EDITORIAL 810
Autárquicas e o caminho do suicídio demográfico
O exercício de comparação dos dados do recenseamento de 2017 com os do presente ano, recentemente publicados, é revelador das dinâmicas demográficas do país, em particular das regiões do interior, que não deixam de estar ligadas às respetivas dinâmicas económicas e sociais.
Na evolução 2017 – 2021 em distritos mais afastados do litoral e das áreas metropolitanas, verifica-se uma redução de 7 291 eleitores no distrito de Bragança, 9 135 no de Castelo Branco, 12 404 no da Guarda, 11 412 no de Vila Real, 19 482 no de Viseu e 4170 no de Portalegre. Na soma destes distritos, conta-se uma perda de quase 64 mil eleitores em apenas 4 anos.
É um somatório assustador, este que subtrai dezenas de milhares de pessoas a um território cada vez mais depauperado demograficamente. Viseu é o distrito do país que perde mais eleitores em termos absolutos, perto de 20 mil.
Em Lafões, os concelhos de Castro Daire e de S. Pedro do Sul são os que mais veem reduzir o seu número de eleitores, respetivamente menos 1 464 e 1 381 recenseados, cerca de menos 9% dos que tinham em 2017. Vouzela e Oliveira de Frades conseguem resistir um pouco melhor a esta sangria, com perdas na ordem dos 4%, menos 443 e 377 eleitores, respetivamente.
Esta região e a generalidade das regiões do interior caminham a passos largos para uma espécie de suicídio demográfico. À medida que a população diminui por via de um saldo natural negativo e de um saldo migratório favorável à emigração, as condições de reposição de gerações deixam de existir.
Parece não existir consciência da dimensão deste problema. Em ano de eleições autárquicas – terão lugar no próximo dia 26 de setembro – este autêntico “tsunami” populacional não consta da agenda política, apesar do seu forte impacto na economia. O crescimento do PIB é mais baixo nas regiões onde há declínio demográfico, os dados são evidentes, mas continua a não haver política para enfrentar a situação.
Fomos, há dias, surpreendidos com declarações de Helena Freitas, ex-coordenadora da Unidade de Missão para a Valorização do Interior, que acusou o atual ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, de falta de apoio para a concretização do plano para o Interior. “Quando cheguei ao meu novo contexto de trabalho, percebi que, apesar do encargo ser grande, nem orçamento de funcionamento teria”, referiu Helena Freitas.
Quando há declínio demográfico e perda de músculo económico, a desvalorização política vem por arrasto, e o círculo vicioso fica montado e difícil de romper. Nestas eleições autárquicas, os seus protagonistas têm a obrigação de não calar este caminho suicidário de desconsideração pelos direitos e pelas condições de vida das pessoas que vivem e querem continuar a viver nos territórios do Interior.
29/07/2021

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