EDITORIAL 827

Estamos a bater um novo recorde: o da inflação!

Há dias, na loja do Celso, comentava-se com grande indignação o aumento dos preços que se sente nos últimos tempos, não só nos combustíveis, mas em variadíssimas mercadorias, desde a alimentação, até a materiais para a construção ou produtos para a agricultura. Falava-se com escândalo em preços que sobem 20 e 30% de um momento para o outro, enquanto os rendimentos do trabalho não crescem e são cada vez mais exíguos. Dizia-se: “com o mesmo dinheiro compro cada vez menos!”

De facto, essa é a essência da inflação. Para medir estas mudanças nos preços, o Índice de Preços no Consumidor (IPC) mede a evolução média dos preços de um cabaz de bens e serviços representativo da despesa dos consumidores nopaís. O Instituto Nacional de Estatística (INE) anunciou que a variação do IPC em finais de abril foi de mais 7,23%, comparado com o mesmo mês do ano passado. Em março a variação já tinha sido de 5,3%. Nos produtos energéticos já ultrapassa os 26%, valor mais alto desde maio de 1985!

Esta inflação está a tornar-se num problema económico e social. Causa perda generalizada de poder de compra, sobretudo face ao aumento do preço dos produtos essenciais, e distorce as cadeias de abastecimento. São as famílias de menores rendimentos as mais penalizadas e de forma desproporcional, visto terem de dedicar a maior parte do rendimento disponível a adquirir bens essenciais, sem margem para poupanças ou para encaixar os aumentos de preços desses produtos.

Repare-se que a atualização este ano do Salário Mínimo Nacional em 6% já está a ser “comida” pela inflação que tende a ser superior a essa taxa.

A indisponibilidade do Governo para atualizar pensões e salários à taxa de inflação prevista, vai prolongar a perda real de poder de compra não só de pensionistas e de funcionários públicos, mas também no setor privado que, em geral, tem os aumentos no setor público como referencial principal para as negociações salariais.

O argumento do Governo é de que atualizações salariais para compensar a inflação iriam estimular essa mesma inflação. Isso poderia fazer algum sentido se os salários estivessem a induzir um aumento da procura daqueles bens no mercado. Porém, a realidade é outra e dramaticamente inversa. Como se comentava na loja do Celso “cada vez se consegue comprar menos.” Ou seja, qualquer atualização salarial não seria mais do que ir atrás do prejuízo.

Tudo indica que, além dos constrangimentos originados pela guerra, está a existir uma importante componente especulativa nestes aumentos de preços. As notícias mais recentes dão conta de um forte crescimento dos lucros nas grandes empresas distribuidoras de energia e de produtos alimentares. Seria decisivo que o Governo conseguisse controlar esses movimentos especulativos.

Quando a inflação está a bater recordes das últimas décadas, o Governo não devia ficar à espera que a coisa passasse, com a fezada de que o crescimento dos preços vai ser temporário. O que isto está a dar, de novo, é um processo de empobrecimento na nossa economia. Como alguém dizia na conversa da loja do Celso, baseado na sabedoria da vida, “o que sabemos é que quando os preços sobem dificilmente voltam a baixar e os nossos ordenados ficam cada vez mais longe”. Talvez não fosse mau o dr. António Costa também passar por lá.

12/05/2022


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *