aniversário da Gazeta da Beira, saudar todas as direções e colaboradores, agradecer o muito esforço pessoal que ao longo de tantos anos tem sido dado para estes “40 anos a dar notícias de Lafões”.
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