EDITORIAL 821
Mudança de rumo
A votação no círculo eleitoral de Viseu refletiu a tendência maioritária no País, com o PS a ficar em primeiro lugar, não obstante ter empatado com o PPD/PSD em número de deputados (4 para cada partido), na região que já foi conhecida pelo “Cavaquistão”. No conjunto dos 3 município de Lafões, o somatório dos votos também deu a vitória ao PS.
Segundo a generalidade dos analistas, terá sido o receio de uma vitória de Rui Rio com recurso a um acordo com a extrema-direita para um suporte parlamentar maioritário, já que o da Iniciativa Liberal seria previsivelmente insuficiente, que terá ditado uma significativa mobilização de eleitores para estabelecerem uma “linha vermelha” à presença e à normalização do Chega no poder. Repare-se que a abstenção foi menor do que em anos anteriores, apesar de estarmos a atravessar um período de pandemia com muitas restrições ainda em vigor.
O PS derrota o PPD/PSD, mas também os partidos à sua esquerda. Esta maioria absoluta diminui a pluralidade, vai retirar centralidade à Assembleia da República e quase tudo se vai concentrar num governo quase omnipotente. É provável que a Democracia se ressinta.
No que respeita às hecatombes eleitorais do Bloco e PCP-PEV, a explicação não se deve ficar pelo chumbo no Orçamento do Estado (OE) ou na bipolarização que, diga-se em abono da verdade, foi claramente exagerada pelas sondagens. De facto, como os resultados demonstraram, não havia qualquer problema de governabilidade em perspetiva.
Porém, procurar explicar que o voto contra o OE, só por si, terá determinado esses maus resultados é muito limitado. Não tem sido muito falado na imprensa, mas o facto é que o PAN, que viabilizou o OE e fez alarde disso, também foi profundamente penalizado e acabou reduzido a uma deputada.
No entanto, não podemos escamotear que o chumbo do OE pelo BE e PCP-PEV originou alguma dificuldade junto de alguns setores da população. Rejeitar um OE, mas passados alguns dias colocar como grande objetivo eleitoral conseguir um acordo com esse mesmo partido que apresentou a proposta de OE, cria alguma perplexidade e até incompreensão. Os sinais foram muito contraditórios, como afirmou a jornalista Helena Pereira (editora executiva do Público) num programa televisivo.
Quanto à bipolarização, é preciso perceber que já tivemos eleições bem mais bipolarizadas, nomeadamente nas legislativas de 2002 (Ferro Rodrigues vs. Durão Barroso) e de 2015 (Passos Coelho vs. António Costa), em que o chamado voto útil exerceu forte pressão sobre os eleitores à esquerda e à direita. Contudo, a esquerda à esquerda do PS resistiu à bipolarização e até cresceu. Em 2015, o BE obteve o melhor resultado de sempre. Agora, em 2022, é preciso perceber por que razão perdeu essa capacidade de resistir à bipolarização (artificial) e perdeu 20 deputados de uma assentada.
Repare-se que esta derrota eleitoral à esquerda é o corolário de uma sucessão de perdas eleitorais neste ciclo político iniciado em 2019. A explicação também não pode ser encontrada apenas em fatores conjunturais e não se resolve com a demissão deste ou daquela dirigente. O problema será mais profundo e prende-se com a própria linha política, com a forma de comunicação com as pessoas e com a centralidade que foi dada à ansiedade de vir a concretizar um acordo com o PS para os próximos quatro anos. Este mesmo “mal” foi comum aos partidos que sofreram maiores derrotas nestas legislativas: BE, PCP-PEV e PAN.
Caberá aos seus militantes, nos respetivos congressos, tirar as devidas conclusões. Parece que quando as propostas políticas se diluem nos desejos de acordos de poder e não se consegue polarizar com força própria, perde-se.
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