EDITORIAL 809

Os inaceitáveis interesses que ligam banca, negócios e futebol

O ministro das Finanças, João Leão, já tinha sido questionado sobre a nomeação pelo Governo do novo ‘chairman’ do Banco de Fomento que vai gerir os fundos europeus destinados às empresas.

Nessa altura, o ministro João Leão deixou de lado qualquer dúvida, considerando que o recentemente nomeado dirigente do Banco de Fomento tinha “currículo relevante”, nomeadamente ter sido administrador do Novo Banco, o que justificaria a sua nomeação.

Com o avançar da investigação do Ministério Público ao caso Luís Filipe Vieira, o indicado ‘chairman’ para o Banco de Fomento passou a estar sob suspeita de favorecimento daquele empresário também dirigente de um clube de futebol.

Esta operação de favorecimento foi detalhada pelo jornal ‘Público’. Segundo aquele diário, prendeu-se com o processo de compra de 54,3 milhões de euros em dívidas da Imosteps (uma das empresas de Luís Filipe Vieira) ao próprio Novo Banco, por apenas 9,1 milhões de euros.

O Banco de Portugal, que confirmou na altura Vítor Fernandes para o Banco de Fomento, comunicou que irá agora avaliar os dados que vieram a público através da investigação do Ministério Público, para confirmar se estes obrigam a uma reavaliação da idoneidade.

O currículo do gestor bancário é longo, e está proximamente ligado a António Ramalho, atual presidente do Novo Banco. Passou pela administração da Caixa Geral de Depósitos, na equipa de Carlos Santos Ferreira, na altura em que o banco serviu de financiador de créditos para acionistas do BCP, incluindo Joe Berardo.

Este triângulo entre o negócio imobiliário, a banca e o futebol, com alguns setores políticos à mistura, há muito que se revelaram perigosos e a base de um certo setor do capital baseado nos favorecimentos, nas informações privilegiadas, no acesso fácil a créditos para negócios obscuros, com a cobertura de interesses políticos que, por sua vez, procuravam também obter vantagens desses negócios.

O que tem vindo a ser revelado nas investigações mais recentes tornaram evidente perante a opinião pública este triângulo. Orna-se inadmissível que o Estado nomeie altos responsáveis para o setor financeiro que vai gerir fundos públicos, com tanta displicência relativamente aos seus compromissos e às suas responsabilidades com negócios nada claros.

Um país que se confronta com dificuldades imensas no seu processo de desenvolvimento, com as desigualdades sociais e territoriais a agravarem-se, como ficou claro com a pandemia que fez aumentar a pobreza, mas também os muito ricos, tem a obrigação de combater com firmeza este delapidar de recursos em favor de uma teia de interesses que cruzam banca, negócios e futebol. É o combate necessário em nome do presente e do país que queremos para o futuro.

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