EDITORIAL 803

Trabalhar para continuar pobre

Trabalhar para continuar pobre

• Pedro Soares*

A ideia feita de que é pobre quem não trabalha, não tem um emprego ou quer viver de subsídios foi colocada em causa recentemente pelo estudo inédito “A pobreza em Portugal – trajetos e quotidianos”, realizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e divulgado publicamente no início desta semana.

É um verdadeiro murro no estômago das nossas consciências e devia servir de alerta geral para o agravamento da crise social que já começou, mas que evoluirá muito rapidamente com o fim das moratórias, do “lay-off” e dos apoios especificamente direcionados para o período da pandemia.

A pobreza não atinge uma faixa residual da população. Pelo contrário, cerca de 1 em cada 5 portugueses vive abaixo do limiar da pobreza e a maior parte das pessoas em situação de pobreza trabalha. O estudo confronta-nos com quatro perfis de pobreza em Portugal: 27,5% são reformados; 26,6% trabalhadores precários; 13% desempregados e 32,9% são trabalhadores com contrato.

Neste último perfil estão trabalhadores pobres que até conseguem ter ligações a empresas com mais de 10 ou 20 anos. O problema reside no facto de ganharem pouco ou demasiado pouco. E o que ganham têm de dividir com a família, em muitos casos, numerosa. Daqueles 4 perfis, se juntarmos os trabalhadores e os precários, percebemos que mais de metade das pessoas em situação de pobreza trabalha e tem um emprego. Nas nossas terras do interior, com muito peso do rural, muita desta pobreza está escondida, mas vemo-la quando percorremos algumas das nossas aldeias. Manifesta-se em habitações com poucas condições, morbilidade elevada, dificuldades no acesso a cuidados de saúde, alimentação desequilibrada, mobilidade reduzida, etc.

A equipa de investigadores que desenvolveu o estudo ficou surpreendida “com o peso da doença”, mencionado por muitos dos entrevistados, referindo-se a doenças crónicas ou incapacitantes, “para ajudar a explicar a situação de pobreza delas ao longo do seu trajeto”, especialmente entre os reformados, mas também dos desempregados. Ou seja, um país incapaz de garantir condições de vida dignas aos mais fragilizados.

A humildade faz com que, segundo o coordenador do estudo “a maior parte das pessoas não ache que seja pobre” ou relativize em comparação com situações de miséria absoluta. O facto é que este quadro se relaciona fortemente com um mercado de trabalho que não paga salários dignos a muitos trabalhadores. Mesmo os reformados com pensões baixas estão ligados a uma vida ativa em termos laborais com salários igualmente baixos.

Na sequência das revelações deste estudo, a Rede Europeia Anti-Pobreza pede mais ambição ao Governo português nas metas de combate à pobreza até 2030 e “coragem política” para implementar uma estratégia nacional que atenue as causas e não funcione apenas como paliativo.

Esta situação contrasta com outras em que a utilização dos recursos públicos é despudoradamente dirigida para garantir altos rendimentos, como tem vindo a acontecer, por exemplo, no setor financeiro. A pobreza pode e deve ser enfrentada com políticas públicas redistributivas e bem orientadas.  Não é uma fatalidade. É um atentado aos Direitos Humanos, um verdadeiro insulto. Que país é este que mantem cerca de 2 milhões de portugueses abaixo da linha da pobreza?!

*Diretor

15/04/2021


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