EDITORIAL 794

A intolerável pandemia que assassina mulheres

 

• Pedro Soares

Não se trata de um vírus ou de uma bactéria assassina de mulheres, mas é uma espécie de pandemia provocada pelo comportamento humano e social, numa sociedade que desculpabilizou ao longo de demasiado tempo a violência exercida sobre as mulheres em contexto doméstico.

Hoje sabemos que essa violência intolerável continua a acontecer, apesar de a legislação ter vindo a endurecer as penalizações e de se tratar de crime público. As mortes sucedem-se e são a expressão mais visível desta barbaridade que tem acontecido, infelizmente, tanto em territórios rurais como urbanos, em famílias ou relacionamentos de pessoas de vários estratos sociais e de diversos grupos etários, mesmo nos mais jovens. A violência no namoro é uma realidade conhecida. Como é que alguém pode dizer que ama outra pessoa se a agride e maltrata? Com que direito?

Em 2019 morreram 30 mulheres vítimas de violência doméstica no nosso País. O Observatório de Mulheres Assassinadas, uma estrutura da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), concluiu que em 63% destes femicídios reportados houve violência prévia e em 40% já tinham ocorrido ameaças de morte. Em 80% destes casos a violência era conhecida de outras pessoas. A violência doméstica não pode ser calada.

Segundo o relatório da Polícia Judiciária “Homicídios nas relações de intimidade – Estudo dos Inquéritos investigados pela Polícia Judiciária (2014 a 2019)”, foram assassinadas naquele período 111 mulheres em Portugal em contexto de relações de intimidade.

Isto significa que, em média, foi assassinada mais de uma mulher por mês por violência doméstica ou conjugal. Desde 2004 foram registadas 564 mulheres assassinadas em contexto de violência doméstica e deram-se 663 tentativas registadas de femicídio.

Num ano particularmente difícil, marcado pela pandemia, assinalou-se no passado dia 25 de Novembro o dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres. Lembrou-se a violência que, nas suas múltiplas formas e tipologias, é exercida contra as mulheres em Portugal e no mundo.  Especialmente, todas as mulheres que fruto do confinamento, vivem ainda mais indefesas e isoladas em contexto de violência. A denúncia deste crime e a proteção destas mulheres é responsabilidade de todos/as nós.

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